15 minutos

Existem as partidas que um parágrafo basta para explicá-las e as que superam a dimensão de seus 90 minutos. Corinthians e São Paulo jogaram uma que se encaixa na lista dos grandes clássicos pela variação de intensidade e a troca de poder dentro de campo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2012 | 03h03

Ao final do confronto, o magnífico início corintiano era apenas uma fração da explicação sobre o que havia acontecido. Os primeiros 15 minutos expuseram as diferenças entre o campeão da Libertadores e uma equipe que trabalha pela reconstrução.

Com marcação equilibrada e pressão na saída de bola, o Corinthians empurrou o São Paulo para a área de Rogério Ceni. Paulinho, livre para subir ao ataque, era o símbolo da instabilidade impressa no time de Ney Franco.

O período de domínio total foi mal aproveitado pelos corintianos. O gol de Émerson era apenas uma pequena prova da superioridade, faltou pouco para o jogo terminar naquele início frenético.

A saída são-paulina estava em três jogadores: Lucas, Luis Fabiano e Rogério Ceni, psicologicamente em condições de fazer a diferença e imunes aos problemas táticos.

Mas era preciso arrumar a casa para encontrar um caminho e receber a bola lá na frente. Duas alterações de Ney Franco contribuíram para isso: a troca dos laterais, com Paulo Miranda passando a marcar Romarinho e Douglas de volta à posição original no setor direito, e a busca do volante Denílson por Paulinho.

Havia, enfim, um ambiente mais seguro para o time reagir. O Corinthians parecia tão senhor do jogo que perder gols não incomodava.

No segundo tempo, a confiança são-paulina crescia na proporção do esgotamento físico corintiano. Já sem Douglas e com Émerson como figurante, os campeões brasileiros não só cederam espaço como perceberam que um jogo dura mais que 15 minutos.

Luis Fabiano mostrou ainda saber, como poucos no futebol brasileiro, encarar o contra-ataque, o goleiro e o gol. E decidir. Essa vitória tem muito valor. O Tricolor aprendeu a superar os momentos adversos, soube manter-se estável emocionalmente no segundo tempo e agora precisa seguir em frente.

Carlos Alberto Parreira costuma usar um pensamento aprendido com o treinador alemão Sepp Herberger para definir o ideal de uma equipe de futebol: "atacar e defender com máxima eficiência". Simples, atual e de concretização complexa, o conceito ainda enfrenta barreiras no chamado futebol moderno, sobretudo no brasileiro.

Herberger, treinador já a partir dos anos 1930, campeão mundial com a Alemanha em 1954, usava o lema como mantra e o fazia funcionar. As diferenças residem na forma de aplicá-lo, na intensidade do jogo, que vai muito além de 15 minutos. Cabe a Ney Franco ensinar isso ao São Paulo. O clássico só terá validade se seus ensinamentos forem realmente absorvidos pelo grupo. Bem aproveitado, o jogo é um ponto de partida para o futuro da equipe no Campeonato Brasileiro.

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