Dinamo Tbilisi
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Zagueiro que marcou Romário na final olímpica de 88 vendeu medalha em guerra

Gela Ketashvili ajudou o exército da Geórgia na guerra com a Abkházia

EFE

02 Outubro 2018 | 11h12

Há 30 anos, a União Soviética conquistava o ouro no futebol nos Jogos Olímpicos de Seul ao vencer o Brasil na final por 2 a 1. E poucas histórias se confundem melhor com a derrocada da então superpotência poucos anos depois daquela partida do que a do zagueiro que, em 1.º de outubro de 1988, levou a melhor em um confronto com ninguém menos que Romário.

Gela Ketashvili vivenciou a independência de sua Geórgia natal, a dissolução da URSS e pendurou as chuteiras antes dos 30 anos. Em 1992, ainda em atividade como jogador, deu sua prezada medalha de ouro para ajudar o exército de seu recém-nascido país na guerra com a separatista Abkházia, que deixou mais de 200 mil pessoas sem lar. "Era o bem mais valioso que eu tinha, não só pelo peso - 163,4 gramas de ouro maciço. Era uma medalha olímpica, que é a maior conquista para um atleta", afirmou o ex-zagueiro, de 53 anos, em entrevista à Agência EFE.

"Pensava que a medalha seria vendida em um leilão e, com o dinheiro, seriam compradas armas. Mas, quando quis saber o que tinha acontecido, me disseram que ela tinha desaparecido. Fiquei chocado", contou.

Em 1989, Ketashvili era o capitão do Dínamo Tbilisi, na época um dos times mais tradicionais da URSS. O zagueiro até teve a possibilidade de ir para alguns dos gigantes de Moscou ou Kiev, o que lhe daria boas chances de ser convocado pelo técnico Valeri Lobanovski para a Copa do Mundo de 1990. Mas as ameaças de nacionalistas georgianos de que os jogadores que "traíssem a pátria" sofreriam retaliações o obrigaram a mudar de planos.

E os ventos passaram a soprar desfavoravelmente. Em 1991, Ketashvili fez um gol contra na primeira partida do Dínamo no novo Campeonato Georgiano. Depois, explodiu a guerra contra a Abkházia, e o futebol passou a segundo plano.

Muitos jogadores acabaram se aposentando cedo. No caso de Ketashvili, aos 29 anos, em 1995. Ele chegou a virar guarda de trânsito, mas, em 2003, com a Revolução das Rosas comandada por Mikhail Saakashvili (que tirou do poder o então presidente do país, Eduard Shevardnadze), muitos agentes foram mandados embora no meio de uma campanha para acabar com a corrupção e as propinas.

"Durante vários anos, minha família esteve à beira do desespero. Por alguma razão, Saakashvili me via como um inimigo. Pode ser porque nunca escondi que apoiava a oposição", disse.

Somente em 2012, quando Saakashvili teve que deixar o poder e se exilar, o ex-astro do futebol georgiano conseguiue encontrar trabalho como vice-presidente da União de Jogadores Veteranos, que se dedica a promover o futebol no país.

A sorte voltou a sorrir. Um conhecido que trabalhava na alfândega informou a ele que a medalha de ouro tinha sido expropriada de um contrabandista que queria vendê-la na Turquia. A honraria olímpica acabou no Museu Estatal da Geórgia, e lá ficou até 2013, quando Ketashvili a recuperou após 21 anos de espera. "Agora a guardo em casa", contou.

Embora a vitória soviética sobre o Brasil em Seul - com gols de Dobrovolski e Savichev - não fosse tão esperada, já que do outro lado estavam estrelas em ascensão como Romário, Bebeto e Taffarel, o georgiano ressaltou que a URSS tinha bons jogadores. "Tínhamos uma grande equipe sob o comando de Anatoli Byshovets. Por exemplo, nosso goleiro, Dmitri Kharin, depois jogou no Chelsea. Alexei Mikhaylichenko, na Sampdoria. Na primeira fase, derrotamos Argentina e Estados Unidos, e empatamos com a Coreia do Sul. Depois, eliminamos Austrália e Itália", lembrou.

Ketashvili também destacou ter marcado grandes atacantes ao longo da carreira, como os franceses Jean-Pierre Papin e Éric Cantona, o alemão Jürgen Klinsmann e o espanhol Emilio Butragueño. Mas ninguém como Romário. "Era muito técnico e muito rápido. Se você se distraísse e o deixasse escapar, estava morto", disse o ex-zagueiro sobre o Baixinho, que foi o artilheiro do torneio olímpico, com sete gols.

Ketashvili afirmou ainda que a final contra o Brasil foi tão difícil que ele perdeu a noção do tempo e, logo que terminou o primeiro tempo da prorrogação, começou a festejar a vitória soviética. "Gritei: 'viva, somos campeões!' Então, nosso capitão, Viktor Losev, me disse: 'Gela, você ficou maluco? Ainda tem o segundo tempo!", disse, aos risos.

O georgiano disputou 11 jogos pela seleção olímpica soviética e três pela principal sob o comando de Lobanovski. Ele disse ainda ter contato com os antigos companheiros e conversado com alguns nos últimos dias, justamente para lembrar aquela vitória sobre o Brasil.

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