Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Voo da muamba, luva fora da regra e 'kawasakis': 25 curiosidades dos 25 anos do Tetra

Relembre histórias marcantes do aniversário da conquista da seleção brasileira na Copa de 1994, nos EUA

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2019 | 04h30

Há 25 anos a noite de um domingo se tornou especial para milhões de brasileiros. O tetracampeonato da seleção brasileira, conquistado na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, virou realidade no dia 17 de julho daquele ano e encerrou um jejum de títulos de 24 anos do País no principal torneio de futebol no mundo. A geração de Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel chegou à conquista após superar Eliminatórias complicadas e passar por um torneio com várias situações curiosas.

A própria CBF organizou no último fim de semana, na Granja Comary, em Teresópolis, uma festa com alguns dos tetracampeões. Com um jogo festivo e muitas homenagens, os jogadores, 25 anos mais velhos, alguns até de cabelos brancos, relembraram momentos inesquecíveis vividos por eles nos Estados Unidos. O Estado também resgatou passagens daquela campanha vencedora e preparou uma lista especial com 25 curiosidades para marcar os 25 anos do tetra.

1) Bebeto bateria o quinto pênalti

O camisa 7 da seleção brasileira era o jogador designado pelo técnico Carlos Alberto Parreira para executar a última cobrança da série decisiva contra a Itália, na grande final. Porém, não foi preciso o atacante bater. O erro de Roberto Baggio deu ao Brasil o título sem precisar fazer o quinto chute. O Brasil ganhou por 3 a 2 após empate de 0 a 0.

2) Zagallo recordista

Com a conquista de 1994, Mario Jorge Lobo Zagallo tornou-se o único a vencer o Mundial em quatro oportunidades. Em 1958 e 1962, ele ganhou como jogador. Estava em campo. Em 1970, Zagallo foi campeão como treinador do time. Em 1994, o Velho Lobo triunfou como coordenador técnico. O técnico era Parreira.

3) De novo de camisa azul

Na Copa de 1994, a seleção brasileira voltou a usar o uniforme azul em Mundiais depois de 16 anos. A equipe precisou vestir a combinação alternativa em três ocasiões: nos dois encontros com a Suécia e ainda diante da Holanda, pelas quartas de final. A última vez em que o Brasil havia usado a camisa azul tinha sido contra a Polônia, pela Copa do Mundo de 1978, na Argentina.

4) O Plano Real

A disputa do Mundial nos Estados Unidos coincidiu com o lançamento da nova moeda brasileira. O Real passou a circular no País em 1º de julho, dias antes do jogo pelas oitavas de final, contra os Estados Unidos. Nas transmissões das partidas da Copa pelas televisões e rádios, as informações sobre o torneio se mesclavam com dicas econômicos sobre a conversão para a moeda. O Real ainda é a moeda do Brasil.

5) Premiação dividida

Os jogadores brasileiros entraram em campo de mãos dadas em todos os jogos daquela Copa e também dividiram igualmente o valor do prêmio pela conquista. Cada um recebeu o equivalente a cerca de R$ 760 mil (em valores atuais) pelo título de campeão. O prêmio foi dado pela CBF.

6) Voo da muamba

O retorno da equipe ao Brasil gerou uma grande polêmica com a Receita Federal. O órgão foi verificar a bagagem dos jogadores para cobrar a declaração dos bens trazidos do exterior, procedimento padrão para todos os passageiros que entram no País. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, protestou contra a medida e defendeu que os tetracampeões fossem dispensados da fiscalização para não atrasar a festa de recepção aos jogadores. No episódio conhecido como o "voo da muamba", os jogadores trouxeram dos Estados Unidos eletrodomésticos como geladeira. Alguns atletas excederam o limite legal de importação em mais de 30 vezes. O escândalo da liberação da bagagem provocou a saída do então secretário da Receita Federal, Osíris Lopes Filho, que pediu demissão após o episódio.

7) Defesa reserva

O Brasil jogou a Copa do Mundo com a dupla reserva de zagueiros. Ricardo Gomes sofreu lesão pouco antes da disputa e acabou cortado. Ronaldão foi chamado para a vaga dele. O outro titular, Ricardo Rocha, se machucou durante a estreia, contra a Rússia, mas continuou com o elenco até o fim do torneio. O setor passou a ter as presenças de Aldair e Márcio Santos, que foram muito bem.

8) Raí perdeu a vaga e a braçadeira

O meia Raí começou a Copa do Mundo como titular, camisa 10 e capitão do time. Porém, ainda na primeira fase, o técnico Parreira mudou o esquema do Brasil e promoveu a entrada de Mazinho. A faixa de capitão mudou de dono a partir das oitavas de final, quando o reserva Raí passou a ver Dunga atuar no posto. Foi Dunga que levantou a taça de campeão.

9) Ronaldo roncador

Ninguém queria dividir o quarto da concentração com Ronaldo. O atacante, então com 17 anos, roncava demais e provocava piadas dos companheiros. Na época, o jovem atacante ainda usava aparelho nos dentes e recebeu dos mais velhos da seleção o apelido de "Boca de Lata". Ronaldo viria a se tornar um dos melhores atacantes do mundo.

10) Diversão das antigas

Em uma época sem internet e sem as mesmas facilidades de comunicação, os jogadores passavam o tempo livre na concentração com outras diversões. Os jogos de baralho eram a principal escolha, assim como bingos, leitura de revistas e, em certas ocasiões, até um bate-papo com cerveja liberada.

11) Dirigente levou dura

O então presidente do Palmeiras Mustafá Contursi foi o chefe da delegação do Brasil na Copa de 1994 e enfrentou alguns problemas com os jogadores. Depois de atrasar por duas ocasiões a saída do ônibus do time da concentração para o treino, o dirigente levou uma bronca de Romário na terceira vez. "Você não joga, não faz gol, não defende. Você não faz nada. Por que a gente tem de te esperar?", questionou o atacante na época.  

12) As luvas irregulares

O goleiro Taffarel levou uma multa e recebeu uma suspensão da Fifa depois do Mundial. Para subir ao pódio e receber a taça de campeão, o jogador trocou de luvas e passou a usar uma peça com o logotipo da marca em tamanho maior do que o permitido. Pela publicidade irregular, ele chegou a ser desfalque da equipe em algumas partidas da Copa América de 1995.

13) Contra um país inteiro

O Brasil enfrentou uma dura partida contra os Estados Unidos. Como o jogo foi marcado para 4 de julho, data da Independência Americana, o time de Parreira sofreu para encarar os donos da casa e o apoio da torcida. Para complicar, Leonardo foi expulso ainda no primeiro tempo e a angústia aumentou. O Brasil só conseguiu marcar no segundo tempo, com Bebeto, para confirmar a vitória por 1 a 0.  

14) Dor para sempre

Após receber a cotovelada de Leonardo, o americano Tab Ramos teve uma fratura no rosto e foi hospitalizado. Em entrevistas recentes, o agora treinador das seleções de base dos Estados Unidos confessou ainda sentir um pouco de dores no local atingido. No entanto, os dois jogadores fizeram as pazes pouco depois do Mundial. Em 1995, pela Copa América, no Uruguai, Brasil e Estados Unidos se enfrentaram pela semifinal e os dois até trocaram camisas ao fim do encontro.

15) Homenagem para Ayrton Senna

A seleção brasileira decidiu homenagear Ayrton Senna depois de conquistar a Copa de 1994. Com faixas em campo, o grupo dedicou a conquista ao piloto tricampeão mundial de Fórmula 1, que havia falecido em acidente em maio daquele ano. 

16) Ricardo Rocha e os kawasakis

O zagueiro Ricardo Rocha se tornou um líder fora de campo após se lesionar e não poder jogar a Copa. O zagueiro incllusive chamou o elenco para o incentivo final antes da decisão contra a Itália. O defensor pedia dedicação em campo e para inspirar os companheiros, resolveu contar histórias e fazer algumas analogias. "Quero que vocês sejam como os pilotos japoneses, os 'kawasakis', que davam a vida em nome da pátria", disse. O certo seria kamikazes. O atacante Romário percebeu o erro, tirou sarro do companheiro e todos caíram na risada. 

17) Embala neném

Bebeto ficaria marcado na Copa por uma comemoração criativa. Ao imitar o gesto de embalar um bebê enquanto vibrava pelo gol marcado sobre a Holanda, o atacante criou uma marca registrada. A atitude foi uma referência à chegada do filho Mattheus, que nasceu durante o Mundial. Atualmente o garoto joga pelo Vitória de Guimarães, de Portugal.  

18) Dunga xinga enquanto ergue a taça

Ao erguer o troféu de campeão do mundo, o meia Dunga desabafou. Depois de se sentir muito criticado pela derrota do Brasil na Copa de 1990 e pela campanha ruim das Eliminatórias, o camisa 8 aproveitou a ocasião festiva para reclamar da imprensa enquanto se preparava para erguer a taça. "Fotografem aí, seus traíras", disse aos fotógrafos.

19) Mudou o lado do pênalti na hora

Nos treinos da seleção, o zagueiro Márcio Santos era o melhor batedor de pênaltis. O chute era forte, sempre no canto esquerdo do goleiro. Na hora da decisão contra a Itália, coube ao defensor a oportunidade de ser o primeiro batedor na equipe. Ao caminhar para a batida, o defensor se lembrou de conversas com os companheiros de time e resgatou a informação de que o goleiro Pagliuca levava muitos gols no Campeonato Italiano em finalizações no lado direito. O zagueiro trocou o lado da batida e se deu mal. Pagliuca defendeu.

20) A redenção de Branco

Criticado por parte da imprensa, que pedia a convocação do jovem Roberto Carlos, do Palmeiras, o lateral Branco deu a volta por cima na Copa. O veterano de 30 anos virou titular após a expulsão de Leonardo e tinha de recuperar a forma física para marcar o rápido ponta holandês Overmars, um dos destaques do torneio. Branco sofria na época de fortes dores no nervo ciático, mas não só deu conta na marcação, como também marcou o gol da vitória por 3 a 2 pelas quartas de final.  

21) Romário sem prática

O camisa 11 chegou à final da Copa com só duas cobranças de pênalti na carreira: uma convertida pelo PSV e outra desperdiçada pelo Barcelona. Após o empate com a Itália, ele pediu para bater um dos chutes decisivos e deu um susto na torcida na hora do lance. A finalização dele tocou na trave antes de entrar.

22) Viola em campo na final

O atacante Viola, então jogador do Corinthians, foi a última arma secreta utilizada pelo Brasil na Copa do Mundo. O jogador atuou somente pelo segundo tempo da prorrogação contra a Itália, na decisão, e deu trabalho aos adversários. Com lances velozes e arrancadas, ele criou boas chances de gol.

23) Casa cheia

Apesar de não ser o país mais apaixonado do mundo por futebol, os Estados Unidos tiveram em 1994 a maior média de público de uma Copa do Mundo. Cerca de 69 mil torcedores estiveram presentes em cada uma das partidas. A final teve um público de 94 mil pessoas em Los Angeles.

24) Frevo

Ao voltar para casa, a seleção brasileira escolheu Recife como o primeiro destino. A cidade ficou marcada pelo grande apoio popular nas Eliminatórias, em especial na vitória por 6 a 0 sobre a Bolívia. Em retribuição, o time passou pela capital pernambucana como o primeiro destino depois da campanha vitoriosa nos Estados Unidos. No desembarque, o recifense Ricardo Rocha beijou o chão.

25) A festa de Pelé

Uma das cenas mais marcantes para o torcedor foi a celebração pela taça. Após Roberto Baggio errar o pênalti decisivo, a transmissão mostrou o narrador Galvão Bueno, da TV Globo, ao lado do ex-jogador Pelé. Os dois gritavam e pulavam abraçados, para comemorar o título. O Rei do Futebol usava uma gravata que tinha um desenho com alusão à bandeira dos Estados Unidos.

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