GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO
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Robson Morelli
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Voltei nesta manhã ao livro de Jô Soares sobre a Copa do Mundo de 1954

Ele tinha 16 anos e morava na Suíça. Contou sua lembrança do primeiro Olé no futebol. Ele escreve as crônicas com Armando Nogueira e Roberto Muylaert, duas lendas do jornalismo

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 10h27

A sexta-feira amanheceu triste com a notícia da morte de Jô Soares, aos 84 anos, em São Paulo. Minha geração, e algumas outras também, se divertiu muito com os personagens do grande humorista, ator e escritor que ele foi. Sempre que falava com o amigo Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2, do Estadão, e ele me contava de suas entrevistas com Jô, imaginava como seria fazer uma reportagem com ele, inteligente que era, com tantas sacadas, mas ao mesmo tempo respeitoso e sempre atencioso. Bira o entrevistava em sua casa. Sou do Esporte e meus personagens sempre foram outros, da mesma forma alguns mais interessantes e outros nem tanto. Jô me despertava grande fascínio.

Assim que soube de sua morte, antes mesmo das 6 da manhã, lembrei de um livro que tenho sobre a Copa do Mundo de 1954, intitulado "A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar", de crônicas assinadas por Armando Nogueira, que escrevia para o Estadão, Roberto Muylaert e ele, Jô Soares. Jô tinha 16 anos quando o Brasil perdeu, por exemplo, para a Hungria, de Puskas, por 4 a 2 em 54. A seleção brasileira ainda sentia os dissabores da derrota para o Uruguai no Mundial de 1950, no Maracanã,  quando ele tinha 12.

Jô abre sua contribuição no livro com uma crônica da Copa anterior, de 1950, cujo título era "1950 era assim: olé, olé, olé e gol". Ele escreve: "Em 1950 eu tinha doze anos, mas participei intensamente da IV Copa do Mundo. Era um evento que mexia com o Brasil todo, mas muito especificamente com o Rio de Janeiro por causa da inauguração do Maracanã como o maior estádio de futebol do mundo, uma coisa monumental, um negócio extraordinário... Comecei a ir aos jogos com o meu pai, em cadeira cativa, e o que mais me marcou foi o jogo com a Espanha, quando surgiu o famoso OLÉ, criado ali naquele momento, de improviso, com a música " Touradas de Madri", do nosso Braguinha... A gente sentia que os espanhóis não conheciam a letra, mas entendiam o espírito da coisa. Era um OLÉ bem diferente do OLÉ atual, porque no OLÉ atual a bola passa de pé em pé, não necessariamente com objetividade. Mas aquele OLÉ era assim de passe em passe a gol, era um OLÉ para frente: OLÉ, OLÉ, GOL!".

O livro é da Companhia das Letras, com fotos e recortes de notícias da época. O Brasil ainda não tinha nenhum dos seus cinco títulos mundiais que tem hoje. A Copa do Mundo também não tinha a quantidade de participantes que tem atualmente, e o peso que se dá à competição.

"Aí chegou a Copa de 54. Eu tinha ido estudar na Suíça, em 52. Morava em Lausanne. Naquela época, os times brasileiros que visitavam a Suíça, os times do Brasil que eu vi jogando lá, dificilmente eram times do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Ei vi, por exemplo, o Cruzeiro... O futebol na Suíça era totalmente amador. Começou o campeonato de 54 e todo mundo falando da Hungria e também do Uruguai e do Brasil."

Nem precisa dizer que Jô Soares escrevia bem, com frases curtas, bem pontuadas, quase explicativas. Ele teve outras obras publicadas ao longo da vida, mas guardei esse da Copa de 1954 com bastante carinho. Depois de tanto tempo, o encontrei na estante e passe a folhá-lo nesta manhã. Armando Nogueira e Roberto Muylaert eram do esporte e do futebol. Mas Jô Soares, não. O trio despertava interesse apenas pela assinatura. Comprei o livro, cuja data de publicação é de 1994, ano em que o Brasil ganhou o tetra nos Estados Unidos. Havia acabado de deixar a faculdade e já trabalhava na editora Abril, na revista Placar depois da Quatro Rodas.

Na TV, seu mais conhecido personagem esportivo foi o Zé da Galera, que pedia ponta ao técnico Telê Santana na Copa do Mundo de 1982. O bordão se espalhou pelo Brasil. E está vivo até hoje. Alguns times jogam com ponta, como queria Jô anos atrás.​

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