A banalização do choro

Lágrimas em público se tornaram um espetáculo constante hoje em dia. Todo mundo chora. Crianças, homens e mulheres. E quem chora parece invadido de imensa satisfação em mostrar lágrimas correndo pelas faces. O choro escondido não existe mais, as pessoas que escondiam o rosto entre as mãos para de alguma forma protegerem um ato tão íntimo, devem estar, como eu, perplexas.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2010 | 00h00

O que há é uma exposição deliberada do ato de chorar, as lágrimas são mostradas abertamente como um feito, como uma façanha, como algo a ser ostensivamente revelado. Talvez os atores de televisão tenham contribuído muito para essa vulgarização do choro. Há uma convicção entre o público de que chorar deve ser algo muito difícil para um ator. Os atores, geralmente os piores, sabendo disso, fazem questão de, chorando copiosamante por qualquer motivo, ostentar esse verdadeiro atestado de grande talento e técnica.

As lágrimas correndo em close funcionam como passaporte para um degrau mais alto da carreira. Essa mania entrou, claro, no futebol e as lágrimas viraram artigo de todo dia. Vai longe a foto de Danilo ainda em pleno gramado chorando depois da derrota de 50 ou a foto de Pelé, com 17 anos, chorando copiosamente depois da final da Suécia, sendo consolado por companheiros mais velhos. Vai muito longe aquela foto de capa do Jornal da Tarde do garoto desolado com a derrota do Brasil para a Itála,Copa de 82. Eram choros épicos que aconteciam nas grandes ocasiões, reservados somente para elas e que por isso engrandeciam não só o feito como também a atitude.

Hoje jogadores também choram por qualquer coisa. Choram quando nas entrevistas falam dos pais, choram quando falam em Deus, nos vizinhos, nos animais de estimação, na pátria. Tudo isso é comovente só que desgastou o ato de chorar. Eu, pessoalmente, não suporto mais o espetáculo de pessoas chorando especialmente para as câmeras. Os próprios cameramen já contam com isso. É só um entrevistado começar a tremer um pouco os beiços no meio de uma frase, que lá vai a câmera para o superclose, atenta para não perder nada da primeira lágrima.

Apesar dessa minha aversão, no entanto, houve um choro nesta semana que me remeteu aos velhos tempos. Foi o da torcida do Independiente de Buenos Aires, depois da vitória sobre o Goiás. O estádio inteiro chorou, deseperadamente, escandalosamente, sem se ocultar, sem pensar nas câmeras ou em qualquer outra coisa. De fato, as câmeras percorriam as arquibancadas e só encontravam rostos em pranto, desfeitos. Um choro de outros tempos.

E tinha sentido. O Independiente, esse velho leão, não ganhava nada desde 1984. Sete vezes ganhador da Taça Libertadores da América, o time de Avellaneda estava, faz tempo, não só excluído de sua competição predileta, como confinado aos últimos lugares dos torneios argentinos. Só ainda não foi para a Série B em razão do estranho e confuso regulamento que rege o futebol argentino. Não esperavam ganhar a Sul-Americana.

Um milagre. Os torcedores encheram o estádio por solidariedade, mas pressentiam a derrota. Sabiam que o Goiás era melhor. Estavam ali para não deixar seu velho e ferido campeão só e abandonado na queda. Temeram e tremeram a partida inteira. Nunca esperavam o que aconteceu. Mas aconteceu, e ninguém estava no fundo preparado para aquilo. Deu-se o milagre, o que não ia suceder. E eles choraram como nunca.

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