Daniel Teixeira/Estadão
Girlene, Valdecia e Bárbara, viúvas de Bruno Rangel, Gil e Ananias, tentam se reerguer após a tragédia da Chape. Daniel Teixeira/Estadão

Viúvas da Chapecoense se apoiam no amor aos filhos para retomar a vida

Estado conta como as mulheres dos jogadores mortos em acidente aéreo superam a perda de seus maridos

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 05h00

Viagem para os Estados Unidos, caminhadas pela manhã e exercícios em academias, cultos em igrejas evangélicas com maior frequência, busca por justiça e dedicação total à criação dos filhos. É assim que três das mulheres que perderam seus maridos no trágico acidente com a delegação da Chapecoense, há pouco mais de três meses, lutam para se reerguer. 

Uma pane seca fez o voo 2933 da companhia aérea boliviana LaMia bater no monte Cerro el Gordo, nos arredores de Medellín, na Colômbia, na madrugada de 29 de novembro (horário de Brasília). Das 77 pessoas à bordo, 71 morreram – entre elas os jogadores Ananias, Gil e Bruno Rangel. 

Nessa semana, o Estado conversou com as três viúvas dos atletas – respectivamente Bárbara Calazans Monteiro, de 37 anos, Valdecia Borges de Moraes Paiva, de 25, e Girlene Domingues, de 30 em um hotel próximo ao Allianz Parque, estádio do Palmeiras, local do último jogo da Chapecoense antes da tragédia. Juntas, tentam fazer com que a dor das famílias seja atenuada.

Elas receberam da Chapecoense e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) indenizações de 26 vezes os salários de seus maridos – até agora, não passam por dificuldades financeiras, mas sabem que uma hora esse dinheiro vai acabar. Gi e Val ainda não se sentem preparadas para trabalhar e dão prioridade absoluta às crianças. No futuro, pretendem voltar a estudar e arrumar emprego. 

Além delas, outras mulheres também travam suas lutas diárias. Amanda Machado, de 26, noiva de Dener, criou a empresa D6 para vender brigadeiros gourmet. A ideia surgiu justamente de uma conversa com o marido, fã do doce. Após a tragédia, ela manteve o projeto, como forma de homenagem ao companheiro, que jogava com a camisa 6. Os dois iriam se casar três dias depois do acidente.

Sirli Freitas também mudou de vida. Jornalista, acabou herdando a vaga que pertencia ao marido Cleberson Silva, uma das vítimas, assessor do clube.

De volta às entrevistadas feitas pelo Estado, Bárbara tem praticado atividades físicas para ocupar o tempo – suas preferidas são as caminhadas pela manhã, após deixar o filho Enzo na escola, e trabalhos numa academia. Além disso, fez uma viagem junto com Val – elas passaram alguns dias nos Estados Unidos ao lado dos filhos. Por fim, a viúva do volante Gil diz ter aumentado a frequência nos cultos de uma igreja evangélica. “Dá muita paz”, justifica. 

“Entender o que passou e secar as lágrimas são coisas que vão demorar para acontecer. Passei a fase do choque e da tristeza. Alguns dias me sinto melhor, outros nem tanto. Só me resta transformar essa dor em força”, diz Bárbara.

Ela e Valdecia são quase inseparáveis – além da viagem, passam muito tempo juntas e se comunicam com outras viúvas por meio de um grupo fechado no WhatsApp, que já existia antes do acidente. “Tem dias que acho que é um pesadelo e que vou acordar e o Gil estará do meu lado. Me dói quando as filhas falam dele”, conta Val, viúva do volante.

Elas têm recebido apoio de atletas que atuavam com seus maridos e dos sobreviventes do voo. “O Neto e a família dele eram nossos amigos e têm nos ajudado”, comenta Val.

Coisas corriqueiras se tornaram um sofrimento. “Todo ano a gente ia juntos ver o colégio para nossos filhos. O Bruno levava nossa filha para a escola quando estava em casa. Não desejo esse sofrimento para ninguém”, diz Girlene. 

Falar sobre os filhos não é tarefa fácil. Elas choram ao lembrar de como reagiram à perda dos pais. Bárbara precisou da ajuda de uma terapeuta para contar a Enzo, de 5 anos, que seu pai nunca mais voltaria para casa. “Com o passar do tempo, ele falava que estava com saudade, perguntava do pai e chegou a dizer que queria morrer para ficar ao lado do Ananias”, diz.

As três viúvas decidiram não esconder nada e contaram às crianças o que estava acontecendo, sem fantasiar, pois temiam que isso pudesse causar problemas psicológicos no futuro. Val chamou Gabriela, de 5, e Lívia, de 3, e explicou a história.

A mais nova parecia não entender a gravidade. Enquanto ouvia, não parava de pular e brincar, até que saiu do quarto e foi para a cozinha. “Ela chegou para as pessoas que estavam na casa e falou que o pai tinha morrido, mesmo sem eu citar a palavra morte”, lembra a mãe. 

Val, que deixou Chapecó para morar em Natal, decidiu visitar Bárbara, em Salvador, no último fim de semana, e percebeu um novo problema – o medo de avião de uma das filhas. “Falei para as meninas que a gente ia ver o Enzo, amiguinho delas, e a Livia me disse que não queria, pois estava com medo, já que o avião tirou a vida do pai. Ela entrou em desespero”, contou a viúva do meia Gil.

Elas ainda lutam para receber as indenizações da LaMia, mas um acordo com a empresa está longe de um desfecho. Além das indenizações já recebidas, ontem a Chapecoense repassou mais R$ 40 mil para os parentes das vítimas (leia nesta página) – o dinheiro veio de doações.

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Elas contam como ficaram sabendo da queda do avião

Valdecia, Girlene e Bárbara, mulheres de Gil, Bruno Rangel e Ananias falam do sofrimento ao saberem que o avião caiu

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 05h00

O Estado conversou com Bárbara Calazans Monteiro, 37, Valdecia Borges de Moraes Paiva, 25, e Girlene Domingues, 30, viúvas de Ananias, Gil e Bruno Rangel, e elas contaram, com muita emoção, como ficaram sabendo da notícia de que o avião que levaria a delegação da Chapecoense para a decisão da Copa Sul-Americana tinha caído na madrugada do dia 29 de novembro e que seus maridos haviam falecidos. 

Valdecia Paiva, mulher de Gil

Lembro que a Simone, mulher do Neto, me disse um dia antes da viagem que ele havia sonhado que o avião ia cair. Falei que não era para pensar nessas coisas e só nos restava rezar que tudo ia dar certo. A gente mudou de casa exatamente no dia em que eles foram para a Colômbia.

Combinei com o Gil que iria esperá-lo chegar para falar como foi. Eu estava exausta, mas queria contar para ele sobre a casa nova. Pouco antes de viajarem, ele me disse que chegaria por volta da 1h15, 1h30, horário do Brasil. Deu o horário e nada de chegarem. No nosso grupo do WhatsApp, falaram que iriam atrasar e chegariam às 3h40. Então, resolvi dormir e acordaria quando ele me ligasse. Por volta das 2h, a Simone me ligou chorando, desesperada, e falou que o avião havia desaparecido do radar.

Eu tinha acabado de acordar, estava um pouco dormindo, então não havia entendido direito o que estava acontecendo. Resolvi ver os noticiários e assim que liguei a TV, já vi a notícia e comecei a ficar desesperada, mas tentava me acalmar para não acordar as crianças. Quando saiu a notícia de que o avião havia caído, já senti que tinha acontecido algo pior. Ficou um fio de esperança de que ele poderia estar vivo, mas, no fundo, eu sabia que tudo tinha acabado.

Girlene Domingues, viúva de Bruno Rangel

Sempre que ele viajava, eu não conseguia dormir até ele chegar e me avisar que estava bem. As crianças já estavam dormindo e eu estava vendo TV. A gente (mulheres dos jogadores) estava trocando mensagens para saber se algum marido tinha dado retorno e todo mundo falava que não tinham contato algum. Eu só ligava para o Bruno e dava caixa postal.

Comecei a entrar em desespero quando deu no jornal que o avião sumiu do radar. Depois, saiu a notícia de que havia acontecido um pouso forçado e isso me deu esperança, porque imaginei que não fosse nada tão grave. A gente sempre vê casos de pouso forçado, né? Mas, foram passando as horas e percebi a gravidade da coisa.

Quando anunciaram que o avião havia caído, entrei em choque, mas ainda não havia pensado no pior. Via a notícia de sobreviventes sendo atendidos e eu ficava angustiada com cada nome falado e não falavam do Bruno. Então, foi caindo a minha ficha de que ele havia morrido. Eu não queria acreditar. Fui para o estádio (onde as famílias se reuniram) e entrei em desespero. Meu chão abriu.

Bárbara Calazans Monteiro, viúva de Ananias

O Ananias me ligou do avião, pouco antes deles decolarem, e me disse que chegaria entre meia-noite e 1h da manhã. A gente se despediu, como sempre fazia e parecia que seria apenas mais uma viagem. Eu fiquei montando um porta-retrato nosso, que era um quebra-cabeça, e por volta da 1h da manhã eu decidi ir dormir. Me lembro que mandei uma mensagem para ele à 1h06 dizendo: “Amor, chegou?” e só apareceu um sinal na mensagem, como se tivesse saído do meu celular, mas não havia chegado para ele.

Fiquei tranquila, porque achei que o voo estava apenas atrasado. Era umas 3h30 da manhã, tocou meu telefone, eu atendi e do outro lado uma voz desesperada. Atendi, era a Patrícia, mulher do Gimenez, gritando e chorando e eu fiquei desesperada. Inicialmente, achei que tinha acontecido algo com ela ou com a filha. Então, ela falou que o avião tinha sumido dos radares.

Na hora, me veio na cabeça os acidentes com o Eduardo Campos (ex-governador de Pernambuco) e do Bradesco (jatinho que levava executivos do banco caiu em Minas Gerais), que também falaram que tinha sumido dos radares e depois veio a notícia de que havia caído mesmo. Entrei em desespero e já imaginei que morreu todo mundo no acidente.

Em choque, eu ainda estava na cama quando atendi o telefone e não consegui me levantar. Liguei para uma amiga e pedi para ela ir na minha casa porque talvez o avião com os meninos tinha caído. Quando veio a confirmação, só pensava no que seria minha vida depois daquilo tudo. E a mensagem nunca chegou no celular dele.

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