A Copa começa hoje, atrasada

Neste domingo estarão definidas (15h30, horário de Brasília) as 12 cidades que sediarão chaves da Copa 2014 no Brasil. O país, porém, já está atrasado em relação às obras de estádios e especialmente da infraestrutura geral necessárias à realização do Campeonato Mundial de Futebol e que permitirão deixar um legado positivo, pós-Copa. O anúncio da escolha do Brasil como país-sede da Copa 2014 ocorreu em 31 de outubro de 2007, em Zurique, na Suíça. Esses 19 meses transcorridos desde o anúncio deveriam ter sido aproveitados para o desenvolvimento de um planejamento eficaz das obras exigidas, de acordo com o caderno de encargos da Fifa, com a contratação de projetos executivos (em sua forma final, detalhada) que embasarão as licitações para as obras públicas de estádios, transportes (aeroportos, metrôs, corredores de ônibus, trens, portos, etc.), segurança e saúde. A palavra-chave nessa questão é planejamento, algo em que o Brasil, nas suas diversas esferas de poder (federal, estadual e municipal), vem falhando seguidamente, com os custos decorrentes: obras executadas às pressas, sem projetos detalhados que definam técnicas construtivas, especificações dos serviços e materiais, cronograma de execução e orçamento rigorosos. Exemplo dos problemas originados dessa falta de planejamento são as obras dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro. O orçamento inicial de R$ 400 milhões alcançou o valor final de R$ 3,8 bilhões e uma herança que representa um "elefante branco": o Estádio João Havelange (Engenhão). A capital carioca praticamente não se beneficiou dos investimentos realizados. Já exemplos positivos em relação a como planejar para desenvolver bem megaeventos podem ser verificados em Londres e Xangai. A capital inglesa, que se prepara para receber os Jogos Olímpicos de 2012, além de construir um conjunto esportivo, está refazendo parte significativa de seu espaço em uma ousada operação urbana. Londres já está colhendo o legado da Olimpíada graças ao correto planejamento, em tempo hábil. Já a cidade chinesa se prepara desde 2003 para acolher a Expo Universal de 2010, com intensa renovação urbana. Receberá, durante seis meses, 60 milhões de pessoas: 3 milhões (5%) do exterior e 95% de chineses. O metrô, que já tem mais de 80 km, será ampliado, até 2015, em mais de 100 km.Como preconiza o Sinaenco, "antes de uma boa obra, existe sempre um bom projeto". E, para se ter um bom projeto é imperativo respeitar o tempo para a sua elaboração, enfim respeitar a engenharia. Não menos importante são os critérios para a contratação dos projetos, diretamente pelo empreendedor público ou privado. Nunca pelo executor da obra. Cabe agora aos governos estaduais ou municipais a responsabilidade de lançar os editais para as concessões e/ou para as parcerias público-privadas. Em seguida, os empreendedores terão de contratar de imediato a complementação dos projetos básicos e os projetos executivos. Com o anúncio das cidades-sede pela Fifa, é preciso trabalhar para desenvolver rápida e eficientemente os projetos de cada estádio, praça, rodovia ou aeroporto que precisaremos para 2014. Há aqui grave risco para a arquitetura e engenharia de projetos brasileiros. Alguns tenderão a contratar, sem licitação, escritórios estrangeiros, sob a alegação de que estes já têm experiência no projeto de estádios, padrão Fifa. A justificativa será a de sempre: "Como já estamos atrasados, não há tempo a perder com demoradas licitações."O governo federal, na formulação do PAC da Copa, dirá mais uma vez que tem recursos, mas faltam projetos. Tivemos mais de um ano para elaborar os projetos, que não foram contratados. Mas temos de seguir otimistas. Organizar a Copa é um desafio que o Brasil "tira de letra". O principal problema está na infraestrutura. Corremos o risco de fazer a Copa-2014 e não deixar nenhum legado importante para as cidades. O melhor resultado da Copa-2014 é o Brasil 2015, o legado positivo desse evento para nosso país. * José Roberto Bernasconi é presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco)

* José Roberto Bernasconi, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

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