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Volta por cima

Não gosto muito de pesquisar nem de me preocupar com datas precisas. Mas acho que foi mais ou menos há de dez anos que um clube grande e respeitável começou sua caminhada para o inferno. Por essa época o Santa Cruz do Recife, caiu para a Série B do Brasileiro. Foi um golpe para sua enorme torcida, mas que não podia saber o que ainda a esperava nas sucessivas temporadas.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2015 | 03h00

O Santa foi caindo, primeiro para a Série C, o que já era uma tragédia para um time tão vitorioso, e depois, último degrau descendente, para a Série D. Pouca gente ouve falar na Série D do Campeonato Brasileiro. Lá é o último círculo do inferno. De lá ninguém volta, dizem os mais aterrorizados pela sua ameaça. De fato, descer para além da D é impossível. Alguns times grandes e tradicionais foram parar na Série B, houve até quem despencasse para a Série C, mas nunca para as profundezas da Série D, que eu saiba. A não ser o Santa Cruz.

Depois de uma derrocada dessas o que sobrou do clube? Um estádio de 60 mil lugares, o Arruda, “o mundão do Arruda”, e uma torcida acostumada a lotá-lo, mas completamente desesperada. O desespero durou pouco. Compreendendo que o Santa só contava com ela, a massa passou a lotar o estádio. Nunca em jogos da Série D, houve tanto público, nunca caravanas de abnegados torcedores se deslocaram do Recife para viajar mais de 500 quilômetros para ver um jogo esquecido por imprensa, televisões e demais órgãos.

Assim aos poucos, num sacrifício alegre, a torcida se impôs o dever de reerguer o Santa. Seu acesso à Série C foi comemorado discretamente. A não ser pela parte da torcida que mais sofria, pelo pessoal do Blog do Santinha, por exemplo, uma espécie de diário do sofrimento e também da alegria e da exaltação de torcer pelo Santa.

Nesse blog há os relatos incríveis das peripécias para ver jogos além da imaginação. O Santa foi caminhando e chegou à Série B: daí houve comemoração. A grande torcida percebeu nessa ascensão um sinal de que as coisas poderiam ser outras. O Santa estava vivo. O Arruda já abrigava lotações incríveis durante todo o tempo em que o time perambulava pela Série C.

Na Série B a coisa continuou como se a caminhada fosse única e o fim da estrada já fosse visível. Desacostumado ao convívio com times importantes a trajetória do Santa na Série B foi cheia de obstáculos.

O sabor da tragédia ainda às vezes pairava sobre o Arruda. Uma derrota inesperada ou surpreendente desencadeava uma nunca inteiramente sufocada desconfiança no pior. Mas a torcida engolia e ia em frente.

Neste ano comecei a achar que a hora tinha chegado quando o Santa trouxe de volta o Grafite, para comandar seu ataque. Não só pela contratação em si, mas pela manifestação da torcida na estreia do jogador: foi de assustar. A torcida em peso comunicava ao time que esperava, ansiava e, mais do que isso, sabia que o Santa tinha ressuscitado. De repente foi como se nada mais pudesse deter a viagem rumo à Série A.

Inácio França me mandou duas gravações feitas no aeroporto de Recife na chegada do time depois da vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo, no Rio. Era um jogo decisivo, mas não o derradeiro. No entanto, a comemoração era de campeonato. É daquelas imagens que ao vê-las fica uma vontade grande de estar lá e ver tudo com os próprios olhos. Pensei em ir para Recife ver o jogo final, não pude. Pensei em ir para o último jogo, da festa, da volta por cima, da restauração do time, agora ocupando seu lugar junto aos demais grandes. De novo, não pude.

Não importa. Fica para uma outra vez. Porque haverá outra vez. Depois de ter cumprido essa epopeia, ao ter deixado a Série D e, sempre no campo e às suas próprias custas, voltado à elite do futebol, não me causaria surpresa se o Santa não parasse mais e um dia desses ganhasse também a Série A. Nesse dia vou estar lá. 

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