Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Vila Madalena vive clima de feriado com open bar na manhã de segunda-feira

Jogo do Brasil contra o México movimentou os bares da região em um dia pouco comum

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 15h22

Era segunda de manhã, mas parecia feriado. Reduto boêmio de São Paulo, a Vila Madalena, na zona oeste, acordou cedo para festejar a vitória por 2 a 0 do Brasil sobre o México pelas oitavas de final da Copa. Ao som de bandas de pagode, os bares abriram às 10 horas - boa parte cobrou ingresso que ia de R$ 10 até R$ 120, com open bar de gin tônica, cerveja, mojito: mas nada de tequila, bebida típica dos adversários.

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Para evitar os "filões" que costumam assistir aos jogos da calçada, estabelecimentos colocaram bandeiras do Brasil e faixas verdes e amarelas nas entradas, tapando a visão de TVs que transmitiam a partida, válida pelas oitavas de final. A torcida ficou concentrada dentro dos bares - ao contrário do que aconteceu na Copa no Brasil, quando as ruas da região foram ocupadas.

Na Rua Aspicuelta, dois estabelecimentos, um praticamente do lado do outro, ofereciam bebida à vontade das 10h às 14 horas. "Já está encostando a ambulância do Samu para aquela rapaziada que quer tomar uma cervejinha", dizia um promoter a quem passava pela frente.

"Está bombando", comentou Elaine Melo, de 40 anos, gerente do Boteco Todos os Santos, um dos open bar. "A gente esperava que o movimento fosse menor, por se tratar de uma segunda de manhã e a maioria dos frequentadores ter de voltar ao trabalho às 14 horas." No vizinho, a animação não era tanta. "A demanda está menor do que nos outros jogos", disse um funcionário do Vila 567.

Com um chapéu tipo pescador, gravado com a bandeira do País, o estudante Thiago Cordeiro, de 21 anos, estava animado para festa. De férias, aproveitou para beber à vontade acompanhado de três amigos. "Você é supersticioso?", perguntou. "Eu não era, mas o único jogo que o Brasil empatou, as abas estavam para cima", disse, mostrando que o chapéu estava "para baixo".

Perto dali, o torcedor Guilherme Lopes, de 36 anos, foi acompanhar a seleção com a mulher e o filho de apenas 4 meses. "É a primeira Copa dele", disse. Antes do jogo, estava confiante: "Em todos os bolões eu pus o Brasil campeão", disse. Para não perder a partida, chegou ainda mais cedo no trabalho e "acelerou". "Fiz tudo que tinha de fazer. Meu chefe chega daqui a pouco."

TENSÃO

Após a eliminação da Espanha para a Rússia, das maiores zebras da Copa até aqui, a torcida brasileira demonstrava preocupação. "Essa Copa está estranha, já eliminaram a Alemanha, a Argentina...", comentou a estudante Anna Helena, de 21 anos.

"O time é bom, mas precisa ser mais ofensivo", disse o coordenador de vendas de imóveis, de 25 anos. Estava à base de água e refrigerante. "Eu tenho que voltar a trabalhar, senão estava lá no open bar", caiu na risada.

No cruzamento da Rua Fidalga com Morato Coelho, havia mais policiais militares do que torcedores. Uma viatura do 23º Batalhão Metropolitano, estacionada na esquina, além de motos e do carro do Batalhão de Choque também vigiavam a região. Com maior concentração de pessoas, a segurança era motivo de preocupação na Copa. Recentemente, a zona oeste registrou uma série de arrastões em bares e restaurantes.

 

Com o clima tranquilo, no entanto, muitos policiais e funcionários da Prefeitura, que trabalhavam na fiscalização da área, aproveitaram para dar uma espiada no jogo. Alguns estabelecimentos não fizeram "bloqueio" nas TVs.

No Seu Domingos, na Fidalga, que normalmente abre às 15 horas, as 273 mesas estavam ocupadas. O bar não cobrou entrada, mas fazia controle de acesso com pulseirinhas. "O jogo está difícil, não dá para esperar outra coisa", narrou Galvão Bueno, aos 35 minutos do primeiro tempo, ainda 0 a 0. Uma onda de gritos nervosos ganhava o espaço a cada investida de Chicharito Hernandéz ou defesa de Alisson.

Mesmo após o início do jogo, muitas pessoas ainda procuravam um bar para beber. "Aqui não, que grita depois", reclamou um passante, após perceber que havia delay na transmissão.

Da calçada, o percussionista Paulo Ataíde, de 30 anos, não desanimava. "A Copa emociona, a nação é sofrida, tem muito desemprego, mas o futebol faz a gente esquecer tudo", afirmou. Do seu lado, estavam as duas filhas Samantha e Sara, de 6 e 5 anos, respectivamente. A primeira usava uma camisa de Neymar. A segunda, de Phillipe Coutinho. "A Vila Madalena faz com que eu me sinta no Pelourinho", disse o músico, que é natural de Salvador.

Nem todos estavam tão felizes. "Moro aqui há oito anos, é bom torcer um pouquinho para o Brasil", disse o italiano Marco Muraro, de 38 anos. "Mas é triste ver a Itália fora da Copa."

O aposentado Durval Brito, de 70 anos, vestia uma camisa da seleção com todos os títulos do pentacampeonato bordados - da Suécia, em 1958, à Coreia do Sul e Japão, em 2002. "Já bordei o da Rússia aqui, olha", mostrou. No intervalo, estava nervoso."Neymar tem de começar a aparecer. Parece que não quer ser o melhor do mundo!"

E Neymar apareceu. Primeiro, Willian arrancou pela esquerda e, segundos antes de o camisa 10 entrar de carrinho, o bar de trás antecipou o desfecho do lance, gritando gol. Alegria com delay. Perto do fim, o craque da seleção arrancou e Roberto Firmino fez. Mais abraços, gritaria e buzinas.

Fatura liquidada, um homem subiu na cadeira do bar e, com um megafone, puxou um Bella Ciao, versão Copa da Rússia. "Messi, tchau! Messi, tchau! Messi, tchau, tchau, tchau!", cantou o bar inteiro. "E o argentino já está chorando, porque o hexa vem aí."

 

 

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