A África do Sul também tem seus peladeiros

No subúrbio de Johannesburgo, domingo é dia de ir a campo defender as cores de cada comunidade

Sílvio Barsetti, Luiz Antônio Prosperi e Roberto Pontes Lima, JOHANNESBURGO, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Mais de 300 pessoas deixaram seus barracos de zinco ou de papelão, alguns remendados com arame farpado e plástico, para assistir, ontem, à vitória, nos pênaltis, do Stone Brakers sobre o SuperSports (4 a 3), na Favela R512 do distrito de Diepsloot, norte de Johannesburgo. Um trecho de terra batida e capim queimado entre duas balizas tortas marcava o campinho de várzea, local em que o time da casa se classificou para a final do torneio de futebol promovido por líderes comunitários da região. Também na África do Sul, domingo é dia de pelada.Houve empate no tempo normal, 0 a 0, e o árbitro, escolhido minutos antes da partida, ali mesmo entre os moradores da R512, nem foi contestado pela equipe do SuperSports. O capitão do Stone Brakers, William Mafichi, um jovem franzino de 24 anos, exerceu com orgulho o papel de único atleta autorizado pelo técnico do time, Dolphus Mbengeni, a falar com a reportagem do Estado. Ele não tem emprego formal e vive de serviços temporários - às vezes como guia de turistas em safaris. "Jogar futebol é nossa alegria. Vocês conhecem Kaká, Luís Fabiano e Robinho? Sério mesmo?" Mafichi olha para os lados, sem conter o sorriso, e conta a novidade em zulu (um dos idiomas sul-africanos) para os colegas. A senha de boas-vindas está estampada na expressão de alegria de cada um deles.Shantle, o goleiro que defendeu o pênalti decisivo, é quem chama seus amigos para a "foto oficial" do time finalista. Minutos antes, ele levantou o dedo indicador, um gesto comum entre jogadores de futebol, e atribuiu a Deus a façanha de ser o responsável pela vitória do Stone Brakers. O novo herói da R512 é outro que passa por dificuldades. Está desempregado. Mas, ontem, pouco depois do meio-dia, não seria aconselhável chegar perto dele para falar sobre mazelas sociais. Shantle era a felicidade em azul e branco - as cores do seu time.A partida acabou e os derrotados já estão na caminhonete que os levará de volta para outra favela de Diepsloot. Nada de revolta com o resultado. A um aviso de Shantle, eles descem do veículo para uma homenagem apoiada pelos anfitriães - vão também posar para fotos. Um deles quer saber se Ronaldo, Adriano e Ronaldinho Gaúcho estarão na Copa do Mundo do ano que vem. "Não sabemos, isso é com o Dunga."Não satisfeito, o rapaz questiona sobre a ausência do zagueiro Júnior Baiano na seleção. Ele se sente à vontade ao falar de futebol brasileiro e diz conhecer, de nome, clubes como Corinthians, Santos e Flamengo. Fica lisonjeado ao receber a informação de que na Vila Belmiro surge uma outra promessa de craque. "Nemá? Neymá? Como se diz?" O aprendizado é rápido e ele repete para os amigos. "Neymar, do Santos." O motorista contratado pela reportagem, Chris Matsika, age como intérprete para os dois lados e explica o motivo da presença inusitada de quatro brasileiros com câmeras fotográficas, blocos e canetas. A maioria ali mora nos barracos, ao fundo do campo, não dispõe de água potável, esgoto e luz, e faz do futebol dominical a atividade mais esperada da semana.O capitão William Mafichi pede calma aos que chegam da R512 e interrompem a entrevista. Não existe hostilidade e as aparências, nesse caso, não enganam. Mafichi toma a liberdade de escrever numa folha de bloco toda a escalação do time e dá o tom de humildade que parece caracterizar aquelas pessoas. "Será que (esses nomes) podem sair no jornal?"Outros jogadores do time vitorioso entram na pequena roda de conversa para conferir a grafia. Depois, correm falando alto, com as mãos para cima, saltam e comemoram. "Meu nome está lá!", "É o meu nome!"Naquele ambiente à margem de tudo, incluindo uma rodovia que cruza Johannesburgo, um jogo de 90 minutos entre duas "seleções" locais é tão importante quanto um Brasil x Itália. Assistir à partida que seria disputada horas depois em Pretória, pela Copa das Confederações, poderia ser o complemento perfeito para os finalistas do torneio em Diepsloot.Privilégio, no entanto, restrito a alguns poucos moradores da R512. Como não há energia elétrica, pode-se contar nos dedos quem possui um aparelho de TV, movido a bateria, no meio de tantos barracos.A Favela R512 tem cerca de 15 mil pessoas e seus personagens são, em geral, desempregados dos subúrbios de Johannesburgo. Numa volta de carro por ruas estreitas e esburacadas da comunidade, a reportagem se deparou com um grupo que bebia e jogava cartas atrás de um cercado. A reação de surpresa de homens fortes, desconfiados e interrogativos logo se transforma. "São brasileiros", anuncia Chris Matsika."Que coisa boa", devolve um morador. Crianças descalças surgem para ver o táxi amarelo e seus ocupantes. Acenam, pulam, dizem os seus nomes e ajudam a compor aquele cenário em que nem sempre a miséria se sobrepõe à esperança.Alguns metros à frente, uma mulher com um penteado elegante e vistoso deixa seu casebre e se aproxima do motorista para também tirar a dúvida. "Muito obrigada por virem à minha rua", diz ela. "Nós é que agradecemos." Em tempo, o Stone Brakers venceu o SuperSports com Shantle; Mashudu, Chilota, Bramco e Tiza; William Mafichi, Moss, Givem e Droyba; Scara e Khotso.FRASESWilliam Mafichicapitão do Stone Brakers"Jogar futebol é nossa alegria""Vocês conhecem Kaká, Luís Fabiano e Robinho? Sério mesmo?" (pergunta o jogador aos repórteres do Estado - a notícia foi traduzida em dialeto zulu para o restante dos jogadores, que fizeram festa)Shantlegoleiro do Stone Brakers"Nemá? Neymá? Como se diz? Neymar do Santos" (se esforçando para aprender como se pronuncia corretamente o nome da nova revelação santista)

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