A aula de Nadine

Pensei, nesta semana, em abordar o pobre futebol do São Paulo nas últimas rodadas, apesar da vitória de anteontem e a falta de ousadia de Adilson Batista. Ou a mediocridade do atual time do Palmeiras, que corre, luta, se esforça, mas sofre para executar o detalhe mais importante do jogo: o gol (coitado do Felipão!). No fim, em vez de dar motivos para aumentar a irritação de são-paulinos e palmeirenses, mudei de ideia e resolvi escrever sobre algo mais agradável.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Hoje uso este espaço para "homenagear" Nadine Schramm Câmara Bastos. O leitor sabe quem é? É dentista e tem 28 anos de idade. Formou-se na Universidade do Vale do Itajaí, de Santa Catarina, seu estado natal, e fez especialização em periodontia. É loira de olhos claros, bonita e adota tom sisudo enquanto trabalha.

Você deve me perguntar: o que a jovem faz numa coluna esportiva? Além de dentista, Nadine é bandeirinha (ou assistente de arbitragem, como se convencionou dizer) desde 2007. E tem futuro promissor se mantiver os pés no chão e não se deixar levar por uma eventual fama repentina e passageira, que acabou em tão pouco tempo com a carreira de Ana Paula Oliveira. "A Ana Paula escolheu um foco diferente, eu quero ser reconhecida apenas pelo trabalho", garantiu-me, num intervalo de suas consultas. "Uns podem me achar bonita, outros não." Ah, ela alerta os jogadores: "Tenho namorado".

Não vou aqui falar dela por causa de seus traços sutis. Mas pela aula do último domingo no jogão entre Bahia e Santos, em Pituaçu. A referência se estende aos bons juízes e auxiliares, que só aparecem nas TVs e nos jornais ou são comentados no rádio quando cometem erros. O atacante perde três oportunidades e faz um gol... Vira herói. O meia erra dez passes e dá um que resulta em gol... É gênio. O árbitro acerta 400 marcações e assinala um pênalti que não houve, num lance difícil... Torna-se "ladrão".

Nadine praticamente só foi lembrada durante a transmissão do canal SporTV, que exibiu o confronto. Depois, voltou a ser anônima. Não tenho a ambição de mudar as coisas no futebol nem a pretensão de tentar "desfazer injustiças". Menos ainda de dizer que nossa arbitragem é excelente, porque não é, embora o público (e me incluo nele) cobre algo que o juiz nunca poderá dar sem câmeras, replays ou computadores: a perfeição. Quero apenas destacar sua atuação impecável e exemplar numa partida que lhe ocasionou enormes dificuldades. "Sem dúvida, foi o jogo mais difícil de que participei, mas mantive o foco e fiquei alheia ao barulho do estádio." É preciso ressaltar: o trabalho do juiz mineiro Ricardo Marques Ribeiro também foi bom.

Para quem não teve a sorte de assistir ao emocionante embate, segue um resumo. O primeiro momento capital em que ela apareceu foi numa finalização de Júnior, do Bahia, para a rede, depois de rebote do goleiro santista Rafael. A distância era pequena, mas o atacante estava impedido. Ela levantou a bandeira sem vacilar, com correção, e não se intimidou com a forte pressão do estádio lotado - o Santos vencia por 1 a 0.

Ainda no primeiro tempo, novo rebote de Rafael e gol de Júnior. Dessa vez, mesma linha do penúltimo jogador do Santos. A catarinense não hesitou e correu para o meio, apesar da rapidez do lance e da chiadeira da zaga paulista.

No fim, o último grande teste. Bate-rebate depois de um escanteio, a bola sobrou para Alan Kardec marcar. Havia dois de seus companheiros em posição de impedimento. Nenhum deles, no entanto, teve influência na jogada. Kardec estava legal: 2 a 1 Santos e novo acerto de Nadine.

Se houvesse se equivocado em uma dessas ocasiões ingratas, certamente não teria sido esquecida por Muricy, Neymar, Carlos Alberto, René Simões... Como teve desempenho irrepreensível, foi ignorada, a exemplo do que ocorre frequentemente com seus colegas. Como o bom futebol se deve também às boas arbitragens, não custa lembrar de vez em quando que os homens (e, cada vez mais, mulheres) do apito, mesmo muito criticados, ajudam a fazer o espetáculo.

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