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Paulo Calçade
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5 anos contra 5 meses

Seria uma bobagem dizer que o título da Copa das Confederações não tem importância. A história da competição, entretanto, deixa claro que vencê-la não é o capítulo mais importante da preparação para o Mundial. Campeã nos dois últimos ensaios, a seleção fracassou na hora do show.

PAULO CALÇADE,

29 de junho de 2013 | 02h15

Foi da confiança à frustração no momento de firmar suas convicções e de fazer ajustes. É o que interessa agora, aferir a evolução da equipe nos cinco meses de trabalho de campo de Luiz Felipe Scolari contra os cinco anos de Vicente Del Bosque.

A decisão do Maracanã atinge espanhóis e brasileiros de formas bem distintas. Para quem atravessa o ciclo mais vitorioso de sua trajetória, com duas Eurocopas e um Mundial enfileirados, ainda falta confrontar-se com o maior de todos. A vitória seria uma espécie de referendo das conquistas anteriores.

O título, desta vez, não iludiria o Brasil. Felipão e Parreira certamente não permitiriam que a soberba tomasse o lugar da confiança, esta sim valiosíssima para o desenvolvimento de uma certa identidade em apenas 30 dias.

Com 45 jogos oficiais na bagagem, Del Bosque tem controle absoluto sobre o manejo tático do grupo, facilitado pela quantidade de jogadores do Barcelona, do qual tomou o estilo emprestado. Caso vença, o triunfo avalizará o trabalho e servirá de motivação para a Copa.

Em cinco anos, o treinador melhorou a campeã europeia de 2008 e a conduziu ao título Mundial de 2010, na África do Sul. Sem diminuir a sua importância no cargo, a primeira missão era não estragar o que havia sido realizado por Luis Aragonés. Era o ponto de partida.

Do outro lado da prancheta está Felipão e seu pouco tempo de labuta no campo. São apenas quatro partidas oficiais, desde que retomou o comando, contra 45 do espanhol. E ainda se discute se a seleção evoluiu ou não. Não dá para comparar. Com qualquer resultado, o torneio foi muito útil.

Derrotar os campeões mundiais não é impossível, como a derrota também não é uma tragédia, faz parte do horizonte de quem ainda está se arrumando para a festa.

Um dos pontos mais interessantes do jogo é observar o comportamento contra uma geração que diz ter buscado inspiração no futebol brasileiro, na paixão pela bola e no apreço pelo passe. Além da paciência e da troca de ritmo que os europeus sempre detestaram.

Na semi, enquanto o Uruguai dividiu o time de Felipão ao meio e travou a rota para o ataque, foi um sofrimento. A Espanha deverá fazer o mesmo, embora não tenha ideia de quanto tempo suportará a missão. Com um dia a menos de recuperação, e os efeitos do calor e da prorrogação ainda nos músculos, a vitalidade para pressionar a saída de bola seguramente ficou comprometida.

Del Bosque não surpreenderá se trocar Fernando Torres, o centroavante, por um jogador a mais no meio de campo. O confronto está, como sempre, condicionado ao setor.

Depois de enfrentar a Espanha e quase vencê-la, muita gente viu no 3-4-2-1 mutante da Azzurra um modelo a ser adotado pelo Brasil. Sem a bola havia cinco jogadores na última linha, um eficaz 5-4-1. Não é por aí, não é copiando outra cultura que Felipão vai desenvolver a sua concepção de equipe.

Alguns valores de Cesare Prandelli, entretanto, podem servir de inspiração. Principalmente os que agregam conteúdo a qualquer sistema, como a marcação no campo de ataque e a aplicação tática, que tanto incomodaram a Espanha.

Somente essa dedicação será capaz de dificultar o fluxo de passes, a circulação da bola incrementada por Xavi e Iniesta. Promover alterações profundas naquilo que começa a dar certo apenas serviria para confundir os jogadores. No momento é melhor perder tendo um caminho do que vencer sem construir nada.

A Espanha, pelo nível alcançado, até pode se modificar. O Brasil ainda precisa estabelecer um caminho e acreditar nele. É atrás disso que está Scolari. Com respeito, sem temor, convicto de que ganhará os meninos na conversa. Vai que cola.

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