Ennio Leanza/ Efe
Ennio Leanza/ Efe

Voto pelo Catar levou à 'situação caótica' na corte de Nova York, diz Blatter

Ao Estado, ex-presidente da Fifa fala da decisão de dar aos russos a Copa de 2018 e garante que ninguém verá seu nome citado no julgamento nos EUA

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2017 | 11h37

GENEBRA - Se não fosse pela decisão de dirigentes de votar pela Copa do Mundo no Catar, o mundo do futebol não estaria no "caos" que se encontra hoje nas cortes de Nova York. Quem faz a constatação é Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa e que esteve no epicentro da maior crise na instituição. Em entrevista ao Estado, o suíço fala da preparação para a Copa de 2018, na Rússia, da Copa de 2014 no Brasil e a lógica política de levar o torneio para Moscou. 

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Afastado de qualquer envolvimento com a administração do futebol pelo Tribunal Arbitral dos Esportes e fora da Fifa desde 2015, Blatter admite que está acompanhando de perto o julgamento dos dirigentes sul-americanos no tribunal de Nova York. Mas garante: seu nome não vai aparecer. 

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"Todos estão tentando salvar suas cabeças ali e acusar aos demais. Mas ninguém pode me acusar. Você não vai ver ninguém me acusando, pois eu realmente não estou envolvido nesse assunto", disse.

Blatter ainda contou os bastidores da preparação da Copa do Mundo no Brasil, apontando que a construção de estádios foi tomada com base em "decisões políticas". "O Brasil chegou a propor que fizéssemos a Copa em 17 estádios e tivemos de reduzir isso para 12", afirmou. Hoje, parte deles está vazio. 

Em campo, porém, o ex-presidente da Fifa insiste em que o Brasil é um dos três favoritos para ganhar a Copa e que soube renovar seu time, depois de 2014. 

Com 81 anos, sua voz ainda não é mais a mesma daquele dirigente que era recebido como um chefe de Estado por onde ia. Mas ele garante que continua ativo. O suíço, que hoje vive entre Zurique e sua região do Valais, ainda promete lançar um livro antes da Copa do Mundo, com novas revelações sobre o que teria ocorrido em seus anos na Fifa. E ele garante: haverá um capítulo inteiro sobre o Brasil. 

Eis os principais trechos da entrevista:

O que significa -  em termos esportivos e políticos - levar a Copa do Mundo para a Rússia?

R - Antes de mais nada, pela rotação das Copas do Mundo, era óbvio que 2018 seria na Europa. Era a principal decisão que tomamos. Com a decisão que tomamos no dia 2 de dezembro de 2010, com duas escolhas de sedes de Copa, ficou também estabelecido pela regra de rotação que a Copa de 2022 deveria ir para a Concacaf. Isso era o começo de nosso consenso para decidir sobre duas Copas do Mundo. O Mundial sempre foi disputado entre as Américas e a Europa. Por decisão de realizar uma rotação, primeiro fomos para a Ásia e depois fomos para a África. Mas depois era a vez da Europa. O Leste Europeu nunca tinha tido uma Copa, mas a parte Ocidental teve na Espanha, Itália, França, Alemanha, Inglaterra, Suíça e Suécia. Mas ninguém no Leste. O único grande evento que a Rússia teve foi a Olimpíada de 1980. Houve então um consenso entre o Comitê Executivo da Fifa: sim, vamos para a Rússia.  Mas a decisão de ir para a Rússia estava ligada à decisão de levar a Copa de 2022 para os EUA. 

Qual era a lógica disso?

Existiam duas lógicas. A primeira era a de garantir que, ao tomar a decisão sobre duas sedes de Copa, não apenas daríamos tempo suficiente para os organizadores do Mundial, mas para nossos parceiros de marketing e para as televisões sobre a programação de nossa cooperação com a Fifa. Outro ponto importante que foi alvo de um acordo de consenso era de que, se fôssemos para a Rússia e para os EUA, isso seria um sinal de geopolítica. Se os dois grandes líderes da política internacional, que não se gostam e isso nem é novidade, fizessem uma preparação conjunta do Mundial, o futebol estaria construindo pontes e trazendo as pessoas juntas. Isso teria sido maravilhoso. 

E o que ocorreu?

Essa decisão fracassou. Isso ocorreu por conta da intervenção da política francesa, do presidente da França (Sarkozy), que se encontrou no Palácio do Eliseu com o príncipe herdeiro do Catar e que hoje é o emir. Depois daquilo, Michel Platini veio até mim e me disse: "Desculpe-me Sepp, não posso garantir mais meus votos para os EUA". Isso parou, lamentavelmente, essa ideia maravilhosa. Se isso tivesse ocorrido, não estaríamos nessa situação caótica como está ocorrendo nos EUA, com o julgamento. Mas, voltando para a Rússia, levar o torneio para la é um privilégio. Mas também é uma responsabilidade e uma oportunidade de que são capazes de organizar.

O sr. está satisfeito pela forma pela qual a nova Fifa organiza esse Mundial de 2018?

Continuo mantendo contatos diretos na Rússia. Na verdade, não apenas com a Rússia e com pessoas em muitos países. Mas com os russos é mais próximo. Levar a Copa para lá não foi um empreendimento fácil. Mas quando chegamos ao voto, foi fácil. Todos os membros estavam convencidos de que a Rússia era a melhor. Agora, sei que todos os estádios estão prontos. Tenho certeza de que as preparações, por terem começado há muito tempo, tiveram controle sobre os trabalhos. Eu tenho convite para estar lá nas finais, um convite oficial de Vladimir Putin. E eu estarei lá.

Que ensinamentos o Mundial de 2018 e a Rússia levam do Brasil em 2014?

É assim em todas as grandes competições. Deve-se aprender com o predecessor. E isso ocorre nos Jogos Olímpicos. Não estou tão convencido de que os russos aprenderam algo do Brasil. Sabe, no início, o Brasil queria disputar a Copa do Mundo em 17 estádios. E tivemos de cortar isso para 12 estádios.

Mas o que eles alegaram ao sr. para justificar 17 sedes?

 Eles queriam usar a Copa para dar a diferentes cidades estádios de Mundiais para a promoção do futebol. O futebol é como uma religião no Brasil. 

Mas alguns desses estádios no Brasil hoje estão vazios.

Claro. Isso é porque eles queriam levar a todas as regiões. Foi o mesmo que ocorreu na África do Sul. Na Coreia, eles também jogam em estádios vazios. Isso não é bom. Não era o futebol que queriam apresentar. Era também os políticos. Eles acreditam que a Copa do Mundo é o maior evento do mundo e as repercussões na TV são muito maiores que os Jogos Olímpicos. Portanto, eles querem mostrar que são os melhores. Mas isso vem a um custo muito alto e agora vemos o que ocorre no Brasil. Isso também é algo que ocorreu com as Olimpíadas. Olha, na África, jogamos em nove estádios. E funcionou. Era suficiente. 

Então foi uma decisão política?

Essa foi uma decisão política. É a dimensão política de nosso esporte. Definitivamente, ele tem essa dimensão. 

E, em campo, quem são os favoritos para vencer a Copa de 2018?

Nas Américas, o Brasil é o favorito para vencer. Definitivamente. O Brasil se renovou e agora tem essa estrela incrível que é Neymar. Na Europa, eu assisti outro dia com detalhes ao jogo entre a França e Alemanha. E devo dizer que a França tem um time absolutamente incrível. São jovens, rápidos e ágeis. É um prazer vê-los jogar. No final, todos dizem que a Alemanha sempre ganha. É verdade que eles ganharam a Copa das Confederações. Mas não estou tão convencido de que seja um time tão bom. A Espanha está mais velha. Já a Holanda e Itália poderiam fazer um treinamento de verão juntos. É ruim dizer isso. Mas vi uma charge outro dia que dizia que esse seria o programa de TV mais chato que poderia haver. Agora falando sério, na África, se eles forem bem preparados, a Nigéria poderia ser um desses grandes times. Na Ásia, ninguém dominou e espero que um dia o Japão possa ter um time forte. Mas acho que o campeão vai estar entre o Brasil, França e Nigéria.

O sr. citou Neymar. Ele pode ser ainda o melhor do mundo?

No Barcelona, ele era uma estrela. Mas eles tinham a velha estrela lá. E você estará na sombra da estrela. Agora, ele pode mostrar seu verdadeiro talento.

Mas a um preço de 222 milhões de euros, ele mudou o futebol?

Essa não era a transferência. Era apenas o preço de rescisão do contrato. Se alguém pagou, foi obviamente o estado do Catar que o fez. Poderia ser argumentado que se alguém acha demais 222 milhões de euros, mas se comparar com uma pintura de Da Vinci, com US$ 400 milhões. A pessoa que o comprou vai o esconder para que não seja roubado. Já o Neymar pode ser visto duas vezes por semana em todo o mundo pela televisão. Temos que comparar um pouco esse valor.

O sr. viveu anos tão intensos e viajou o mundo. Como é sua vida hoje?

Tive de passar por algumas intervenções em minhas costas, em meu joelho. Nunca havia feito nada. Agora, estou me movendo bem de novo. Não foi uma saída bonita da Fifa. Isso me afetou. Mas agora dou conferências, palestras, para universidades, estudantes, para organizações esportivas. Estou agora preparando um novo livro que será publicado antes da Copa do Mundo. Será um livro que vai descrever o que ocorreu na Fifa. Ele sairá em diferentes línguas ao mesmo tempo e estou ainda trabalhando nele. Portanto, minha vida é muito interessante. Não estou abandonado. Estou vivendo entre Zurique e Valais. Mas não estou viajando ao exterior. Fiz isso tantas vezes na minha vida e estou muito feliz em estar aqui. 

O sr. trará informações sobre o Brasil em seu livro?

Sim. Haverá um capítulo inteiro sobre o Brasil. 

O processo na corte nos EUA, o sr. está acompanhando?

Claro que estou seguindo. 

Alguma ideia sobre o que pode ocorrer?

Não. 

 

O nome do senhor não foi mencionado... 

Por que é que deveria ter sido mencionado? Não estou nesse assunto. Meu princípio é de que nunca se deve aceitar dinheiro que não seja merecido normalmente. Isso era a filosofia de meu pai.

O sr. ficou surpreso com as revelações feitas até agora no tribunal?

Bom. São declarações feitas agora, especialmente sobre uma pessoa que já morreu (Julio Grondona). É muito fácil falar dele como testemunha, quando ele não está mais aqui para dizer se é verdade ou não. Olhe, todos estão tentando salvar suas cabeças ali e acusar os demais. Mas ninguém pode me acusar. Você não vai ver ninguém me acusando, pois eu realmente não estou envolvido nesse assunto. 

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