A cabeça e o joelho

'Volte para o Brasil. Você precisa resolver sua vida!' Esta frase marcou a despedida de Ganso da seleção brasileira, logo depois da final olímpica contra o México. O meia recebeu a notícia do corte do amistoso contra a Suécia junto com este conselho, porque a avaliação da comissão técnica indicava: seu corpo estava em Londres, sua cabeça em Santos.

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h02

A dúvida sobre o bom ou mau investimento do São Paulo passa pela mente e pelo joelho de Paulo Henrique, mesmo que sua lesão atual seja no reto femoral, o músculo do chute. Se o joelho tiver incomodado mais do que a cabeça nos últimos meses, então o São Paulo precisará ter paciência. Mas é provável a hipótese de a dor mais forte ser na alma. Nesse caso, a nova casa será também o melhor remédio.

A resposta a esta pergunta - o joelho ou a cabeça? - também poderá definir se Ganso estará mais perto de repetir a história de Pita, craque de sucesso inquestionável tanto no Santos quanto no São Paulo, ou a de Ricardinho, o mais caro jogador da história do Brasil, quando trocou o Corinthians pelo Morumbi, em 2002.

Pita saiu do Santos em 1984 pelo desgaste, após seis anos como titular. Saiu também, porque o clube da Baixada precisava recuperar parte do dinheiro investido para comprar Paulo Isidoro e Serginho, um ano antes. No São Paulo, Pita foi brilhante desde o primeiro chute. Na estreia, São Paulo 3 x 0 Ferroviária, fez três gols.

Ao ser vendido ao Racing Strasbourg, da França, três anos mais tarde, tinha duas faixas de campeão paulista e uma de campeão brasileiro.

A semelhança com Ricardinho começa com a lembrança de o meia, ex-Corinthians, ter brilhado mesmo ao trocar a camisa 10 do São Paulo pela 8 do Santos, depois de uma passagem pelo Middlesbrough, da Inglaterra - Ganso também troca a 10 pela 8.

Ricardinho nunca concordou não ter atuado bem no Morumbi: "Meus números são ótimos, pode avaliar", dizia em 2003, semanas antes da despedida.

Reagiu às críticas dos são-paulinos às vezes com indiferença, outras com arrogância. Na véspera de seu último jogo, contra o São Caetano, já com o diagnóstico de artroscopia, desabafou com um funcionário do São Paulo: "Vou arrebentar neste jogo! Mas vai ser meu último, porque vou embora depois da cirurgia!" Arrebentou na vitória por 1 x 0. Depois, seguiu para o Middlesbrough.

Três armadores fantásticos mudaram-se do Santos para o São Paulo, antes de Ganso. Jair Rosa Pinto em 1961, Aílton Lira em 1980, ambos trocando a camisa 8 da Vila pela 10 tricolor, exatamente o inverso do que acontece com o meia paraense. O terceiro foi Pita, número 10 nas duas camisas. A semelhança com Pita é o estilo. Com Ricardinho, a raiva.

Ganso deixou a Vila, porque queria sair, como Ricardinho em 2003. Em seu primeiro San-São pelo Santos, empate persistente por 1 x 1 até a cobrança de falta certeira aos 46 do segundo tempo: gol de Ricardinho!

O ano era 2004, o Santos de Ricardinho era quarto colocado e seria campeão brasileiro.

Se Ganso terá tanto sucesso depois da transferência quanto tiveram Ricardinho e Pita? Depende do joelho, das lesões. Mas talvez dependa mais de sua cabeça.

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