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Vítima da briga de torcidas só tinha R$ 5 e um cartão telefônico

Testemunhas do conflito em São Miguel relembram palco de guerra

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2016 | 15h39

O idoso de aproximadamente 60 anos, vítima da briga entre palmeirenses e corintianos em São Miguel, tinha no bolso uma nota de R$ 5 meio velha e um cartão telefônico, daqueles usados nos orelhões, bem antes do boom dos aparelhos celulares. A falta de documentos básicos coloca a polícia em dificuldades para identificá-lo. Três dias depois dos confrontos, o corpo permanece à espera de identificação. 

Ontem, o Estado conversou com testemunhas da briga na Praça do Forró. Ninguém se lembra dele ter estado por lá antes da tragédia. Alguns arriscaram dizer que ele se encaminhava para a missa na Capela de São Miguel Arcanjo. As roupas simples que vestia, camiseta laranja, bermuda cinza e sandálias de pescador, podem indicar um passeio mais na própria praça, um dos poucos espaços arborizados do bairro. Policiais garantem que ele não é dali. Com a descrição em punho, policiais percorreram os hospitais Tide Setúbal e Santa Marcelina em busca de algum atendimento anterior. Nada. 

A comoção causada pela morte de um inocente, alguém que não tinha relação com o conflito, fez com que o IML mudasse as regras. Normalmente, as vítimas que não são identificadas em até 72 horas podem ser enterradas como “corpo desconhecido não reclamado” – os funcionários explicam que não se deve usar “indigente”. 

No caso desse anônimo, cuja morte vem sendo lamentada por tanta gente, as autoridades vão esticar o prazo. Ontem, ninguém procurou por ele no IML de Arthur Alvim. No dia anterior, duas famílias compareceram, mas não o reconheceram. A polícia também trabalha com a chance de identificação por meio das impressões digitais. 

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) informou que “estão sendo realizadas diligências no local do crime para colher informações que possam ajudar na identificação da vítima”. Isso contradiz o que havia dito o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes. Ele disse que já tinha “nome e sobrenome” da vítima. 

Apesar do distanciamento da profissão, os policiais que trabalhavam no domingo se mostram comovidos. Contam que a briga foi feia, com cara de premeditada. Segundo a polícia, palmeirenses e corintianos – cerca de 200 ao todo – também tinham armas de fogo. Mulheres e crianças corriam desgovernadas e caíam. Carros viraram trincheiras. Poderia ter morrido mais gente. O dedo do policial vai apontando que a única vítima dos quatro confrontos de torcidas no domingo foi atingida em um lado da praça, no centro do tumulto, e cambaleou até o lado oposto. 

Outro policial, mais tocado pela tragédia, diz que descobrir o nome da vítima vai ser importante para a família, se houver, e também para a luta contra a violência das organizadas.

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