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Wenger diz que saída prematura de jogadores prejudica seleção brasileira

Técnico do Arsenal afirma que o aspecto comercial no futebol brasileiro estaria matando a qualidade da seleção nacional

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2012 | 21h00

NYON - Conhecido como o "intelectual do futebol" e eleito como o melhor técnico do mundo na década 2000-2010 pela IFFHS, o francês Arsène Wenger não hesita: o aspecto comercial no futebol brasileiro estaria matando a qualidade da seleção nacional. Para o treinador do Arsenal e que coleciona títulos, a saída prematura de jogadores do País foi gradualmente minando o futebol brasileiro.

O francês desembarcou na equipe inglesa em 1996 e, se concluir seu contrato em 2014, terá sido o treinador que mais tempo passou no comando do clube. Nascido em Estrasburgo, sua estratégia é a de ir além da tática do futebol para comandar uma equipe. Força mental e inteligência em campo são as marcas de seu estilo, que lhe valeu a Ordem do Império Britânico e o reconhecimento do mundo do futebol.

Wenger, em entrevista exclusiva ao JT, defende a manutenção de Mano Menezes no comando da seleção brasileira até 2014, fala sobre o que ele acredita ter sido o fator que "destruiu o futebol brasileiro" e faz uma avaliação do dinheiro no futebol mundial. Eis os principais trechos da entrevista, concedida na sede da Uefa em Nyon, na Suíça.

Como o senhor vê as críticas ao treinador brasileiro Mano Menezes?

Ele pelo menos tem um projeto, o que já é grande coisa. Ele parece saber o que está fazendo e acredito que o Brasil deveria mantê-lo no cargo até 2014. A diferença entre o Brasil e a Europa é que, no Brasil, treinadores vivem em hotéis. Na Europa, moram em casas. Treinadores precisam ter tempo para trabalhar.

Mas isso será suficiente para disputar a título na Copa?

É verdade que a equipe precisa ganhar em maturidade e os últimos jogos provaram isso, como no caso do torneio olímpico. É verdade que o grupo é muito jovem. Mas em dois anos podem estar no auge de suas formas. A questão é garantir uma continuidade no trabalho.

Mas como pedir paciência se a Copa do Mundo ocorre em menos de dois anos no Brasil?

Claro que é sempre complicado pedir paciência aos torcedores. Mas é isso que precisam ter agora. Talento não falta no Brasil e eu mesmo sempre tive muita sorte sempre que trouxemos um jogador brasileiro para atuar no Arsenal. Sou um grande admirador do futebol brasileiro.

O futebol brasileiro parece ter perdido um pouco de suas características de futebol arte e, ao mesmo tempo, não encontrou uma nova identidade. Qual o motivo dessa crise no futebol do País?

A transferência de jogadores cada vez mais jovens para a Europa é o que está destruindo o futebol brasileiro. Tudo indica que a parte comercial do futebol ganhou uma força sem precedentes e que acabou destruindo a educação de jovens jogadores. O que vemos é que há uma transferência de jogadores nacionais cada vez mais jovens para a Europa. Eu conversava com Carlos Alberto Parreira há pouco tempo e ele me confessava que sequer conhecia alguns dos brasileiros que estavam despontando nas equipes na Europa. Ficou claro que não há um controle.

Como o senhor vê então o futuro desse futebol?

Acho que isso vai começar a mudar. Com uma economia cada vez mais forte, o Brasil pode reverter a situação e manter jogadores de talento no País. Isso pode mudar muita coisa.

No que se refere a essa parcela comercial do futebol, temos visto a chegada de príncipes árabes comprando times europeus...

Não entendo. Qual o problema disso? Antes, eram os Berlusconi da vida. Agora são outros.

Sim. Mas agora a Uefa tenta impor regras sobre finanças para evitar que clubes acabem endividados. Qual pode ser o impacto dessa chegada de novos magnatas?

Olha, não se pode negar que o futebol precisa de dinheiro. O que eu acredito, porém, é que o futebol deve e pode ser autossuficiente. Trata-se de um setor suficientemente importante para depender de dinheiro de fora. Esse deve ser o lema para o futebol hoje.

O dinheiro ainda conquista campeonatos?

Certamente ajuda. Mas jogos são vencidos em campo e eu ainda aposto no futebol puro, de resultados em campo.

Como o senhor avalia a qualidade do futebol europeu hoje?

Tivemos uma Eurocopa de alto nível. Além disso, a Liga dos Campeões é hoje o melhor torneio do mundo.

E por que a Copa do Mundo sofre para apresentar ao público um bom futebol, como já ocorreu em 2006 e 2010?

Existem vários fatores que pesam nisso. Um deles é a questão de que equipes com diferentes estilos estejam se enfrentando. Outro fator é de que a pressão é muito grande e ninguém quer perder. Isso tudo acaba afetando. Vamos ver o que virá em 2014.

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