40 anos atrás

Neste ano de 2010 o Brasil comemorou o 40.º aniversário da primeira vitória brasileira na Fórmula 1, e isso me levou de volta a Watkins Glen, nos Estados Unidos, junto com Emerson Fittipaldi. A ideia partiu do Zé Emílio e lá fomos nós - a produtora Ivy e os cinegrafistas Vinicius e Sherman - viver este reencontro do grande ídolo do esporte a motor brasileiro com o palco que deu início a esta bonita história que hoje acumula 101 vitórias e oito títulos mundiais.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2010 | 00h00

Aquela de 1970 foi apenas a primeira de todas essas conquistas. Algo que o próprio Emerson confessa inimaginável na época. Mas já era sonhado, como se pode ver no texto encontrado na edição da revista Autoesporte daquele mês de outubro de 70: "É a primeira de um brasileiro em provas do Campeonato Mundial de Pilotos, e temos a certeza de que não será a única, mas somente o início de uma série que esperamos seja longa." Longa, muito mais longa do que se poderia esperar de um país onde a indústria automobilística dava ainda seus primeiros passos.

Por mais uma incrível coincidência na vida deste homem predestinado, Watkins Glen está presente em três grandes momentos da carreira dele.

Ali ele conquistou não apenas a primeira vitória, mas também o bicampeonato mundial em 1974 e fez a corrida de despedida da F-1 em 1980. Na estrada a caminho do circuito, Emerson contou que, por causa do tráfego, no dia da corrida ele teve de andar na contramão os últimos três quilômetros. "Eu já não estava no meu normal, era a primeira vez que iria pilotar um Fórmula 1 na chuva e ainda tive febre de 40 graus. O Chapman foi ao meu quarto à noite com um médico para me aplicar uma injeção, passei uma noite terrível."

A Lotus apostava tudo naquele domingo, 4 de outubro. O piloto titular, Jochen Rindt, havia morrido duas corridas antes, em Monza. O outro piloto experiente, que era John Miles, decidiu abandonar a carreira.

Sobrou para um novato que só tinha feito três corridas na F-1 e um estreante, o sueco Reine Wisell, chamado naquela semana para montar a dupla. Mas a estrela, que acompanharia toda a carreira de Emerson, estava pronta para começar a brilhar. Largando em 3.º, pista molhada, excesso de cuidado, ele perdeu cinco posições. Quando ganhou confiança, passou John Surtees. Na sequência, tiveram problemas Jackie Oliver, Clay Regazzoni, Chris Amon, Jacky Ickx e Jackie Stewart. Faltando sete voltas, Pedro Rodriguez fez uma parada para reabastecimento. Emerson passou a líder e ainda teve tempo de ver Colin Chapman tirar o boné da cabeça e começar o movimento tradicional de jogá-lo para o alto: "Aquele era um gesto que eu via ele fazer com meus ídolos Clark, Hill, Rindt. Pensei: agora é comigo."

Visitamos também o pequeno museu da cidade, presidido por Peter Argetsinger, filho do criador do GP de Watkins Glen, Cameron Argetsinger. Era uma corrida disputada nas estradas da vizinhança em 1948 e, cinco anos depois, inaugurou o autódromo.

Depois, ainda fomos parar no Seneca Lodge, um hotel de chalés que hospedava os pilotos, e tem um bar com a parede de trás do balcão toda decorada com troféus, flâmulas, garrafas de champanhe usada em pódios e coroas de louros originais, que nem podem ser mexidas para não se quebrarem. Tudo ali lembra automobilismo. Fomos recebidos por Jack Brubaker, um simpático velhinho dono do bar, que se apressou em mostrar a coroa de louros da conquista do bicampeonato de Emerson em 74. Até o próprio Emerson olhou desconfiado, não se lembrava de como ela tinha ido parar lá. Ah é? Então o bom velhinho foi buscar numa gaveta uma velha fita VHS e mostrou a cena de Emerson subindo numa escada e pendurando a coroa na parede, pouco antes de tomar um banho de cerveja dos mecânicos da McLaren.

Eu ainda não conhecia de perto a F-1 em 1970. Mas estive em Watkins Glen outras vezes. Só que esta visita é, certamente, um dos grandes momentos vividos na minha carreira, que caminhou - ou melhor, correu - junto com a de Emerson.

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