Wilton Júnior/AE
Wilton Júnior/AE

Zagallo lembra a conquista do bicampeonato, no Chile, em 1962

Ex-jogador, ícone do futebol brasileiro, fala sobre a conquista da seleção, há 50 anos

Léo Maia, estadão.com.br

16 de junho de 2012 | 15h00

O Brasil chegou ao Chile como favorito. Não foi como em 1958, quando ninguém conhecia o Brasil, o time não tinha ganho nada ainda. E quando nós fomos para o Chile, fomos como campeões. Isso foi de grande importância porque praticamente nós jogamos com a mesma equipe. Jogou o Garrincha, que fez uma Copa maravilhosa. Infelizmente o Pelé se machucou contra a Checoslováquia. Mas nós estávamos confiantes pela vitória na Suécia e levamos o mesmo time.

Essa seleção jogou como jogou porque a condição física naquela época não era como na atualidade. Hoje é uma correria muito grande. O Nilton Santos tinha 37 anos, o Djalma (Santos) tinha 33, o Didi por aí também, eu estava com 31. Então muita gente não acreditava na seleção brasileira. Nós ganhamos aquela Copa na experiência. Essa é que é a realidade.

Houve a contusão do Pelé e, claro, você perder o melhor jogador do mundo era um grande desfalque. Não tenha dúvida, (foi um baque) você perder o Pelé... Nós sabíamos que ele ia fazer muita falta. Mas o mais importante nesse caso foi o Amarildo, que o substituiu e a camisa 10 não fez falta. Nós já jogávamos juntos no Botafogo. Tinha eu, o Garrincha, o Didi e o Nilton Santos. Jogadores com os quais ele já estava habituado a jogar. Ele não sentiu então. E fez uma Copa do Chile sensacional. O Garrincha foi considerado o que ganhou a Copa para o Brasil, vamos dizer assim, mas o Amarildo, na substituição do Pelé, foi de grande importância, foi melhor do que todos nós esperávamos. Fez uma senhora Copa.

O primeiro jogo foi contra o México e eu tive a felicidade de fazer o primeiro gol do Brasil na competição. Nós estávamos empatando em 0 a 0 e fiz um gol de cabeça aos 12 minutos do segundo tempo. Depois tivemos a felicidade de fazer o segundo e ganhamos a partida. Isso foi importante porque tínhamos uma equipe de mais idade, como disse. Depois tivemos a Checoslováquia pela frente, quando o Pelé se machucou. Acho que reverenciaram a contusão dele. Não vieram muito para cima da gente. E empatamos em 0 a 0 nesse segundo jogo da Copa. O Pelé ficou em campo, mas ele não podia... Mesmo assim ficou um atleta em cima dele, prestando atenção nele. Pensaram: “Sei lá se ele está machucado mesmo...”

A grande dificuldade foi quando o Pelé se machucou. Ali deu um susto. Quando o diagnóstico apontava para a virilha, a gente viu que ia ficar com 10 jogadores. Mas a Checoslováquia respeitou o futebol brasileiro, respeitou o fato de Pelé estar machucado, mesmo fazendo número em campo. Respeitaram tanto que pouco atacaram. Eles estavam satisfeitos de empatar com o Brasil.

Depois nós ganhamos da Espanha de 2 a 1, que foi um jogo dos mais difíceis. A Espanha fez 1 a 0 e nós viramos. Inclusive, participei da jogada do gol do Amarildo. Fui à linha de fundo, cruzei para trás e o Amarildo fez o gol. Ainda houve um pênalti, que o juiz não deu, contra o Brasil. O Nilton Santos deu um pulo para fora da área. Para nós foi excelente. Com isso nós fizemos o segundo gol.

Ganhamos depois da Inglaterra, 3 a 1. O Garrincha fez gol de tudo quanto foi jeito. Eu bati um córner e ele fez gol até de cabeça. Fez gol de perna esquerda. Foi a Copa do Mané. O que seria o jogo difícil, contra o Chile (4 a 2), nós saímos sempre na frente. No final, o Garrincha acabou sendo expulso por uma bobagem. O Garrincha não fazia falta em ninguém. Ele deu um peteleco em alguém e botaram o cara para fora. Naquele jogo o juiz... Se fomos favorecidos contra a Espanha, contra o Chile o Yamasaki (do Peru) queria de qualquer maneira derrubar o Brasil.

Chegamos à final contra a Checoslováquia de novo. Sofremos o primeiro gol e viramos a partida. No gol do Amarildo, bati o lateral e ele bateu pela ponta-esquerda, entre a trave e o goleiro. O goleiro saiu para cortar o lance. Nós ganhamos em outra jogada do Amarildo pela ponta-esquerda. Eu jogava mais atrás e o Amarildo caía por ali. Já era uma jogada do Botafogo. Ele fez um cruzamento para o Zito, que só escorou, deixou a bola bater na cabeça e entrar: 2 a 1. O terceiro veio de um chute do Djalma Santos, deu um balão para a área, com o sol o goleiro deixou escapulir e o Vavá fez o terceiro.

Foi a mesma festa que aconteceu conosco em 1958. A chegada aqui (no Rio), a chegada em São Paulo... Foi a mesma coisa. Nós já esperávamos. O povo todo na rua. A gente chegando ao Palácio do Catete, no Rio. Foi sensacional a repetição. Com isso proporcionamos um carnaval mais cedo, em junho. Foi uma alegria. Um fato interessante foi a decisão do (técnico) Aymoré (Moreira). Eu era o terceiro jogador (opção). Eu acabei na vaga dos dois. Estavam o Pepe e o Canhoteiro disputando a posição. A imprensa falava que eu era a terceira opção. Mas eu estava atuando de uma maneira totalmente diferente da deles. O Pepe jogava na frente, tinha um chute violento. E o Canhoteiro era driblador. E eu fazia uma dupla função. E isso foi de grande importância para mim. No primeiro amistoso antes da Copa nós ganhamos de 5 a 0 e eu fiz dois gols. Ali eu estava ganhando a posição. O Canhoteiro foi cortado e o Pepe continuou.

O Garrincha era sempre o mesmo. Na Copa de 1958, no Botafogo, na Copa de 1962, em Pau Grande, sua cidade. Ele era uma criança, era uma criança sempre. (Mesmo depois da contusão do Pelé) não mudou nada. Quem tinha de estar satisfeito éramos nós, que não tínhamos de jogar contra ele. Já tinha jogado contra ele quando eu era do Flamengo e ele do Botafogo. Nós sabíamos o que era jogar contra o Garrincha. Ali ele estava do nosso lado, fez uma grande campanha e foi considerado um dos melhores jogadores da Copa.

Outro fato interessante que aconteceu comigo foi que o Aymoré, em um coletivo entre um jogo e outro, não queria que eu passasse da intermediária defensiva. “Eu quero você mais para frente, Garrincha.” Mas eu vinha fazendo uma função dupla desde 1958. O que foi considerado até uma nova época no futebol brasileiro, uma nova tática, que foi a mudança do 4-2-4 para o 4-3-3. Mas eu só fazia assim no treino. Chegava no jogo e eu fazia a função dupla que tinha de fazer porque eu estava jogando dessa forma. Nós vínhamos de uma Copa do Mundo jogando assim. No quarto jogo ele chegou para mim e falou: “Zagallo, faz a função, pode voltar para defender sem problema nenhum.” Ele raciocinou que era melhor assim. Eu não fazia para contrariá-lo, mas já era o meu estilo.

Sobre o Amarildo, eu vou contar até um fato curioso. Eu saí do Flamengo para o Botafogo depois da Copa de 1958. E o Amarildo nessa época apareceu lá em General Severiano. Eu já o conhecia do Flamengo. Ele disse assim: “Eu briguei com o (técnico) Fleitas Solich e me mandaram embora.". Eu disse: "Então você não vai sair daqui não. Você vai fazer um contrato.”

Eu sabia que ele era uma promessa muito grande. Fez um contrato com o Botafogo e foi titular com o Garrincha, o Didi, o Nilton. Nós fazíamos as jogadas já combinadas. Ele abria, caía pela ponta-esquerda. Batia forte, bom drible. Mas o que foi bom para ele foi justamente esses jogos no Botafogo. Ele não sentiu absolutamente nada ao entrar na seleção (no lugar do Pelé). E ele se mostrou um jogador espetacular, superou tudo. A própria camisa 10, que era difícil de ser vestida, pesada mesmo, ele fez um papel que muita gente não pensava que fosse capaz. Aí que ele virou o “Possesso”. Depois que o Amarildo entrou dentro da equipe e se provou, a seleção ficou confiante, o próprio Amarildo também. Foi o verdadeiro Possesso, que era o apelido que nós sempre brincávamos com ele.

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