Lucas Figueiredo/ CBF
Lucas Figueiredo/ CBF

Voo fretado e ônibus na Cordilheira: o esquema da CBF para a seleção jogar na Venezuela

Deslocamento para Mérida, local do jogo desta terça, é mais complicado do que até mesmo a ida para a altitude de La Paz

Ciro Campos, enviado especial a Natal, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 07h00

A seleção brasileira encerra neste domingo sua tranquila passagem por Natal, com viagem rumo ao destino mais complicado da América do Sul nesse momento. O deslocamento para Mérida, local do jogo de terça contra a Venezuela, é mais complicado do que até mesmo a ida para a altitude de La Paz, na Bolívia, pelas condições ruins de acesso à cidade e o temor com as condições socioeconômicas do país. O planejamento exigiu da CBF atenção com a logística e deslocamento das bagagens.

A inexistência de voos diretos entre Brasil e Venezuela, ao contrário da oferta para outros países vizinhos, obrigou a CBF a fretar avião com destino à região oeste do país. O aeroporto mais próximo é em El Vigia, cidade a 70 km de Mérida. Daí para frente o caminho será por estrada sinuosa na Cordilheira dos Andes. O deslocamento terrestre deve levar cerca de 1h30.

Outra preocupação da CBF foi reforçar a quantidade de produtos de uso pessoal para os jogadores e comissão técnica.

Embora não se pronuncie sobre o tema, a entidade teve o cuidado de preparar a bagagem com alimentos e itens de higiene usados pelo elenco para evitar o problema de abastecimento enfrentado pela população da Venezuela. No último mês, a Argentina esteve em Mérida e carregou para a cidade desde toalhas até papel higiênico e sabonetes por temer a mesma dificuldade. A CBF evita detalhar o planejamento para não gerar repercussão negativa sobre o tema no país vizinho. Oficialmente, a informação é genérica.

“A CBF tem cuidado esmerado com todos os aspectos de viagens, de voo à comida. Tudo o que foi pensado para ir à Venezuela está dentro do esperado”, explicou o chefe da delegação, José Vanildo. A equipe sai na tarde de domingo de Natal, em voo fretado de cerca de sete horas de duração, e faz treino em Mérida, amanhã, no local da partida.

A logística das Eliminatórias tem sido alvo de estudo dos dirigentes brasileiros. A dificuldade em encontrar voos, somada ao pouco tempo de treinamento, levou a CBF a tomar medida inédita para a preparação em Natal a fim de receber a Bolívia. A entidade fretou avião de Madri até a capital potiguar para trazer os 13 jogadores que atuam na Europa. “Foi mais fácil do que contar com viagens espalhadas de um ou de outro, com conexões em São Paulo ou Rio de Janeiro, antes de pegarem outro avião para Natal”, explicou o coordenador de seleções da entidade, Edu Gaspar.

A viagem da Europa para Natal, de cerca de sete horas e meia, terminou na tarde de segunda, com a chegada do grupo ao hotel. Todos foram avaliados pela comissão técnica para aferir o desgaste, pois a maioria atuou no fim de semana nos campeonatos europeus. O Brasil agora conta com um preparador físico de dedicação exclusiva, Fábio Masheredjian, ex-Corinthians. É responsável também por monitorar o desgaste de cada atleta nos seus respectivos clubes para evitar lesões durante estadia na seleção.

VÍTIMA DA LOGÍSTICA

Um erro na preparação da viagem atrapalhou a Bolívia bem antes de sofrer a goleada de 5 a 0 do Brasil. A seleção levou nove horas para sair de Santa Cruz de la Sierra e chegar à capital potiguar por ter programado voo fretado com escala em Goiânia. Como o aeroporto escolhido não tem imigração e só recebe voos locais, a rota teve de ser alterada. A delegação transferiu a parada de abastecimento para Brasília, onde foi obrigada a deixar o avião e fazer o procedimento legal. O processo burocrático demorou três horas. Os bolivianos só chegaram ao local da partida com o Brasil na noite da véspera do confronto. Os jogadores tiveram pouco tempo para treinar na Arena Dunas.

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Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 07h00

A seleção brasileira desembarca na Venezuela para a partida contra a Vinotinto, terça-feira, como se estivesse numa viagem no tempo. Muitos dos jogadores do elenco não eram nem nascidos, mas para o técnico Tite, o país vizinho certamente o fará lembrar do Brasil dos anos 80, assombrado por hiperinflação, saques, escassez de produtos variados e mercado negro de alimentos.

O manejo caótico na economia da Venezuela chavista de 2016 lembra os tenebrosos anos do governo Sarney, quando o Brasil entrou em processo hiperinflacionário. Tite, à época, era volante do Guarani.

O país governado pelo presidente Nicolás Maduro deve fechar o ano com inflação de 480%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2017, esse índice deve bater 1.600%. Oito em cada dez produtos da cesta básica não podem ser encontrados nas prateleiras. Nos hospitais, faltam remédios e, em alguns casos, sequer há água e sabão para limpar simples feridas.

A crise, que já dura três anos, tem origem na última eleição do presidente Hugo Chávez, em 2012, a poucos meses de sua morte. Na época, ele ampliou o gasto público com programas sociais durante a campanha. O caixa ficou vazio e a estatal do petróleo PDVSA – responsável por 96% da receita em dólar do país – não era produtiva o suficiente para repor o que foi gasto, parte porque comprometera fatia de sua produção em acordos anteriores com a China, parte porque perdera competitividade. 

Quando Maduro assumiu, não havia dólares suficientes para o setor privado, responsável pela produção e revenda de produtos e consumos, em sua maioria, importados, para o setor público e para o pagamento da dívida. O governo começou então a restringir o acesso das empresas aos dólares, o que provocou uma corrida pela moeda americana no câmbio negro. Sem dinheiro no setor privado, a produção caiu e com a oferta em baixa, os preços dispararam. O setor público, com caixa zerado, passou a imprimir dinheiro para financiar a dívida estatal. O bolívar, dinheiro local, perdeu o lastro e a inflação, já alta, saiu do controle.

Hoje, falta quase tudo. É comum no noticiário que jogadores da Vinotinto, em viagens pelas Eliminatórias, comprem itens básicos de higiene, como sabonetes, papel higiênico e desodorantes em outros países da América do Sul. Por outro lado, quando as seleções do continente viajam para a Venezuela, levam esses itens na bagagem.

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Ciro Campos, enviado especial a Natal, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 07h00

O técnico Tite terá na Venezuela o obstáculo que atormentou os seus antecessores no comando da seleção. Jogar sem Neymar, suspenso para a partida em Mérida, pelas Eliminatórias da Copa, é outro grau de dificuldade para desafiar o bom momento da equipe.

Nas três últimas eliminações do Brasil em competições oficiais o time não tinha Neymar em campo. Por isso, há sempre a dúvida se a exemplo da última Copa do Mundo e das duas recentes Copas Américas o rendimento possa cair, mesmo que a criação ofensiva não dependa tanto somente do talento do atacante do Barcelona.

“É claro que o Neymar é o grande nome, é acima da média e vai fazer muita falta. Mas temos o (Philippe) Coutinho, que está entrando muito bem, o Willian, o Oscar. Temos ótimas reposições”, explicou o meia Renato Augusto.

O favorito para começar como titular é Willian. O meia do Chelsea substituiu Neymar no jogo com a Bolívia, na quinta-feira, em Natal, e foi titular nas duas primeiras partidas sob o comando do treinador, em setembro, contra Equador, em Quito, e diante da Colômbia, em Manaus.

O desfalque do principal jogador justamente no melhor momento dele nas Eliminatórias (três gols nos últimos três jogos) apresenta para Tite, por sua vez, a possibilidade de testar novas formações diante do adversário mais frágil.

A Venezuela está em último lugar, com somente dois pontos, e não ganhou um jogo sequer nestas Eliminatórias. Apesar da campanha, quase ganhou da Argentina no último mês, em Mérida, após fazer 2 a 0 e deixar o time visitante igualar.

Pelo menos a ausência de Neymar garante a presença do atacante na rodada seguinte, quando o Brasil recebe a Argentina, no Mineirão, em novembro.“Nosso time está focado no desempenho e no bom trabalho coletivo. A força da equipe será importante no próximo jogo”, disse o zagueiro Miranda.

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