Voo incerto

A trajetória de Alexandre Pato não é fora do comum, e tem alguns aspectos até banais. Nem por isso deixa de chamar a atenção. Em uma década aconteceu isto com ele: com 16 anos vestiu a camisa titular do Inter, fez gols, despertou a cobiça de empresários, bateu asas para a Itália, teve contusões demais e brilho fugaz no Milan, foi repatriado pelo Corinthians, não deu certo no Parque, passou dois anos emprestado para o São Paulo, retornou ao final do período e não encontra espaço no campeão brasileiro, que se mostra aflito para negociá-lo com algum estrangeiro. Ufa!

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2016 | 03h00

Com 26 anos e alguns meses de idade, o centroavante que teve arrancada de carreira acima da média de novo topa com encruzilhada e enfrenta a situação constrangedora de não ser desejado pelo clube ao qual está ligado por contrato. Com as qualidades que tem, com o retrospecto da temporada aceitável de 2015, com a carência de atacantes no Corinthians, a solução lógica seria a de reintegração serena. Mas, pelo visto, queimou o filme a ponto de a diretoria pedir a Tite que não o incluísse no grupo que viajou para os EUA. 

Pato ficou por aqui, e há duas semanas só abre o bico de cansaço pelo esforço nos treinamentos em período integral. Fora isso, não dá um pio, não reclama, não pede lugar na equipe, não ataca os cartolas. Em contrapartida, esnobou proposta suntuosa da China, para irritação dos dirigentes alvinegros, que aplaudiriam se seguisse rumo de Jadson, Gil, Ralf e Renato Augusto. 

A Ásia não está nos planos; o negócio de Pato é a Europa. Jornalistas de gabarito reforçam essa tese: o amigo Mauro Cézar Pereira revelou, há dias, que o destino mais provável seja a Inglaterra. O estimado PVC ouviu de representante do atleta a informação de que “quatro clubes” têm intenção de contar com os gols dele: Chelsea, Liverpool, Sporting e Benfica. Muitos os interessados num jogador encostado. Isso sim que é prestígio; só falta alguém se adiantar com uma proposta real.

Sobram interrogações e escasseiam exclamações em torno do futuro de Pato. Em cenário confuso, não se deve afastar nem sequer a possibilidade - no momento remota - de que permaneça no Corinthians ao menos até o meio do ano, etapa mais intensa do mercado europeu. Nesse ínterim, a contragosto, viraria alternativa para o clube. 

O panorama continua aberto e o desfecho, incerto. No entanto, salta aos olhos a constatação de que Pato se transformou em boleiro normal, que hoje não lembra o menino prodígio que numa tarde de novembro de 2006 fez o primeiro gol como profissional em goleada de 4 a 1 do Inter sobre o Palmeiras no antigo Palestra Itália. Dias mais tarde, marcou também na disputa do Mundial de Clubes - e, seja pela euforia da conquista, como por eficiente estratégia de marketing, pintou como um Ronaldo em potencial.

As etapas seguintes são conhecidas e foram resumidas no primeiro parágrafo desta crônica. Pato quase imberbe encarou a aventura no Milan, que o bancou por seis temporadas até desistir e repassá-lo para o Corinthians. E, dali, para o São Paulo. Nesse tempo, o debate recorrente: quando se firmará como goleador? Quando será de fato jogador de seleção? E ídolo para valer e não apenas esporádico?

As perguntas persistem - e talvez as respostas não venham, ou só surjam no ocaso da passagem dele pelos gramados. Pois acontece desses fenômenos no futebol: há jogadores que apenas na maturidade atingem a plenitude e encantam intensamente, mas por pouco tempo. O usual é que os fora de série sobressaiam ainda garotos, vivam o auge entre os 24 e 31 anos - mais ou menos, não se trata de números exatos ou fixos -, para em seguida se aquietarem. 

Pato está na faixa etária favorável ao topo. Ainda não o alcançou, e não por falta de oportunidades. Saberá agarrar a próxima? Terá gana para tal? A escolha é dele. Tomara acerte. Pena que até agora o moço bacana, jeito de boa gente, se encaminhe para ser mais uma dentre tantas promessas que não vingaram.


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