WILTON JUNIOR/ ESTADÃO
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Wilson Seneme quer fortalecer árbitros e promete escalas com base em ‘bom rendimento’

Novo chefe de arbitragem da CBF fala ao Estadão sobre suas pretensões no cargo e a expectativa de melhorar atuação dos juízes brasileiros e do VAR

Entrevista com

Wilson Luiz Seneme

Marcio Dolzan/ RIO, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 10h00

Presidente da Comissão de Árbitros da Conmebol nos últimos seis anos, Wilson Seneme deixou o cargo na confederação sul-americana esta semana para voltar ao Brasil e chefiar o quadro do País. Ele assumiu o cargo de presidente da Comissão de Arbitragem da CBF na quinta-feira, a dois dias do início do Campeonato Brasileiro.

Aos 51 anos, o ex-árbitro diz que sabe o tamanho do desafio. Nesta entrevista ao Estadão, Seneme reconhece que a arbitragem nacional precisa melhorar, mas considera que muitas vezes as reclamações de cartolas sobre decisões de jogo “têm muito mais sentido político do que qualquer outra coisa”.

Seneme também defendeu o VAR no Brasil. “O VAR dá muita segurança para o futebol. É óbvio que ajustes, que pontos podem ser melhorados e modificados. Agora, não tenha dúvida nenhuma de que é um benefício muito grande”, pondera. Confira os principais pontos da entrevista:

Por que o senhor decidiu deixar a Conmebol e assumir a Comissão de Arbitragem da CBF?

Não foi por um motivo único. Primeiro foi o meu ciclo na Conmebol; foram seis anos que eu estive lá, e eu sempre acreditei que a gente vive de ciclos. A gente não pode querer se perpetuar numa função, e acredito que depois de seis anos eu contribuí com o desenvolvimento da arbitragem na América do Sul. O segundo motivo é em função da proposta que recebi do presidente Ednaldo, de acreditar na proposta de trabalho que ele tem pra CBF, na mudança que ele quer implementar de uma maneira geral. Isso passa pela arbitragem, e a gente sabe que a arbitragem tem um fator importantíssimo para as instituições, e a gente espera uma filosofia diferente de arbitragem na CBF. E o terceiro ponto, que fez com que eu tivesse certeza da minha mudança, foi o aspecto familiar. Tenho um filho de nove anos, a minha esposa, que viveram comigo em Assunção. Eu adoro a cidade, sempre fui muito bem tratado, mas é longe de casa, longe dos meus pais. Eu quero estar mais perto deles. A família foi determinante.

É possível fazer um paralelo entre o desafio que o senhor teve seis anos atrás, quando assumiu essa função na Conmebol, e o desafio que terá a partir de agora?

Em alguns aspectos, sim. Em termos de pressão na arbitragem, eu acredito que sim. Agora, em termos de estrutura, a gente pegou uma Conmebol que tinha (somente) uma secretária. Depois de seis anos, a Conmebol tem um centro de referência de VAR e de treinamentos para os árbitros. Onde tinha um heliporto, hoje tem um campo. Em termos de estrutura, a CBF já implementou o VAR - aliás, foi pioneira entre todos os países sul-americanos - já tem uma estrutura centralizada para o VAR, já tem todo um trabalho, uma estrutura de departamento de arbitragem. Talvez a gente tenha que fazer mudanças; a gente está numa fase de avaliação, mas talvez a gente tenha que fazer mudanças. Outro fato similar é o que queria o presidente Alejandro Domínguez e o que quer o Ednaldo, que são coisas muito parecidas. Eles querem melhorar, estão abertos e vão confiar no trabalho. Vão dar respaldo, tempo e condições para que o trabalho se desenvolva.

O senhor foi árbitro por muitos anos, depois teve cargo de dirigente de árbitros na Conmebol, e sabe que as críticas dos cartolas sempre existiram. Nos últimos anos, porém, elas se acentuaram bastante. Pelo que o senhor observou, os dirigentes têm razão nas críticas que vêm sendo feitas à arbitragem brasileira?

É muito difícil… Na minha visão, muitas vezes, os dirigentes têm razão. Talvez a maneira e a exposição não sejam as ideais. Eu acredito que as pessoas possam elevar um pouco mais o nível de profissionalismo e buscar as instituições para resolver os problemas. Seria um caminho muito menos desgastante e mais inteligente. Eu penso que a gente não pode levar o futebol brasileiro a níveis de amadorismo, ao contrário, a gente tem que elevar o futebol brasileiro a se tornar cada vez mais profissional. A gente é aberto, sim, às críticas, e a gente sabe que os árbitros não são perfeitos. Mas vamos avaliar realmente o que são erros e o que não são. O que não pode é uma onda constante, como eu estava vendo aqui no Brasil - e eu via de fora - de queixas que às vezes não têm sentido esportivo. Às vezes têm muito mais sentido político do que qualquer outra coisa. Isso a gente não vai aceitar, eu não vou considerar. A gente vai precisar do apoio dos clubes. Esta gestão, que começou ontem (quinta-feira), não pode pagar pelo que fez até ontem. A gente vai trabalhar, não tenho dúvidas que a gente vai melhorar, mas ela não vai ser perfeita. Nenhuma categoria é perfeita. A gente costuma dizer que, para um clube ser campeão, ele tem que superar tudo, as lesões, os adversários, a covid, os erros dos árbitros - porque eles não erram só pra um. Não se pode transformar a arbitragem em um único ponto de queixa.

Na sua visão, a experiência do VAR no Brasil está sendo satisfatória?

Está sendo muito satisfatória. A gente confirma isso se a gente disser assim: “vamos fazer a próxima rodada sem VAR?”. O que será que o mundo do futebol vai achar disso? Eu acredito que as pessoas vão se sentir inseguras. O VAR dá muita segurança para o futebol É óbvio que ajustes, que pontos podem ser melhorados e modificados. Agora, não tenha dúvida nenhuma de que é um benefício muito grande. Os árbitros já estão adaptados, o meio já está, os jogadores já estão adaptados, o público já está entendendo melhor. A gente tem que seguir nisso. É óbvio, e isto está dentro do meu perfil, é que a gente não pode trabalhar em função do VAR…

Pois então, uma questão recorrente: há quem diga que o VAR tem servido como ‘muleta’, o auxilia demora a levantar a bandeira…

São detalhes, não são todos… Os assistentes são como jogadores, um árbitro é como um jogador. Tem jogador que joga melhor, e tem jogador que não joga tão bem. Mas um campeonato precisa dos dois jogadores; é impossível você ter um campeonato e um clube ter só jogadores que são muito bons. Vão ter os que são melhores, os que são mais ou menos e os que não são tão bons. É a mesma coisa na arbitragem. Então, eu não posso responder que os assistentes estão falhando, e em jogadas em que eles poderiam levantar a bandeirinha eles não estão levantando. Pode acontecer, sim, de alguns serem mais inseguros do que outros. O que a gente vai fazer é fortalecer esses árbitros para que eles não sejam tão inseguros, e escalar mais vezes os que estão seguros. Isto é muito importante. O jogador de futebol joga de acordo com o seu rendimento. E um árbitro deve estar escalado de acordo com o seu rendimento. Quanto mais próximo disso você chega, mais você eleva seu nível de justiça, e mais você obriga os árbitros a melhorar rodada a rodada.

E como será feita essa avaliação?

Isso já existe, essa é uma vantagem que a estrutura da CBF já tem. Já existe um processo de preparação, avaliação e retorno de como foi cada jogo. A gente está avaliando se precisa ajustar algumas coisas. Eu vou estar acompanhando os jogos, a Comissão de Arbitragem vai acompanhar os jogos. Não é algo que a comissão receba dados e vai para o próximo. A gente assiste jogo, se você não assistir jogo você não poderá fazer a função de presidente de Comissão de Arbitragem. Você tem que assistir muitos jogos, para você ser justo com os árbitros.

O senhor acredita que as imagens do VAR devem ser liberadas nos telões dos estádios?

Acho que deveria ser permitido, mas desde que cada estádio tenha a tecnologia suficiente para fazer isso.

Se for possível nos dez estádios da Série A, o senhor é a favor, se não puder, é contra.

Basicamente é isso. É lógico que tudo isso tem que passar por aprovações da Fifa, do Ifab. Isso são opiniões que a gente pode dar e que não são necessariamente algo que iremos fazer.

Vai ser assim no Brasileirão?

Não, no Brasileirão, não. Nos estádios não vai haver essa repetição. A gente pensa nas repetições depois dos jogos, apresentar um trabalho de transparência. A gente fez na Conmebol, e a Conmebol foi a primeira a fazer isso. A CBF implementou no fim do ano, e foi bom, está correto. Os áudios das revisões vão ser publicados, porque é transparência e é um direito da pessoa que pagou, do jogador que jogou entender porque o árbitro mudou ou não uma decisão.

Para finalizar: o Brasileirão começa neste final de semana. Como o senhor gostaria que a arbitragem fosse lembrada ao fim da 38ª rodada?

A gente gostaria que ela não fosse lembrada. A gente gostaria que os outros segmentos do futebol lembrassem dos gols bonitos, das jogadas maravilhosas, e que se falasse pouco da arbitragem. O grande objetivo dos árbitros é influenciar os resultados dos jogos o mínimo possível. Essa é a nossa busca.

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