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Nível de atrativos e encantos do Fla-Flu foi golpeado mais uma vez na final da Taça Rio

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

12 de julho de 2020 | 05h00

Depois de um Fla-Flu essa pergunta jamais teria sentido. Mesmo não sendo do Rio de Janeiro, todo mundo tinha a obrigação de ver um Fla-Flu, um dos maiores clássicos do futebol brasileiro. A pergunta se coloca agora nesses tempos tristes em que vivemos, onde as coisas se confundem, e é quase impossível discernir o que tem sentido e o que não tem.

Nesse caso a pergunta assume um caráter natural sem que ela suponha nenhuma perplexidade nem assombro, isto é, como se o Fla-Flu tivesse definitivamente descido à condição de um jogo qualquer.

Não foi essa a primeira vez que essa partida lendária foi golpeada, e seu nível de atrativos e encantos baixou. Houve Fla-Flu jogado até em Brasília recentemente, como se esse jogo não fosse propriedade de um único lugar no mundo, ou seja, o Maracanã. Fla-Flu só pode ser no Maracanã e de preferência um Maracanã lotado. Esse que tivemos na quarta-feira foi no Maracanã, mas no Maracanã vazio.

Essa partida que se caracterizava pela rivalidade das torcidas, que era célebre pelo que acontecia fora do campo, nas arquibancadas, jogou-se para ninguém. Os jogadores viraram sombras se movendo num espetáculo grotesco, pois tentavam imitar nos gestos, nas posturas, uma partida onde houvesse público e só conseguiam realçar ainda mais o deserto das arquibancadas e a frieza e falsidade do espetáculo. 

Nem o ator mais dedicado à profissão se dignaria a representar para ninguém. Conheço atores que a postura profissional e a dignidade da profissão os levariam a fazer um espetáculo, ainda que na sala houvesse um só espectador solitário, que lá tivesse chegado para vê-los. Para ninguém, porém, jamais.

Os jogadores de Flamengo e Fluminense jogaram para o nada, mas fingindo que jogavam para uma multidão. Infelizmente esse lamentável espetáculo não ficou nisso. Por motivos que não interessam, ou seja, por uma dessas trapalhadas jurídicas tão atuais, a televisão que transmite normalmente o jogo ou desistiu de transmiti-lo ou foi impedida pelos dois clubes, ou pela famosa Justiça Desportiva, que frequentemente estende suas atitudes muito além da mera justiça esportiva. O fato é que o Fla-Flu jogado dias atrás não sofreu apenas da proibição de público nos estádios; sequer foi transmitido.

Ou por outra, foi transmitido, mas não pelas vias a que estamos acostumados, com narradores experimentados, comentaristas conhecidos e confiáveis, pessoal técnico de primeira. A partida foi transmitida pelas TVs particulares dos dois clubes, isto é, a TV Flamengo e a TV Fluminense. É mais um rebaixamento que se adicionou a tantos outros que cercaram esse jogo e também um perigo para o futuro.

Se a moda pegar, as conhecidas fake news tomarão conta também do futebol, pois quem viu o jogo por uma dessas TVs viu uma transmissão partidária particular e que nada teve de verdadeira. Claro que isso não tem a ver com o pessoal que transmitiu a partida. Estavam a serviço dos dois clubes e devem ter recebido instruções exatas de como transmitir, dedicando sua atenção sempre ao que favorecia um clube em detrimento do outro.

Estamos, portanto, na iminência de ter um outro futebol, que prescinda do público e também da transmissão isenta.

Essa partida nunca deveria ter se realizado, em primeiro lugar. Ela é fruto da ambição e da ignorância de uma classe de dirigentes que julga que até a pandemia está a seu serviço e se submete às suas vontades. Até o vírus tem que se curvar a decretos e “protocolos” do dirigente que um belo dia acordou, depois de uma noite em que sonhou que era Calígula, e decretou que a pandemia tinha acabado.

A partir de hoje que se abram as escolas, os shoppings centers, que comece imediatamente o Brasileirão e a Libertadores. Qual é o problema? Determine-se que a crise acabou e revoguem-se todas as disposições em contrário.

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