Zico: Nunca fui dependente de morfina

Um dia depois de confessar o medo de ficar dependente químico por causa da ingestão da substância analgésica conhecida por morfina, o craque Zico esclareceu o episódio e mostrou irritação com a repercussão distorcida de suas declarações. Na segunda-feira, no lançamento do filme Zico sobre a história de sua vida, ele disse que vivera um drama ao ser submetido a uma cirurgia no joelho esquerdo, nos Estados Unidos, após a Copa de 1986, ao precisar utilizar o medicamento para conter "as fortes dores". A partir disso, criou-se uma confusão a respeito da relação de Zico com a morfina. "Na primeira e segunda noite pós-cirurgia recebi uma dose de morfina, mas na terceira noite o médico proibiu", lembrou Zico, hoje à noite, após uma reunião de negócios no Centro de Futebol que leva seu nome, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste. "Disseram que eu fiquei dependente da droga; isso é um absurdo." Zico explicou que o drama vivido na época ocorreu na terceira noite, ao parar de ingerir a morfina. "Pela primeira vez senti que havia dois Zicos, o que pedia pelo amor de Deus uma nova dosagem. E, o outro, que apelava para a razão e repetia: eu não vou tomar morfina, não vou tomar, não vou tomar", contou o craque. Os médicos Abraham Fiszman e Neylor Lasmar, que realizaram cirurgias nos dois joelhos do craque da seleção brasileira divergiram hoje sobre o uso da morfina, que provoca dependência química, no ex-jogador. Ambos afirmaram desconhecer e não terem feito uso do medicamento, o que ocorreu somente na operação em 1986, nos Estados Unidos. Fiszman é ortopedista e foi o primeiro a submeter o jogador a uma intervenção cirúrgica. Na ocasião, após ter sofrido uma entrada desleal do zagueiro Márcio Nunes, do Bangu, em agosto de 1985, Zico sofreu uma entorse no joelho direito. Um mês depois, nova entorse, desta vez, no joelho esquerdo. "Realizei apenas uma artroscopia. Não havia necessidade de aplicar morfina, que é um medicamento muito forte para o tipo de intervenção que fizemos." Para Fiszman até a morfina teria sido dispensada na cirurgia no joelho esquerdo de Zico, após a Copa de 1986, em setembro, em Columbus, por James Andrew. O ortopedista brasileiro defendeu a tese de que "na época não se usava morfina para nada". Já o ex-médico da seleção Neylor Lasmar, que encaminhou Zico para os Estados Unidos, afirmou que este era um procedimento comun. "Em cirurgias deste porte, onde o paciente passa por diversas situações traumáticas, é comum utilizarmos medicamentos derivados de morfina", disse. "É claro que a dosagem não vai deixar o paciente viciado." Piquet - O ex-piloto Nélson Piquet viveu um episódio idêntico ao de Zico, após o acidente que sofreu durante os treinos para o GP de 500 milhas de Indianápolis, em 1992. Na ocasião, o campeão afirmou que a noite em que optou por não tomar morfina para se ver livre da droga foi a pior de sua vida. Saiba o que é e entenda como age a MorfinaEles são armas potentes contra a dor, mas também estão entre as substâncias que mais causam dependência química. São os medicamentos derivados de morfina, chamados de opióides. Essas substâncias têm indicações médicas específicas como controlar a dor em pacientes com queimaduras extensas ou em fase terminal de câncer.No Brasil, o acesso aos opióides é controlado. São identificados por tarja preta na embalagem e vendidos só com apresentação e retenção de receita médica especial.Além de amenizar dores fortes, os opióides dão sensação de prazer. ?Esse é um dos motivos pelos quais causam dependência?, diz o psiquiatra Cláudio Jerônimo da Silva, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ao proporcionar sensação de bem-estar, os opióides reforçam o desejo de mais uma dose.Com o tempo, o organismo desenvolve tolerância à substância. São necessárias quantidades cada vez maiores para que os mesmos efeitos sejam atingidos. ?É outro fator que faz dos opióides algo que causa dependência?, completa Silva.Há duas formas de dependência de opióides: uma delas é resultado do uso abusivo desses medicamentos, a outra é conseqüência do tratamento sob supervisão médica. Quando um tratamento com opióides está para ser encerrado, os médicos retiram o remédio do paciente aos poucos. ?Nesse processo, o paciente também enfrenta crises de abstinência?, diz André Malbergier, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.A abstinência é caracterizada pela redução da concentração da droga no sangue. Ansiedade, coriza, olhos lacrimejando, náuseas e diarréia são os sintomas da crise.

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