A arte de esconder

Vejo as listas dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro, cujo primeiro turno termina com rodada de dérbis no próximo domingo, e tenho reações mistas. Por um lado, há zagueiros, laterais e volantes sem nada especial e, de novo, a presença de um argentino com a camisa 10, Montillo, do Cruzeiro. Por outro, podemos comemorar a fase de Ronaldinho, até aqui o melhor do campeonato e não só pelos dez gols; a volta de Neymar à sequência de boas atuações, apesar da posição do Santos na tabela; e a consolidação de alguns jovens, como Oscar, parceiro de Leandro Damião no Internacional e que acaba de fazer ótimo Mundial Sub-20 - cuja estrela foi Henrique, do São Paulo, que deve ter mais chances em breve ao lado de Dagoberto, Rivaldo e Lucas. Mas, depois de ter visto os jogos do fim de semana, a primeira reação ainda predomina: se não fossem por alguns jogadores e alguns lances, a modorra seria mortal.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

Essa nossa ansiedade de não fazer feio em mais uma Copa, sobretudo numa que será "em casa" (e o fantasma da derrota para o Uruguai no Maracanã em 1950 ainda parece assombrar muita gente, mesmo que não tenha estado lá), leva a distorções. Passamos a depositar esperanças demais nesses nomes jovens e, em consequência, os criticamos demais quando falham. Então vamos tirar 2014 um pouco do foco - a não ser para vigiar o andamento das obras e da infraestrutura em geral - e não ficar imaginando desde já quem vai brilhar daqui a três anos. O que escutei e li de pessoas animadas com a vitória no Sub-20, quase como se dissessem "Que Ganso e Pato o quê, vamos apostar em Oscar e Henrique", foi de espantar.

O raciocínio deveria valer para pensar sobre a convocação de Ronaldinho por Mano Menezes, por exemplo. Não há quase ninguém nos gramados brasileiros jogando o que ele está jogando no momento, então faz sentido que vá para a seleção ajudar com sua experiência no amadurecimento da nova geração, papel que Robinho não sabe fazer. Mas é ingênuo pensar que Ronaldinho vá brilhar em 2014, quando mesmo em seu auge em 2006 - depois de dois anos formidáveis no Barcelona - não conseguiu, a tal ponto que nem sequer foi para a Copa de 2010. Seu retorno para a seleção, portanto, tem de ser visto como necessário e transitório (sem abdicar da hipótese de que ele mantenha o nível por mais três anos), não como a chegada do salvador da pátria, da "referência" decisiva. É preciso dar tempo e condições para que Neymar, Lucas, Ganso, Damião - que deveria ter ido para a Copa América no lugar de Fred - e principalmente um Oscar ou um Henrique venham a formar juntos uma equipe vitoriosa, bem acima dessa que levou valsa dos alemães.

Voltando ao Brasileirão, o que aflige é ver clássicos sendo jogados à base de trombadas e lambanças. Não apenas os belos lances como a bicicleta de Damião fazem falta; faz ainda mais falta uma qualidade média, uma competência básica, que torne ao menos os jogos menos desagradáveis, mais fluentes. Notei outro dia que os jogadores já não executam atos banais de uma partida de futebol. No espaço de alguns minutos do empate entre Palmeiras e São Paulo vi a mesma situação: um jogador com a bola no pé diante da marcação, esperando um colega se apresentar para recebê-la na frente, em diagonal. Em ambos os casos o sujeito virou o corpo em direção ao espaço onde queria ver o colega passar, e de uma forma que até o mais tolo dos marcadores perceberia sua intenção. É o que se chama "telegrafar" a jogada. O colega veio, mas aí o passe foi cortado...

Dizem que a carência de criatividade no futebol brasileiro é causada pela onda das "escolinhas" e das etapas de base, em que os treinadores se preocupam em dar funções táticas e impedem as liberdades individuais. Mas, se isso for verdade, não está funcionando: nem as funções são cumpridas nem os fundamentos dominados. O time vencedor tende, assim, a ser o que perde menos bola, o que erra menos, e não o que tem mais a bola e acerta mais o gol. Craques são jogadores de exceção, por definição, mas cadê os bons jogadores, aqueles que saibam ao menos esconder do adversário suas intenções mais singelas?

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