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Vida de técnico

Há tendência a comoção toda vez que um “professor” cai. Mas é o risco da profissão

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2017 | 05h00

O São Paulo será comandado por Pintado, no clássico com o Santos, na noite deste domingo, na Vila Belmiro. O ex-volante tricolor senta no banco na emergência, à espera de Dorival Júnior, oficialmente anunciado como substituto de Rogério Ceni, mas que assume só amanhã. Aliás, como manda o figurino: 9,5 entre dez treinadores contratados não pegam o desafio de cara; antes, esperam um jogo para criar clima favorável– e, claro, se resguardarem de tropeço.

Estar sob as ordens de um interino não é novidade, nem no São Paulo nem em qualquer time. Situação corriqueira num universo em que é tão intensa a rotatividade na função de “professor”. Está difícil encontrar profissão em que o sujeito mais perde emprego – e acha também – do que essa de treinador. Todos têm uma rodagem inimaginável para outras atividades.

Entra e sai de técnico é bola cantada – só por aqui já mudaram de guarda os dois rivais de hoje, além do Palmeiras. Por ironia, Fábio Carille se mantém firme e forte no Corinthians. Escrevo “por ironia” porque, no início da temporada, era tido como favorito a ser defenestrado em comparação com seus pares dos outros grandes paulistas. No entanto, não só superou desconfianças como conquistou o Estadual e leva a equipe de vento em popa na liderança do Brasileiro. Tem recebido elogios merecidos. Anda com tanta moral que, anteontem, não só lamentou as demissões dos colegas, como ainda se arriscou a confidenciar que, em dois dos três casos, “houve sacanagem”. Negou-se, porém, a entrar em detalhes, sob alegação de que seria antiético. Então nem levantasse o tema em público, pois aí soou como fofoca, embora não tenha sido a intenção.

A solidariedade de Carille é elogiável e, imagino, verdadeira. De fato, treinadores se veem no olho da rua com frequência inacreditável. Raros os que cumprem um ciclo, mais raros ainda os que completam dois ou mais num clube. Em geral, chegam cercados de elogios e expectativas – “O homem certo para tocar o projeto, etc etc..” – e, tempos depois, saem escorraçados e excomungados. Chato, sem dúvida.

Técnico merece respeito, pois é trabalhador – e todo trabalhador tem de ser tratado com dignidade. No entanto, muitas vezes há comoção exagerada numa dispensa. Parece que o mundo vem abaixo e que se cometeu a mais torpe indignidade. Não vacilamos em descer o malho nos cartolas, sobre os quais atiramos todas as mazelas. Usei os verbos no plural porque em diversos episódios tasquei lenha neles. 

Nem sempre é assim. Existe tendência a supervalorizar a figura do treinador. Ela é importante, nem se discute; mas estes senhores estão longe de serem sábios que detêm os segredos das vitórias. Tampouco são energúmenos. Como em tudo na vida, há os excepcionais, bons, medianos e medíocres. Recebem tarefa para executar e nem sempre se conseguem, por azar, incompetência, fase ruim, falta de sorte ou impaciência. Saem. É risco implícito na carreira que seguiram. Por isso, muitos ganham bem e estipulam multas altíssimas para romper contrato. Em resumo, não são coitadinhos, assim como não são vilões ou indivíduos desprovidos de caráter.

Noves fora esta conversa toda, o abacaxi para Pintado é espinhoso. O São Paulo desce a ladeira na Série A, ficou sem rumo e a derrota não está fora de cogitação; ao contrário, eis hipótese bem razoável. Eventual empate pode ser festejado e ajudará no início da caminhada de Dorival. 

A propósito de pressão: Mano Menezes também está sob crivo de torcida e direção do Cruzeiro. A oscilação recente coloca em dúvida a permanência dele. Para complicar, recebe o Palmeiras, time tão irregular que, tanto pode levar uma surra (como quase aconteceu na Copa do Brasil), como aplicar-lhe uma sova. 

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