Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Viúvas dos jogadores da Chape contam como ficaram sabendo da tragédia

Valdecia, Girlene e Bárbara, mulheres de Gil, Bruno Rangel e Ananias falam do sofrimento ao saberem que o avião caiu

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 05h00

O Estado conversou com Bárbara Calazans Monteiro, 37, Valdecia Borges de Moraes Paiva, 25, e Girlene Domingues, 30, viúvas de Ananias, Gil e Bruno Rangel, e elas contaram, com muita emoção, como ficaram sabendo da notícia de que o avião que levaria a delegação da Chapecoense para a decisão da Copa Sul-Americana tinha caído na madrugada do dia 29 de novembro e que seus maridos haviam falecidos. 

Valdecia Paiva, mulher de Gil

Lembro que a Simone, mulher do Neto, me disse um dia antes da viagem que ele havia sonhado que o avião ia cair. Falei que não era para pensar nessas coisas e só nos restava rezar que tudo ia dar certo. A gente mudou de casa exatamente no dia em que eles foram para a Colômbia.

Combinei com o Gil que iria esperá-lo chegar para falar como foi. Eu estava exausta, mas queria contar para ele sobre a casa nova. Pouco antes de viajarem, ele me disse que chegaria por volta da 1h15, 1h30, horário do Brasil. Deu o horário e nada de chegarem. No nosso grupo do WhatsApp, falaram que iriam atrasar e chegariam às 3h40. Então, resolvi dormir e acordaria quando ele me ligasse. Por volta das 2h, a Simone me ligou chorando, desesperada, e falou que o avião havia desaparecido do radar.

Eu tinha acabado de acordar, estava um pouco dormindo, então não havia entendido direito o que estava acontecendo. Resolvi ver os noticiários e assim que liguei a TV, já vi a notícia e comecei a ficar desesperada, mas tentava me acalmar para não acordar as crianças. Quando saiu a notícia de que o avião havia caído, já senti que tinha acontecido algo pior. Ficou um fio de esperança de que ele poderia estar vivo, mas, no fundo, eu sabia que tudo tinha acabado.

Girlene Domingues, viúva de Bruno Rangel

Sempre que ele viajava, eu não conseguia dormir até ele chegar e me avisar que estava bem. As crianças já estavam dormindo e eu estava vendo TV. A gente (mulheres dos jogadores) estava trocando mensagens para saber se algum marido tinha dado retorno e todo mundo falava que não tinham contato algum. Eu só ligava para o Bruno e dava caixa postal.

Comecei a entrar em desespero quando deu no jornal que o avião sumiu do radar. Depois, saiu a notícia de que havia acontecido um pouso forçado e isso me deu esperança, porque imaginei que não fosse nada tão grave. A gente sempre vê casos de pouso forçado, né? Mas, foram passando as horas e percebi a gravidade da coisa.

Quando anunciaram que o avião havia caído, entrei em choque, mas ainda não havia pensado no pior. Via a notícia de sobreviventes sendo atendidos e eu ficava angustiada com cada nome falado e não falavam do Bruno. Então, foi caindo a minha ficha de que ele havia morrido. Eu não queria acreditar. Fui para o estádio (onde as famílias se reuniram) e entrei em desespero. Meu chão abriu.

Bárbara Calazans Monteiro, viúva de Ananias

O Ananias me ligou do avião, pouco antes deles decolarem, e me disse que chegaria entre meia-noite e 1h da manhã. A gente se despediu, como sempre fazia e parecia que seria apenas mais uma viagem. Eu fiquei montando um porta-retrato nosso, que era um quebra-cabeça, e por volta da 1h da manhã eu decidi ir dormir. Me lembro que mandei uma mensagem para ele à 1h06 dizendo: “Amor, chegou?” e só apareceu um sinal na mensagem, como se tivesse saído do meu celular, mas não havia chegado para ele.

Fiquei tranquila, porque achei que o voo estava apenas atrasado. Era umas 3h30 da manhã, tocou meu telefone, eu atendi e do outro lado uma voz desesperada. Atendi, era a Patrícia, mulher do Gimenez, gritando e chorando e eu fiquei desesperada. Inicialmente, achei que tinha acontecido algo com ela ou com a filha. Então, ela falou que o avião tinha sumido dos radares.

Na hora, me veio na cabeça os acidentes com o Eduardo Campos (ex-governador de Pernambuco) e do Bradesco (jatinho que levava executivos do banco caiu em Minas Gerais), que também falaram que tinha sumido dos radares e depois veio a notícia de que havia caído mesmo. Entrei em desespero e já imaginei que morreu todo mundo no acidente.

Em choque, eu ainda estava na cama quando atendi o telefone e não consegui me levantar. Liguei para uma amiga e pedi para ela ir na minha casa porque talvez o avião com os meninos tinha caído. Quando veio a confirmação, só pensava no que seria minha vida depois daquilo tudo. E a mensagem nunca chegou no celular dele.

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