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Vigiar e punir

Veja o caso de Guerrero. Sua pena foi aumentada para 14 meses e ele não irá à Rússia

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2018 | 04h00

Atire primeiro, faça perguntas depois. Esse dito era bastante conhecido, usado principalmente em filmes e revistas em quadrinhos. Traduzindo: primeiro a punição, depois vamos conversar sobre o que realmente aconteceu.

No momento esse raciocínio está até piorando: primeiro punição, depois vamos conversar para ver se ela é suficiente. Resumo: é punição sempre. Vejamos o caso de Paolo Guerreiro. Pego num exame antidoping, foi condenado a um ano de suspensão de seu trabalho de jogar futebol pela Comissão Disciplinar da Fifa.

Depois o Tribunal de Apelação da Fifa reduziu sua pena para seis meses. Já estamos nos metendo no mundo das Comissões e Tribunais, isto é, nas entranhas da Justiça. Muito bem, seis meses se completaram, Guerreiro voltou a jogar pelo Flamengo e estava pronto para ir à Rússia defendendo o Peru.

Seus advogados, no entanto, revelando, na minha opinião, um completo desconhecimento de como as coisas andam pelo mundo, principalmente no mundo jurídico, decidiram que a redução para seis meses não era o bastante. Pleitearam completa absolvição, isto é, um atestado de “ficha limpa” para Guerreiro. O pleito é estranho até porque reivindicava algo meramente simbólico, na medida em que ele já podia voltar a jogar e estava livre de penalidades. Seria mais uma recompensa moral, uma vitória completa da defesa.

Para isso acionaram o CAS ou TAS, Corte, ou Tribunal Arbitral do Esporte, que, como o nome indica, é chamado a dirimir dúvidas que requeiram sua intervenção. Não por acaso o CAS fica em Lausanne, Suíça, país que também sedia a Fifa e o complexo que faz girar a máquina do futebol. No caso do CAS a sede é uma magnífica mansão, escolhida para atestar sua importância desde a rua. Os pouco prudentes advogados de Guerreio tiveram uma bela surpresa. O CAS, ignorando completamente o que tinha sido deliberado antes, menosprezando de maneira imperial não só a redução da pena de Guerreiro, mas o fato de que ele já voltara a jogar, decidiu aumentar o gancho. Sim, decidiu que não só seis meses, mas mesmo o um ano dado inicialmente ainda era muito pouco! Aumentou a pena para 14 meses, o que resulta que o jogador tem mais oito meses de paralisação de suas atividades, não irá a Rússia e, como seu contrato com o Flamengo termina antes, vai ficar sem clube e sem receber. Não estou criticando os advogados de Guerreiro nem conheço bem o caso para isso. Mas estou atento às coisas que acontecem no mundo.

Não se deve confiar mais na clemência da justiça, ao contrário deve-se esperar dela o máximo rigor. Não fosse desse modo o caso Guerreiro talvez fosse tratado de outra maneira. O único afetado por esses desencontros é o jogador. Um atleta de 34 anos que, certamente, vê a pena que lhe é aplicada como pena de morte da carreira.

Mas nada disso deve ser levado em consideração. No mundo dos justos é sinal de fraqueza mostrar sinais de compaixão e humanidade.

O que vale é o que está escrito no livro sagrado da lei. O fato de que vem de entidades questionáveis como a Fifa e suas ramificações como o CAS, por exemplo, não quer dizer nada. Ironicamente, essa demonstração de rigor justiceiro ocorre no momento em que revelações de Platini, antigo craque e dirigente da Fifa, vem a público e são mais escandalosas que a ingestão de um chá contendo derivados de cocaína.

Tudo, inclusive o rigor das penas, talvez obedeça a um medo generalizado da chamada opinião pública, leia-se redes sociais. Não por outra razão o Vasco desligou quatro atletas da concentração, na véspera de jogo importante no Chile, porque ousaram brincar pelas redes com os torcedores que os vaiavam. Os mesmos que, dia sim dia não, ameaçam quebrar tudo em São Januário.

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