Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão
Imagem Mauro Cezar Pereira
Colunista
Mauro Cezar Pereira
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vírus, futebol e Brasis

Pressa pelo retorno ao futebol é movida pelo dinheiro, mas pode causar diversos problemas

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 05h00

Na sexta-feira, a Federação de Futebol do Rio de Janeiro emitiu uma carta afirmando que seus clubes de primeira divisão “desejam retomar as suas atividades o mais breve que lhes for possível”. A ideia? Enviar o documento aos governantes com o objetivo de voltar logo os treinamentos, seguindo as medidas sanitárias necessárias. Dos quatro integrantes da Série A nacional, Vasco e Flamengo assinaram. Fluminense e Botafogo se recusaram.

Ao final do sábado, o Rio tinha 16.929 casos de covid-19 oficialmente registrados, com 1.653 mortes. Só São Paulo à frente, então com 44.411 contaminados e 3.608 óbitos. Pernambuco se aproximava de mil pessoas perdendo a vida devido ao novo coronavírus, com o Ceará passando de tal marca. Em contrapartida, no Rio Grande do Sul o número era mais de dez vezes menor, mesmo com a população do Estado sulista maior do que a dos dois nordestinos.

Na terça, Grêmio e Internacional voltaram às atividades em seus CTs. Com grupos pequenos, restrições e inúmeros cuidados. Mas voltaram. “Na forma que a prefeitura de Porto Alegre autorizou, somente para exercícios físicos, não tem contato, não tem nada. Os protocolos são enormes, envolvem chegada e saída de jogadores em separado. Não tem vestiário, academia, convivência”, disse à coluna o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan.

Rival tricolor, o Internacional segue programação idêntica. Mas o mandatário colorado, Marcelo Medeiros, admite que a caminhada corre risco de interrupção. “Eu pergunto: primeiro jogo é um Gre-Nal, jogamos com portões fechados. E se dias depois alguns jogadores apresentarem os sintomas? Vai parar o futebol brasileiro. O primeiro passo tem de ser muito bem dado para que não se dê vários para trás”, advertiu, em contato com o Estado.

Há décadas se diz que vivemos em um “país de dimensões continentais”. Fato, o território brasileiro possui mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e reunidas as demais nove nações sul-americanas somam apenas cerca de 300 mil quilômetros a mais. Consequentemente, existem vários Brasis dentro do Brasil. Reflexo disso, as imensas diferenças de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que contempla saúde, educação e padrão de vida.

Enquanto o Distrito Federal acusa número que, fosse um país, lhe daria posição próxima à da Letônia (39.º do ranking), o Maranhão está perto do registrado pelo Iraque (120.º). Se São Paulo tem IDH parecido com o da Argentina (48.º), Sergipe se aproxima ao Gabão (115.º). O Rio Grande do Sul é comparável à Turquia (59.º), já Rondônia equivale a Tonga (105.º). São abismos imensos que interferem em diferentes níveis na luta contra a covid-19.

A volta dos gaúchos aos treinamentos parece precoce, afinal, a curva do número de infectados e mortos ainda não começou a cair por lá. Pelo contrário, embora em ritmo mais lento e sem as estatísticas assustadoras de outros Estados, ela segue avançando diariamente desde 9 de março. Mas é evidente que os times do Rio Grande do Sul têm maiores chances de retornar antes à rotina, na comparação com os de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará, por exemplo.

A pressa pelo retorno ao futebol é movida pelo dinheiro. Sim, as verbas de televisão pelas transmissões dos Estaduais e demais certames programados, como Copa do Brasil, Libertadores, Sul-americana e Campeonato Brasileiro. A economia mundial sangra e a do futebol não escapa. No Brasil, clubes afundados em dívidas são como pessoas do “grupo de risco” diante desse vírus. Mas o remédio que tentam aplicar apressadamente pode apresentar efeitos colaterais ainda piores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.