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Os Jogos Rio-2016 ocuparam ontem espaço amplo e generoso em todos os meios de comunicação. A lembrança tinha justificativa: a folhinha indicava 500 dias para a largada do maior festival de esportes da Terra. E números redondos atraem, há muito viraram tradição como efemérides. Quantas vezes você já não viu análises sobre 100 dias de governo, 10 dias que abalaram o mundo, 50 anos de conquista tal, o centenário de nascimento de um artista, um político, uma descoberta. Bacana.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 Março 2015 | 02h06

Valia, portanto, carimbar a aproximação de evento portentoso de maneira especial. Faço hoje, com um dia de atraso. Logo de cara, aviso: não colocarei em dúvida o sucesso da empreitada. O Mundial de 2014 provou que o País sabe comportar-se como anfitrião. Inútil, portanto, apontar o dedo para atrasos nas obras, cobranças do Comitê Olímpico Internacional, ameaças, eventuais greves de operários. Na hora H, tudo estará pronto.

Igualmente será desperdício de papel e tinta dar ouvido às manifestações de grupos que sairão às ruas com cartazes do gênero "Não haverá Olimpíada". Haverá. Redundante também apontar gastos excessivos na preparação dos palcos e questionar qualidade e futuro deles assim que acabar a festa.

O roteiro é bem conhecido e indicará, meses depois, cobranças de órgãos públicos a respeito de custos extraordinários e desnecessários. Aí Inês não estará no trono, mas morta, enterrada e esquecida. Quem teria de ganhar já estará com bolsos cheios e adeus a todos.

O que desencanta é a sensação de que passarão os Jogos sem que a pátria amada vire potência olímpica. Não venham com conversa de que se projeta número recorde de medalhas e ficaremos entre os dez melhores no ranking. Usual que o organizador se destaque. No caso brasileiro, há investimento em atletas e categoria com indiscutível potencial vencedor. Esses são cuidados a pão de ló, geleia real e verbas. Ainda assim, como não se pode controlar o imponderável, não se deve descartar o risco de algumas decepções.

Atormenta o espírito saber que se deixa escapar oportunidade única para disseminar o gosto e a prática de modalidades que fujam aos costumeiros futebol, natação, vôlei, basquete, atletismo, judô, handebol. E, mesmo estes, com dificuldade para quem deseja aprimorar-se. Se o interesse fosse usar o esporte como extensão da educação, base para a saúde, componente decisivo para integração social e cidadania, desde outubro de 2009 - quando o Brasil foi escolhido sede - teríamos febre de quadras, pistas, piscinas, ginásios a espalhar-se por todo canto, com milhares de crianças e jovens a divertir-se e a competir.

Onde estão as revelações em massa? Quantas cidades têm centros esportivos? Quantos clubes investem pesado? Quantas universidades dão condições para os alunos treinarem? Aliás, que fim levaram desafios como Jogos Universitários, Mac-Med, Pauli-Poli? Alguém liga pros Jogos Abertos do Interior? Que espaço os esportes têm regularmente na mídia? (Exceto o futebol, e com crescente interesse na bola que rola na Europa...)

O Brasil ganhar 10, 12, 15 medalhas de ouro importa pouco. A quantidade será usada como propaganda e justificativa para quem manejou bilhões de reais. O COB e o Ministério do Esporte conhecem o lado glamouroso do esporte e estão distantes da realidade nacional, aquela profunda, do dia a dia. E assim continuarão, tão logo se fecharem as cortinas da XXXI Olimpíada da Era Moderna, no dia 21 de agosto de 2016.

Desafio. Palmeiras e São Paulo estarão sob teste, hoje à noite. Ambos ainda não conquistaram a confiança do torcedor e terão colocado à prova o estágio de preparação. Os palestrinos têm como pedra no sapato a falta de vitórias em clássicos - de fato, de que adianta bater em pequenos se a decisão será contra grandes? Os tricolores procuram regularidade que os leve adiante não só no Estadual, também na Libertadores.

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