A casa de todos

Veio de Nigel Mansell a última dose de autoconfiança que ainda cabia em Jenson Button. Na edição da Autosport da semana do GP da Inglaterra, quando a tradicional revista alcança sua maior vendagem, o eterno ídolo Mansell, que os ingleses amam e consideram o mais romântico e guerreiro de todos os seus pilotos, define Button como o melhor da F-1 atual. Algo que nunca falou de Lewis Hamilton. Confiança e moral elevado, entretanto, não bastam para garantir vitória em casa. Apesar de quase todos os grandes pilotos britânicos que passaram pela F-1 terem vencido em Silverstone, três campeões mundiais, e todos eles ingleses, ficaram sem essa marca na carreira.Mike Hawthorn, campeão em 1958, foi quatro vezes ao pódio; Graham Hill, bicampeão em 62 e 68, também fez quatro pódios e John Surtees, campeão em 64, fez cinco pódios seguidos. Na última vez em que correu em casa, em 1971, John Surtees, já veterano e dono de sua própria equipe, terminou a corrida em 6º declarando que encerrava a carreira triste porque faltou essa vitória. É sempre importante vencer no seu país. Para os ingleses mais ainda, porque Silverstone é, na verdade, a casa de todos. Se perguntarmos para qualquer piloto da Fórmula 1 qual o circuito em que ele mais treinou ou correu em toda a carreira, a resposta, certamente, será Silverstone. O máximo do exagero aconteceu em 89, quando Mansell tinha deixado a Williams para correr na Ferrari e já somava duas vitórias no circuito, mas ficou tão aborrecido por ter chegado em segundo, atrás do companheiro Alain Prost, que desceu do pódio e chamou a imprensa inglesa para dizer que não correria mais na categoria. Para sorte de todos nós, era apenas mais uma insensatez do explosivo e genial Mansell, que continuou correndo e venceria ainda mais duas vezes na Inglaterra, depois de sair da Ferrari e voltar para a Williams. No momento, Button tem enorme chance de se tornar o 13º britânico a vencer o GP em casa e, depois dos elogios de Mansell, ele entra na pista hoje com tudo. O circuito de Silverstone tem todo tipo de curvas e, ainda, bons trechos de reta. Como tudo depende de se encontrar o compromisso ideal entre o ajuste mecânico e o ajuste aerodinâmico, o carro da Brawn tende a ser dar bem. Red Bull e Toyota podem fazer frente. Qualquer outro resultado será uma surpresa, inclusive da Ferrari, que deu pinta de ter reencontrado o melhor caminho, mas decepcionou no GP da Turquia. O curioso de Silverstone é que, mesmo sendo um circuito veloz, o que define ganho e perda de tempo são as curvas lentas, nas quais tração é essencial. Não é nada fácil deixar um carro constantemente equilibrado em Silverstone por causa da forte influência do vento. Tudo é muito plano ao redor do circuito e, por isso, o vento influi no comportamento do carro, especialmente em curvas velozes como Copse, Becketts e Stowe. Também por causa do vento, apesar das longas retas, em vez de tirar pressão aerodinâmica os engenheiros são obrigados a optar por uma pressão razoável - de 1 a 10, nível 8. Tomara que na despedida de Silverstone da F-1 - no mínimo pelos próximos dez anos de contrato com Donnington - a Inglaterra tenha uma corrida à altura da tradição do país que é sede do automobilismo mundial. E, mais do que isso, que no fim de semana a FIA e as equipes encontrem a paz, agora que o caminho parece finalmente aberto pela boa vontade de ambas as partes.

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