A causa perdida

Boleiros

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2009 | 00h00

O que já não é tão incomum na análise de outros temas, como economia e cultura, na de futebol ainda é bem raro. Busca-se sempre uma causa única e exclusiva para o resultado de uma partida. Ou foi a presença ou a ausência de alguém, ou a sorte, ou o esquema, ou a substituição, ou o juiz - e só existe o "ou". Assim como a técnica de um jogador é resumida a seus atributos mais vistosos - embora a crítica musical já tenha feito tantos alertas sobre o limite do virtuosismo -, a história de uma partida só pode ter uma explicação e isolada. Inclusive a de que "futebol não tem lógica".O que se falou sobre o clássico entre Corinthians e Santos desde domingo está cheio de exemplos. Santistas culparam o juiz ou o acaso. Corintianos exaltaram o desempenho de Dentinho. Observadores supostamente neutros apontaram a escalação de Vágner Mancini. E por aí vai. No domingo retrasado, quando Ronaldo ficou de fora do jogo com o Santo André, o zero a zero foi explicado por essa ausência, mesmo que Dentinho tenha feito um gol legítimo anulado. Agora Ronaldo jogou 81 minutos sem brilho, e foi Dentinho que marcou... No entanto, sem Ronaldo, que teve marcação individual de Fabão, se movimentou mais do que antes e finalizou cinco vezes, o Corinthians talvez não tivesse vencido. A verdade dos fatos nunca é unilateral.Outra reação comum é dizer que "justiça" em futebol não existe. Até certo ponto, sim: qualquer um de nós se lembra de um jogo em que um time foi superior ao outro - chegou mais vezes ao gol adversário, teve mais posse de bola, fez lances mais envolventes - e terminou perdendo numa distração, num imprevisto, numa casualidade. Mas é a mesma coisa que dizer "fez tudo certinho, a bola é que não entrou": se tivesse feito tudo certinho, a bola teria entrado... Um time pior pode sair vencedor, e esse é o grande barato do futebol. Mas, se o melhor time perder dez gols cara a cara, quem vai dizer que faltou justiça no placar? Jogo é uma narrativa.O de domingo teve uma história corriqueira em clássicos: muita tensão, especialmente no início, e o destaque não foi daqueles de quem se esperava. Fazer gol cedo em jogos parelhos, como lembrou Mano Menezes, é um fator e tanto. Dentinho subiu no meio de dois zagueiros para aproveitar o cruzamento de Douglas, cruzamento que teve uma precisão que Lúcio Flávio não soube imprimir aos seus. Mas a partir daí surgiu outro fator importante: o Corinthians ficou mais compacto, marcou firme no meio - com Alessandro, Elias, Cristian e André Santos, além da ajuda do próprio Douglas - e mais esperou que espetou o adversário. O Santos, dependendo demais de um só armador, só conseguia chegar caoticamente à grande área; o próprio Neymar, hábil com a bola no pé, ainda precisa encontrar sua posição em campo.O juiz fez muitas lambanças, as contingências marcaram presença, mas eu não fico em cima do muro: o que definiu o resultado foi a adequação da tática ao elenco. Atuando em casa, o Corinthians foi mais inteligente como grupo, por isso mesmo venceu tecnicamente a maioria dos duelos, em especial nas laterais. Mereceu, sim; o placar foi justo. De quebra, ainda fez sua melhor atuação em 2009, justamente quando teve pela primeira vez o novo time titular (embora Boquita e Morais ainda disputem uma vaga). O quadrangular final promete, pois as intempéries de início de temporada começam a se dissipar nos grandes times.SHOW CATALÃOJogando com três atacantes, Messi, Etoo e Henry, o Barcelona é a mais vibrante prova de que um time pode ser ofensivo se tiver as figuras certas e o compromisso. O gol de Messi, em que dominou no peito driblando um, cortou dois e chutou de direita, foi precioso. Cristiano Ronaldo que se cuide.

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