Diego Vara|Reuters
  Diego Vara|Reuters

  Diego Vara|Reuters

Vítimas do 'modismo', técnicos jovens perdem espaço no Campeonato Brasileiro

Ao contrário de anos anteriores, clubes têm preferido treinadores com mais de 50 anos ou estrangeiros

Ciro Campos , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Atualizado

  Diego Vara|Reuters

O Campeonato Brasileiro de 2020 reforça de vez uma tendência inesperada em comparação aos últimos anos. Em vez de apostar nos profissionais jovens como treinadores de seus times, os clubes estão atrás de outros perfis. Se até pouco tempo atrás os comandantes novatos eram considerados a saída para o futebol nacional evoluir, agora eles têm sido preteridos pelos mais experientes e pelos estrangeiros.

O Estadão realizou um levantamento nas edições do Brasileirão desde 2015 e avaliou todos os técnicos efetivados que comandaram as 20 equipes de cada temporada. Os profissionais foram divididos em três categorias: uma só para os estrangeiros e as outras duas voltadas para brasileiros, mas divididos entre profissionais com menos ou mais de 50 anos.

Apesar de nesta temporada 14 técnicos brasileiros que trabalharam na Série A serem da turma dos novatos, somente seis continuam, considerando-se as 21 primeiras rodadas: Fernando Diniz (São Paulo, 46 anos), Rogério Ceni (Flamengo, 47), Odair Hellmann (Fluminense, 43), Jair Ventura (Sport, 41), Maurício Barbieri (Red Bull Bragantino, 39) e Rodrigo Santana (Coritiba, 38). E há dois jovens estrangeiros: Abel Ferreira (Palmeiras, 41) e Ricardo Sá Pinto (Vasco, 48).

Neste ano os técnicos brasileiros com menos de 50 anos correspondem a 40% do total, um número menor em comparação aos 46% de 2015. Naquela época, o futebol brasileiro vivia a ressaca da Copa de 2014 e o discurso era a necessidade de renovação dos treinadores. 

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
É tudo um modismo. Já houve a época dos treinadores jovens, da efetivação dos interinos, da demanda pelos experientes e agora é pelos estrangeiros
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Marcelo Cabo, Técnico do Atlético-GO

"É tudo um modismo. Já houve a época dos treinadores jovens, da efetivação dos interinos, da demanda pelos experientes e agora é pelos estrangeiros. É o momento que dita a demanda do mercado", avaliou o técnico do Atlético-GO, Marcelo Cabo, de 53 anos.

Nessas últimas temporadas, além de 2015 um outro ano apresentou elevada presença de treinadores novatos. Em 2018 a eles chegaram a corresponder por 46% de todos os profissionais. Um ano antes, o Corinthians de Fábio Carille (então com 44 anos) foi campeão brasileiro e logo depois outros clubes resolveram também apostar em jovens. O Atlético-MG efetivou o auxiliar Thiago Larghi, o Santos trouxe Jair Ventura, o Botafogo assinou com Alberto Valentim e o Palmeiras fechou com Roger Machado.

"O modismo acontece, e não é só no Brasil. Infelizmente o futebol é um lugar onde nem todos que estão no comando têm um entendimento mais claro do que pode ser a sua necessidade verdadeira", disse ao Estadão o técnico Alexandre Gallo, de 53 anos, que tem passagens por várias equipes e pela CBF.

Neste Brasileirão vários clubes trocaram a juventude pela experiência na hora da crise. O Corinthians fez isso ao tirar Tiago Nunes (40) e trazer Vágner Mancini (54). O Bahia trocou Roger Machado (45) por Mano Menezes (58) e o Palmeiras afastou Vanderlei Luxemburgo (68) para a chegada do português Alex Ferreira (41).

SEM CRITÉRIO

Para Gallo, a queda na presença de técnicos jovens é reflexo da falta de planejamento e da necessidade de se dar satisfações públicas. "Não se estuda o perfil específico para cada momento que você precisa dentro da equipe. O clube só vê o momento que o técnico pretendido está vivendo em outra equipe. A gente entende como uma resposta para as mídias sociais, imprensa e torcida."

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Não se estuda o perfil específico para cada momento que você precisa dentro da equipe. O clube só vê o momento que o técnico pretendido está vivendo em outra equipe. A gente entende como uma resposta para as mídias sociais, imprensa e torcida
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Alexandre Gallo, Técnico

Eduardo Baptista, de 48 anos, que dirige atualmente o Mirassol, da Série D, já teve a oportunidade de treinar times da elite, como Palmeiras, Fluminense e Athletico-PR. Na opinião dele, a escolha por quem será o treinador deveria ser mais criteriosa. "O importante quando você traz qualquer treinador é primeiro entender qual é o seu clube, entender o que você quer na competição, de que maneira vai jogar e se vai utilizar a base."

Entre alguns clubes existe o discurso de que o ano atípico tem feito as equipes preferirem os mais experientes. A necessidade de lidar com calendário apertado e desfalques por coronavírus tem levado as diretorias a escolher nomes consagrados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Sport e Red Bull Bragantino trocam de treinador, mas mantêm aposta em jovens

Equipes passaram por mudança de comando neste Brasileirão sem trocar o perfil do comandante do elenco

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

Enquanto as equipes têm demitido treinadores jovens e apostado outros perfis, o Sport e o Red Bull Bragantino são exceções neste Campeonato Brasileiro da Série A. Mesmo com a troca no comando, os dois clubes fizeram questão de manter o perfil. O time pernambucano é dirigido por Jair Ventura, de 41 anos, e o atual campeão da Série B tem no comando Maurício Barbieri, de 39.

Antes de optar por Ventura, o Sport iniciou a competição com Daniel Paulista, de 38 anos. O clube não abriu mão do perfil por ter a proposta de rejuvenescer vários departamentos. "O Sport passa por uma renovação na diretoria de futebol. Tem pessoas novas e temos buscado treinadores e jogadores jovens também. Para nós a juventude pode ser um caminho", explicou o diretor de futebol, Chico Guerra.

O dirigente admite que a proposta de apostar na juventude traz a vantagem de poder negociar salários menores. A equipe pernambucana explica que por ter um orçamento menor em comparação a alguns concorrentes, precisa fazer um estudo detalhado de qual profissional vai contratar.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Não adianta nada você ter dez atacantes e trazer alguém (um treinador) que é mais defensivo. Tem de analisar bem
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Chico Guerra, Diretor de futebol do Sport

"Na escolha do Jair, pesou a forma como a gente queria jogar no Brasileirão. Queríamos alguém que tivesse trabalhos bem sucedidos dentro da nossa forma de jogar e em equipes com orçamento apertado, que é o caso do Sport. Não adianta nada você ter dez atacantes e trazer alguém que é mais defensivo. Tem de analisar bem", explicou.

O Red Bull Bragantino tem a juventude entre as principais características. O clube procura trazer jogadores novos e tem feito o mesmo com treinadores. Antes de Barbieri, quem comandava o time no início da temporada era Felipe Conceição, de 41 anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Muricy Ramalho: 'Alguns técnicos jovens assumiram muito cedo os clubes grandes'

Comentarista do SporTV e ex-técnico analisa o momento dos jovens treinadores no futebol brasileiro

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 09h50

Ex-técnico e atual comentarista de futebol do SporTV, Muricy Ramalho comentou o que ele pensa sobre a mudança que tem ocorrido no futebol brasileiro. O Brasileirão de 2020 reforça uma tendência inesperada em comparação aos últimos anos. Em vez de apostar em jovens treinadores, os clubes estão atrás de outros perfis. Se até pouco tempo atrás os comandantes novatos eram considerados a saída para o futebol nacional evoluir, agora eles têm sido preteridos pelos mais experientes e pelos estrangeiros.

Para Muricy, o problema maior é que alguns técnicos assumiram grandes clubes de forma muito prematura e essa 'queima de etapas' por ter feito com que os dirigentes tenham decidido que não vale mais apostar em novatos brasileiros no comando de suas equipes. Confira a análise do ex-treinador. 

Eu acho que os jovens técnicos foram colocados muito cedo para dirigir alguns grandes. Por isso eles perderam espaço. Deveriam ter passado por uma preparação maior, mais intensa e direta no dia a dia, começando de baixo para cima, lá com o trabalho ainda na base. Foi isso que ocasionou que essa safra de técnicos jovens, que é boa, perdesse espaço. Essa geração vai ficar melhor um pouco mais no futuro, com a experiência. O conhecimento eles têm, só que ainda falta a vivência.

Temos uma lacuna atualmente que os mais experientes também estão parando e saindo do futebol. Então vivemos um buraco. E aí nesse espaço que chegam os treinadores estrangeiros. Anos atrás, os clubes chegaram a trazer alguns técnicos de fora que não deram certo. Mas agora estão escolhendo bons nomes, profissionais com capacidade e que têm conseguido ótimos resultados no nosso futebol.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Para dirigir um time você precisa ter muita bagagem. Não é problema de conhecimento, mas é questão de comando e de liderança. Nem sempre um jovem se impõe
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Muricy Ramalho, Ex-treinador

Quando comecei minha carreira de treinador, na década de 1990, eu fazia parte de um projeto do São Paulo. O clube definiu que tinha de ser preparado algum treinador para assumir quando o Telê Santana parasse. O Telê havia definido que pararia em até cinco anos e me escolheu para ficar no lugar dele. Mas ele ficou doente antes desse prazo e teve de sair. Então eu tive de assumir, mas não estava 100% preparado para essa missão. Eu fui jogado no lugar porque não tinha como. O clube precisava. Por mais tempo que tive com ele e com o Carlos Alberto Parreira, eu ainda não estava totalmente apto para conduzir um elenco. Para dirigir um time você precisa ter muita bagagem. Não é problema de conhecimento, mas é questão de comando e de liderança. Nem sempre um jovem se impõe.

Agora alguns clubes estão mais profissionais e cuidadosos para contratar o treinador, com setores específicos para avaliar nomes de treinadores. Mas a maioria ainda não. Ainda se vive do modismo. Alguns times jogam na imprensa o nome do treinador pretendido para ver se tem aceitação da torcida. Falta muito ainda.

Nem todo técnico dá certo em qualquer time. Existem perfis mais adequados. Um exemplo é o Santos. É um clube que gosta de futebol ofensivo, de molecada, então não adianta levar um treinador como o português Jesualdo Ferreira. Ele falava que gosta de time equilibrado, então não estava no lugar certo. O Santos gosta de postura ofensiva e de correria. Então, faltou esse critério para contratar. 

A CBF tem organizado mais cursos para a formação de treinadores, com a presença de mais especialistas. No meu tempo não haviam tantos cursos assim. Agora é um curso mais longo, mais elaborado, com profissionais de várias áreas. O problema é que precisa ser reconhecido fora também. O diploma daqui não vale lá fora ainda. Nisso temos de melhorar. Mas é um começo. A gente percebe que bons profissionais têm conseguido se aprimorar com esses cursos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.