Kiko Huesca/EFE
Kiko Huesca/EFE

Vinícius Jr. muda seu status no Real Madrid com três desafios impostos na carreira

Atacante brasileiro vira titular do time espanhol, ganha companheiros de elenco e caminha para disputar seu primeiro Mundial

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 15h00

Vinícius Jr. muda seu status no Real Madrid jogando bola, como ala pela esquerda, fazendo gols e tendo no drible sua principal arma. Ele tem três desafios até o fim desta temporada na Espanha, e algumas metas a serem cumpridas, como aumentar o seu número de gols num mesmo ano. Em 2018, ele fez dez pelo Flamengo. Já tem nove nesta edição no Real Madrid em 15 partidas, e cinco assistências. Desde que chegou ao clube espanhol, marcou 24 vezes. Aos 21 anos, ainda tem muito para crescer. É ajudado pelo seu estafe. Tem preparador individual e profissionais que cuidam de sua imagem.

Seus desafios, no entanto, são outros, mais ambiciosos e que poderão marcar uma virada em sua carreira, seu amadurecimento e nova condição na Europa, sucedendo tantos outros brasileiros de destaque, como Ronaldo, Kaká e Ronaldinho Gaúcho.

Vini Jr., como é chamado no Real Madrid porque os espanhóis não conseguem pronunciar facilmente Vinicius, joga para continuar entre os 11 de Carlo Ancelotti. Nem sempre foi assim. Desde que chegou ao clube madrilenho, o atacante brasileiro precisou de um banho de tática, fundamentos, como chutes a gol, e mais jogo coletivo. Sob o comando de Zidane, ele entrava e saía do time, sem convencer o treinador, a torcida e seus próprios companheiros de elenco.

Isso mudou principalmente com Ancelotti, que se rendeu ao seu talento como driblador, o escalou mais vezes sempre pela esquerda e o fez confiar em seu talento, de modo a mudar sua condição na equipe e na cidade. Vini Jr. estampa com mais frequência capas de jornais de Madrid e da Espanha. Há fotos suas em lugares estratégicos do clube e ninguém mais questiona sua titularidade e condição de poder ajudar a equipe. Ele e Casemiro são jogadores de confiança de Ancelotti. Assim, um livro de páginas em branco, ou de ainda poucos rabiscos, se abre para o atacante brasileiro escrever sua história como alguns outros compatriotas que são reverenciados no tour que se jaz dentro do Santiago Bernabéu. "Não me surpreende. É verdade que ele tem marcado mais gols, o que é melhor, mas a minha percepção era a mesma antes de o conhecer", disse Ancelotti.

Vinicius Jr. joga no tabuleiro de sua própria carreira, em que cada passo pode levá-lo para casas adiante em sua caminhada na Espanha, rumo ao sucesso e estrelato. Desde Kaká em 2007, o futebol brasileiro não tem um escolhido entre os melhores do mundo. Era para ser Neymar, mas nunca foi. Vini não quer voltar cedo para o Brasil, principalmente na condição de fracassado como tantos outros que se imaginava fossem estourar na Europa, como o próprio Gabigol, hoje no Flamengo.

Ser titular e relevante para o treinador era seu primeiro objetivo. Pode-se dizer que ele conseguiu. Na sequência, quer ter a mesma importância para seus companheiros, aqueles que correm ao seu lado no campo e com quem divide alegrias e frustrações no vestiário. Essa condição de respeito Vini começa a ganhar também. Benzema sempre foi seu maior crítico. Fazia caretas quando as jogadas não aconteciam e nunca escondeu seu então desprezo pelo brasileiro. Teve ainda aquele episódio de uma suposta leitura labial em que o francês dizia a um companheiro para não passar a bola para Vinícius, numa demonstração de que eles estavam em ‘turmas diferentes’ do elenco.

Vinicius Jr. mudou isso também. Ele e Benzema passaram a se procurar mais dentro de campo, com jogadas mais acertadas e de maior entrosamento. Os gols começaram a sair e as turmas de ambos foram misturadas. Benzema e outros jogadores do Real Madrid se renderam ao crescimento do brasileiro, não somente nas jogadas, mas também em suas escolhas de jogadas. Essa, aliás, era uma bronca dos colegas em relação ao atacante brasileiro. Vini estava sempre tomando as decisões equivocadas para seus parceiros, mesmo embora, na cabeça dele, elas eram o melhor caminho em direção ao gol. Mas como o gol não acontecia, a razão estava sempre com seus companheiros.

Hoje, ambos são amigos. "Karim Benzema é um jogador incrível que faz as coisas parecerem fáceis. Sempre me dá conselhos e fala o que é o melhor para mim. A confiança é tudo. Do treinador, do estafe, dos jogadores e da torcida. Está tudo a favor e é importante para mim. Quero continuar não só agora, mas até o fim da temporada", disse o brasileiro. O Real Madrid melhorou na temporada. Na Liga dos Campeões, depois de bobear nas primeiras partidas, se recuperou e vai se classificar para a etapa de mata-mata. Ocupa a primeira colocação do Grupo D.

Vini na seleção

Mas ainda falta andar uma casa no tabuleiro em que joga para ter a melhor temporada de sua carreira, essa muito mais desafiadora, mas que também só depende dele e do seu trabalho no Real Madrid, sobretudo. Diz respeito a se meter entre os 23 de Tite, entre os escolhidos para estar com a seleção brasileira na Copa do Mundo do Catar, daqui a um ano.

Sua condição no Brasil não é a mesma da que tem no Real neste momento. Ela estaria mais parecida com a situação de 'entra e sai' do time, ainda sem convencer o treinador e a torcida brasileira. Depois de não ver seu nome na lista, ele se mostrou chateado. "A gente fica triste, queremos sempre estar entre os melhores na seleção. O Tite, que é um grande treinador, fez sua escolha. Optou por eu ficar em casa neste momento. Acredito que tenho de trabalhar mais, fazer melhores jogos. Mesmo estando bem, mas o Brasil é muito difícil, tem muitos jogadores", disse ao canal TNT Sports.

Repercutiu o fato de o treinador da seleção insistir que Vini deveria marcar na lateral, do meio para trás, numa função tática e participativa que atrapalha sua outra característica, a de atacar, driblar e ir para dentro dos marcadores, fazendo seus corações baterem acelerados e suas mentes acusarem a preocupação.

Tite viu no atacante jovem e viril um jogador que pudesse ajudar em outras tarefas. Até pode, mas Vinicius Jr. não seria mais o Vini do Real Madrid e, assim, ele se tornaria um jogador comum, como tantos outros do futebol brasileiro. Na cabeça do atleta ou em algum canto do seu coração existe a esperança de que o treinador da seleção repense sua função no time, de modo a ajudá-lo a aparecer mais e a ser mais útil e decisivo para o Brasil perto do gol adversário. Um fura defesa, que ele é.

Até que isso aconteça, se acontecer, Vinicius Jr. quer apenas estar com o grupo. A boa notícia da semana passada foi que ele ficou com a vaga de Roberto Firmino. O atacante do Liverpool se machucou e foi cortado. Tite chamou Vini, que começa nesta segunda-feira os preparativos para duas partidas das Eliminatórias, a primeira delas em São Paulo, no estádio do Corinthians, diante da Colômbia. O jogo está marcado para quinta-feira, dia 11. Pode valer matematicamente a vaga do Brasil na Copa do Mundo de 2022. Vini fará de tudo para estar com a seleção no Catar.

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