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A bancada da bola

Há uma opinião muito difundida que voto em jogador de futebol é o tipo do voto irresponsável, dado sabe-se por quais motivos, se é que se podem imaginar motivos para esses votos. É um voto jogado fora. A prova é que poucos retornam depois de um primeiro mandato em geral inexpressivo.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h01

Essas afirmações me dão o que pensar. Político no Brasil amplamente conhecido é só o presidente da República e o governador do Estado. É sobre ele que se lançam os olhares, sobretudo dos noticiários da televisão. Os senadores ainda aparecem de vez em quando. Os deputados federais já entram num terreno de luz e sombra. Os estaduais vagam da sombra para a escuridão e os vereadores, no noticiário, só quando há algum escândalo.

Da vida cotidiana desses políticos pouco se sabe e é preciso rastrear suas atuações com a persistência de um detetive particular. Alguns, poucos, são honestos e muito bons. De suas lutas e mesmo das eventuais derrotas de suas boas ideias, nada. Desaparecem durante os anos de mandato. Desse modo, quando chegam novas eleições, só uma pequena seita de eleitores sabe realmente em quem votar. É comum trocas de telefonemas entre amigos. "E aí, você tem algum bom pra federal?", "E então, e pra estadual, em quem você vota?". Se isso acontece até entre pessoas letradas é fácil deduzir o que pode acontecer com o eleitor menos informado.

Se o eleitor pretende saber alguma coisa por meio do programa eleitoral de televisão vai sair mais perplexo do que nunca. Do mesmo modo é impossível se informar através de possíveis diferenças entre os programas dos diversos partidos. São todos rigorosamente iguais na sua mediocridade. O eleitor, então, começa a se perguntar o que sabe dos candidatos e, mais ainda, começa a tentar lembrar de algum político que realmente tenha influído pessoalmente na sua vida, nem que tenha sido por uma hora, por um momento. Tenta se lembrar de alguma satisfação intensa que alguma ação de político lhe proporcionou. Alguma alegria íntima que não pode ser nem compartilhada nem esquecida. Enfim, algo verdadeiro que une político e eleitor.

É nesse ponto, talvez, que surge diante do eleitor a figura do jogador de futebol. Quando eleito fará muito pouco ou nada. O eleitor provavelmente sabe disso. Não vai fazer nada por ele. Mas já fez. Ao contrário dos demais candidatos, o jogador já cumpriu suas promessas. Sua presença não fala do futuro, mas do passado.

O eleitor certamente se lembra de algum antigo domingo que terminou de maneira mágica, inesquecível, por causa desse jogador que agora se apresenta diante dele pedindo o voto. Durante anos foi um admirador desse jogador. Muitos sonhos que sonhou só se tornaram possíveis por causa desse jogador. Aquele título que não vinha, aquele campeonato que era preciso ganhar. E o jogador transforma-se em mais do que um candidato. É um irmão, é alguém da família.

Não estou falando dos jogadores que foram eleitos. Muito menos dos dirigentes que foram eleitos. Esses, principalmente os dirigentes, pouco me interessam. Falo dos que não foram eleitos. Dos que receberam poucos, míseros votos. No fundo, todos se igualam. Vencedores e vencidos, todos tiveram seus admiradores fiéis a lhes dizer que não passaram pela vida inutilmente.

Mesmo jogadores sobre os quais o tempo desabou impiedoso são lembrados, não importa por quantos eleitores. Estão lá como que a testar se ainda contam com algum afeto. E contam. É só consultar a lista. Lá está Reinaldo, um os maiores atacantes da história do futebol brasileiro, com um punhado de votos. Ou, com outro punhado, Dinei, ex-Corinthians.

No fundo, o voto ao jogador é menos inexplicável do que parece. No emaranhado da propaganda que dificulta propositadamente distinguir um candidato do outro, uma ideia de outra, uma verdade de uma mentira, sobra o afeto.

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