50 anos do Bi

Seleção Brasileira se consagra no Chile com a conquista do segundo Mundial após quatro anos do primeiro título na Suécia

LUIZ ANTÔNIO PRÓSPERI, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h06

O Chile ainda estava de luto em 1962, assolado por um terrível terremoto - 9,5 graus na escala Richter - que deixou cerca de 6 mil mortos e 2 milhões de feridos e um rastro de destruição por todo o país, em 1960. A Copa do Mundo corria risco de ser transferida para outra sede quando Carlos Dittborn, presidente da Federação Chilena de Futebol, convocou o comando da Fifa e com uma frase convenceu os dirigentes de que tirar o Mundial do país seria uma outra tragédia. "Temos de ter a Copa porque não temos nada." A frase virou como um mantra para os chilenos que arregaçaram as mangas e construíram três estádios em tempo recorde em Viña del Mar, Arica e Santiago. O Mundial estava garantido.

No dia 21 de maio de 1962, nas asas da Panair Brasil DC7CPP-PDO, a delegação brasileira embarcou para Santiago com 22 jogadores e 20 dirigentes e membros da comissão técnica. Antes de aterrissar em solo chileno, fez uma escala em Brasília para a despedida oficial em um evento na Granja do Torto com o presidente da República João Goulart.

No desembarque da seleção brasileira no Aeroporto de Santiago, fotógrafos e repórteres correram para registrar a chegada dos campeões mundiais de 1958. Era praticamente o mesmo grupo que havia conquistado a Copa na Suécia, apenas um pouco mais velho. Sete dos 11 titulares tinham mais de 30 anos. A organização da seleção era a mesma. Paulo Machado de Carvalho, o "Marechal da Vitória" de 58, chefiava a delegação com a maioria dos assessores de quatro anos atrás.

Evidente que Pelé era a maior aposta do Brasil. O menino que havia encantado o mundo aos 17 anos agora estava com 21 e pronto para conduzir o time ao bi. Todos queriam ver Pelé.

A seleção havia mudado pouco de 58 para 62. Na zaga saíram Bellini e Orlando e entraram Mauro e Zózimo. No ataque, Coutinho e Pepe, que chegaram como titulares, se machucaram e deram lugar a Vavá e Zagallo. E no comando estava o técnico Aymoré Moreira, que herdou o posto de Feola, afastado há dois anos por problemas de saúde.

O desafio do Brasil era alcançar a marca do Uruguai e da Itália, donos de dois títulos cada e potências do futebol. A epopeia começou por Viña del Mar na estreia diante do México. O Brasil abriu o jogo com Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo. E venceu por 2 a 0, gols de Zagallo e Pelé, para um público de 10.848 pagantes.

A boa exibição da seleção meteu medo nos adversários. Os campeões do mundo estavam mais fortes, apesar de mais velhos. Pelé voava.

Golpe duro. No segundo jogo, o susto. Ainda no primeiro tempo, Pelé sofreu uma lesão na virilha após um chute ao gol. Como não eram permitidas as substituições, o Rei se arrastou pelo campo até o final. O empate em 0 a 0 com a então Checoslováquia, para 14.903 pagantes, em Viña del Mar, acabou sendo um ótimo resultado. Mas e agora sem Pelé?

A contusão era séria e o craque estava fora da Copa. Alguém precisava assumir a seleção. E aí apareceram Amarildo e Garrincha. No terceiro jogo, ainda em Viña del Mar, com público de 18.715, a seleção não jogou bem, mas derrotou a Espanha por 2 a 1, dois gols de Amarildo, o último aos 41 minutos em cruzamento de Garrincha.

No quarto jogo, Garrincha barbarizou. Contra a Inglaterra, o genial ponteiro de pernas tortas fez dois gols e Vavá, um, na vitória por 3 a 1, para um público de 17.736, em Viña del Mar.

O próximo desafio seria complicado. O Chile, empurrado por 76.500 torcedores no Estádio Nacional, poderia acabar com o sonho do bi. Então Garrincha fez a diferença. Fez dois gols no primeiro tempo. Vavá fez outros dois no segundo e o Brasil venceu por 4 a 2. Cansado de apanhar, Garrincha revidou um pontapé e foi expulso. Ficaria fora da final da Copa. Os cartolas brasileiros conseguiram reverter a situação na Fifa e garantiram a escalação do craque na final diante da Checoslováquia.

Há exatos 50 anos, no dia 17 de junho, a seleção brasileira vencia os checos por 3 a 1, depois de sair perdendo, com belos gols de Amarildo, Zito e Vavá, no Estádio Nacional de Santiago com público de 69 mil torcedores. Brasil bicampeão do mundo.

Na volta para casa, os jogadores foram recebidos por cerca de 2 milhões de pessoas no Rio de Janeiro. Os "novos velhos" heróis desfilaram em carro aberto com a taça Jules Rimet diante da multidão inebriada. A festa se alastrou pelo País afora em um verdadeiro carnaval fora de época. Quando acabou o desfile, por volta das 23h30, no dia 18 de junho, Garrincha ganhou do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, um mainá - ave que é capaz de imitar vozes de outras aves e até palavras. Feliz da vida, o craque foi cuidar do seu pássaro. Nem sabia que o futebol mundial havia se rendido ao seu enorme talento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.