A ascensão dos bobos

A segunda rodada não ajudou a esclarecer muitas coisas a respeito desta Copa. A França entrou numa crise digna da queda da Bastilha e faz hoje com a África do Sul o jogo dos desesperados. A Alemanha, que tinha iniciado bem, perdeu para a Sérvia. A Inglaterra, da qual se esperava muito mais, acumulou mais um empate modorrento. A Itália também somou apenas dois pontos e corre risco de não se classificar. A Espanha reagiu, mas ainda precisa enfrentar o líder de seu grupo, o Chile. Ainda é cedo para dizer que esta Copa teve mais zebras do que normal, mas o safári não terminou. E os juízes pioraram em relação à primeira rodada.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2010 | 00h00

De todas as seleções, apenas Argentina, Holanda, Brasil e Chile fizeram seis pontos. A Holanda tampouco está no padrão imaginado. A Argentina é a única que fez dois jogos em alto nível técnico, sob comando de Messi. O Brasil não goleou, mas superou a estreia medíocre com uma vitória sólida sobre a Costa do Marfim, na qual seus atacantes voltaram a usar os recursos pelos quais a seleção se tornou uma referência. Mas pelo menos o dia de ontem veio com mais algumas amostras de bom futebol.

Primeiro foi Portugal, que meteu nada menos que sete gols na Coreia do Norte, aquela mesma que os brasileiros disseram ser difícil de furar. Os brasileiros Deco, Liédson e Pepe não foram titulares. Tiago foi o destaque do jogo na armação e fez dois gols; Raul Meirelles também se destacou. Mas a Fifa, para variar, preferiu escolher como melhor do jogo o mais aplaudido, Cristiano Ronaldo, que fez boas jogadas e marcou o seu, mas parece às vezes sofrer um pouco da síndrome de Ronaldinho Gaúcho: fica no canto esquerdo esperando a bola chegar ao pé para que faça sua jogada individual; não marca nem desata, não joga sem bola.

De tarde o Chile mostrou mais uma vez a vantagem da criatividade sul-americana e bateu a Suíça por 1 a 0. À noite, apesar do adversário fraco, Honduras, a Espanha finalmente mostrou seu toque de bola e Villa foi o matador que mais uma vez Fernando Torres falhou em ser.

Há muita gente justificando a sensaboria desta Copa pela melhora das seleções pequenas, graças ao êxodo de jogadores para a Europa. De novo se está dizendo que "não há mais bobos no futebol". Bem, eu acho que o número de bobos nunca foi tão alto. Táticas defensivas e preparo físico melhoraram, mas o que tem nivelado é a carência de craques.

Por sinal, foi divertido ler no site da CBF que "Dunga estimula, e muito, os jogadores a exercitarem a sua criatividade, que sejam ousados dentro de campo e tentem os dribles sempre que julgarem necessário" ? o que significa que Dunga concorda que até domingo isso não vinha ocorrendo. Quanto à sua falta de educação com a imprensa, li que teria reclamado porque pediram a saída de Luís Fabiano ou Kaká. Eu nunca pedi, mas me solidarizo até a morte com os jornalistas ofendidos por Dunga em espaço público, pois a liberdade de opinião é o maior dos troféus.

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