Zizinho: técnica era marca registrada

Morreu um craque destemido. Zizinho, o mestre Ziza, um jogador de futebol que podia dizer com orgulho de ser ídolo de Pelé. Como poucos, "o garoto de Niterói" marcou história no Flamengo, no Bangu, no São Paulo e na seleção brasileira além de ser a síntese de um futebol refinado aliado a uma rara valentia em campo. Zizinho, registrado com o nome de Thomaz Soares da Silva, nasceu em 14 de setembro de 1921 no Rio de Janeiro. Cresceu em Niterói e iniciou carreira como profissional no Flamengo, aos 18 anos. "Quando já estava pensando que era mais uma equipe em que nem ia entrar (já havia tentando uma vaga no América-RJ e no São Cristóvão, sem sucesso), o técnico Flávio Costa perguntou para mim: você é o garoto de Niterói? Entrei no lugar do Leônidas (da Silva), faltando 10 minutos. Foi o suficiente para marcar dois gols e ficar", relembrou o jogador em uma de suas últimas entrevistas para a Agência Estado. No Rubro-negro, o Zizinho ficou por mais de dez anos. Durante sua passagem, o Flamengo viveu grandes momentos, como o tricampeonato carioca de 1942, 43 e 44. Deixou o clube em 1951 e foi para o Bangu. O meia saiu magoado com a transferência, jurando nunca vestir a camisa rubro-negra. "Joguei duas vezes com a perna fraturada. Não merecia ser vendido sem ao menos ser avisado." O ressentimento aumentou com os anos. Em 1988, o jogador sentiu-se ofendido quando, após participar de uma homenagem a ex-jogadores recebeu a informação de um dirigente de que "poderia assistir à partida em um lugar atrás do gol". Depois de várias temporadas no Bangu, o jogador transferiu-se para o São Paulo. Seria o precursor dos "vovôs" vencedores do Tricolor. Aos 37 anos, ajudou a equipe a ser campeã paulista em 1957. Saiu do clube em 1958, magoado porque o clube, que lhe havia aplicado uma suspensão por uma saída noturna e não lhe defendeu das acusações da imprensa de que era freqüentador de "inferninhos" e não cuidava de sua forma física. Zizinho, no entanto, acabou fazendo as pazes com o clube que, segundo ele, lhe rendeu as maiores homenagens. Em seu livro de memórias admitiu que exagerou e pediu desculpas por ter abandonado o São Paulo quando o time tinha chance de ser bicampeão estadual. Na seleção brasileira, Zizinho teve carreira brilhante. Foi eleito o melhor jogador do campeonato Sul-Americano de 1949. No ano seguinte, em 1950, foi eleito o melhor jogador da Copa disputada no Brasil. No entanto, o feito foi ofuscado pela derrota para o Uruguai na final, o desastroso "Maracanazo" que lhe perseguiu pelo resto da vida. Pelé tentou compensá-lo do desgosto. "Quando eliminamos o Uruguai no Mundial de 70 vingamos a geração de Zizinho", disse o Rei do Futebol, que nunca deixou de reverenciar aquele que chamou de "mestre". Bateu, levou - Zizinho era conhecido tanto por seu futebol técnico quanto por sua valentia. Tinha uma receita peculiar para conter a violência dos beques: "Bateu em mim, sabia que teria troco. Poderia demorar 10 minutos, uma semana, dois meses, um ano, mas o troco era inevitável", contava o jogador. Para ele, futebol não era para medrosos. Fora de campo, Zizinho era conhecido por não levar desaforos. Em 1950, denunciou o fato de os jogadores terem sido utilizados para propaganda política às vésperas da decisão da Copa contra o Uruguai. Em uma época em que ao jogador não era permitido reclamar, não deixava de expressar suas críticas quando considerava-se injustiçado. Entre suas lembranças, guardou uma especial: o surgimento de Telê Santana como técnico. Zizinho lembra que o treinador da seleção nas Copas de 1982 e 1986 começou comandando o time de veteranos do qual fazia parte ao lado de Jair da Rosa Pinto, Barbosa e Nilton Santos. "Como o Telê era o mais novo da turma, não deixávamos ele jogar e mandávamos ele ser o nosso treinador." Zizinho jamais deixou de acompanhar o futebol brasileiro. Em suas últimas entrevistas, mostrava preocupação com o destino da seleção e deixou uma mensagem em defesa do futebol ofensivo: "O medo de perder está travando o jogo, travando o futebol. E nas disputas internacionais quem mais leva desvantagem com isso é quem tem talento. O brasileiro ainda é o craque mais talentoso. Só que, num futebol sem beleza, o talento perde sua força, perde a eficácia, não adianta nada. Estamos matando nossa grande vantagem. Na última Copa, chegamos a botar oito defendendo. É degradante. Só dois lá na frente, meu Deus."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.