A batalha diária para percorrer as trilhas do maior rali do mundo

Dacar tem desafios como curvas sinuosas, dunas, terrenos pedregosos e oscilação de temperatura

Elaine Freires,

23 de janeiro de 2011 | 00h35

A maior e mais dura prova de automobilismo completa 33 anos. Na semana passada, os nomes dos campeões foram divulgados, sem grandes surpresas, já que as grandes equipes têm dominado o Rali Dacar nas últimas edições. Para a maioria, tão importante quanto levar o troféu para casa é concluir uma prova disputada por muitos, mas finalizada por poucos. Um teste de resistência física, mental e mecânica.

Durante 13 dias de disputa, atletas percorreram cerca de 9.500 quilômetros entre Argentina e Chile. Largando de Buenos Aires, no dia 1.º, os participantes seguiram até Victoria, passando depois por Córdoba, San Miguel de Tucumán, San Salvador de Jujuy até atravessar a Cordilheira dos Andes em direção à Calama, em território chileno. Com apenas um dia de descanso em Arica, quase divisa com o Peru, os competidores voltaram a correr até Copiapó, seguindo até Chilechito, e finalmente para Córdoba e Buenos Aires.

O término de cada etapa é uma disputa ímpar entre competidores. Percorrer distância entre 400 e 800 quilômetros já seria suficiente para desgastar qualquer profissional bem treinado, mas as adversidades da prova tornam o desafio ainda maior. Dunas gigantes com até cinco quilômetros de extensão, terrenos pedregosos e curvas sinuosas feitas em estradas desgastadas ou fora delas. Além da travessia da Cordilheira dos Andes, capaz de abalar a saúde dos mais experientes por causa da influência da pressão atmosférica, variação de temperatura de 2 graus negativos a 34 positivos e caminhos inóspitos. Todos esses obstáculos, muitas vezes, num mesmo dia são requisitos para premiar quem chega ao destino final.

Além da programação diária, os participantes de um Dacar são provocados a todo o tempo. A rotina é puxada. Para os pilotos de motos, por exemplo, os primeiros deixam os acampamentos por volta das 4 horas da manhã. Enfrentam horas de estrada e chegam a outra cidade com desgastes físicos e mecânicos. A equipe de trabalho é fundamental para averiguar o veículo e também proporcionar condições de descanso para o competidor. A maioria fica nos acampamentos, também chamados de bivouac, onde dorme em barracas, toma banho e faz a alimentação.

Não há noite num bivouac, tudo funciona 24 horas por dia. Competidores chegam a todo instante e testes são realizados nas máquinas. As refeições têm horários definidos, mas em geral nunca faltam massa com molhos variados para dar energia e frutas para hidratar. Não há muitas opções, os cardápios são fixados na entrada dos refeitórios, que são tendas montadas com bancos, e basta colocar o paladar para conhecer os pratos. As comidas são elaboradas de acordo com o costume local. Na Argentina, carnes e saladas e no Chile, tortas e melancia eram bem servidos.

As condições de higiene também variam. Para iniciar a limpeza, os competidores utilizam lenços umedecidos e depois seguem para a ducha fria. A duração do banho é racionada, porque cerca de três mil pessoas convivem diariamente num acampamento. As necessidades fisiológicas são realizadas em banheiros químicos e as pias, que na verdade são pequenos tanques, ficam no centro de um corredor com dezenas de banheiros. Nesses aparatos, o pessoal escova os dentes, faz a barba e até lava roupa.

Os integrantes de uma equipe ficam em média 20 dias fora de casa. Para diminuir a saudade, cada um tem seu jeito. Há os que deixam os filhos e levam a mulher para dividir os desafios, como o brasileiro Jean Azevedo, e até os que separam uma verba para falar todos os dias com os familiares. O cansaço e a ausência de pessoas queridas são mais obstáculos enfrentados pelos pilotos.

Aceitaram o desafio: 434 veículos, entre eles 184 motos, 34 quadriciclos, 147 carros e 69 caminhões. Mas apenas 38% deles largaram para o último percurso no dia 15. Os outros eram competidores que sabiam das dificuldades e decidiram enfrentá-las. Mas, por motivos que variam da má sorte a problemas mecânicos, abandonaram a prova. Representando o Brasil, três dos seis veículos nacionais que largaram não terminaram: Zé Hélio, nas motos, com uma fratura na clavícula; Vicente de Benedictis, também nas motos, com um problema no equipamento; e André Azevedo/Maykel Justo/Mira Martinec, nos caminhões, com uma quebra na caixa de direção. A coragem de entrar na maior competição off-road já põe esses participantes em um patamar muito alto.

Três veículos brasileiros chegaram ao fim: Jean Azevedo, que retornou para as duas rodas, depois de três anos competindo entre os carros e terminou o Dacar em sétimo na geral e em primeiro na categoria Super Production acima de 400 cilindradas; Guilherme Spinelli e Youssef Haddad, nos carros, conseguiram a nona posição e o segundo lugar entre os modelos gasolina; e Marlon Koerich e Emerson Cavassin, o Bina, conquistaram o décimo quarto na geral e o primeiro entre os novatos. São guerreiros que aceitaram os desafios, enfrentaram obstáculos e foram capazes de superá-los. / A REPÓRTER ACOMPANHOU O RALI PELA RÁDIO ELDORADO

13 DIAS DE LUTA

9 mil quilômetros

foram percorridos no Rali Dacar de 2011, realizado entre Argentina e Chile, por 434 veículos, sendo 184 motos, 34 quadriciclos, 147 carros e 69 caminhões

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