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A copa dos meninos

A Copa São Paulo de Futebol Júnior é um exemplo de como uma boa ideia pode ser destruída lentamente. Criada há quatro décadas, a competição destinada aos garotos formados nas divisões de base dos clubes se transformou em um amontoado de jogos. Com 104 equipes distribuídas em 26 grupos, na primeira fase os argumentos técnicos se perdem na quantidade de confrontos sem nexo e conteúdo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2014 | 02h02

Com nomes que vão de Paulo Roberto Falcão a Neymar, a lista de grandes jogadores revelados pela Copinha é utilizada para avalizar uma virtude esfolada ao longo do tempo. A modernidade não serve como justificativa para explicar o inchaço de um torneio idealizado pelo professor Fábio Lazzari no fim dos anos 1960.

Essa conversa não combina com a realidade. Não é a competição que revela jogadores, é a oportunidade oferecida a eles, resultado de uma série de fatores, um encontro combinado com o torcedor no recesso do futebol profissional. A chave do sucesso era a vitrine bem arrumada.

Inicialmente mantida pela Secretaria Municipal de Esportes de São Paulo, foi parar nas mãos da Federação Paulista de Futebol. Hoje, o gigantismo do evento serve para agradar a algumas prefeituras e matar a sede de poder dos cartolas, mas não favorece a filtragem das novas gerações do futebol brasileiro.

A megalomania dos campeonatos estaduais corrói a Copa São Paulo. O encaixe no calendário era perfeito. Enquanto os times profissionais treinavam para o reinício de suas atividades, os clubes apresentavam a próxima geração aos torcedores.

O torneio dos meninos servia de espera para a temporada do futebol. Havia interesse das torcidas e boa cobertura dos meios de comunicação. O avanço dos estaduais sobre o período destinado à Copinha fez surgir mais um absurdo do calendário brasileiro.

Quando chegar às quartas de final, seguramente com um nível técnico superior, depois de 180 jogos e deixar 96 clubes para trás, o torneio coincidirá com o início do Paulistão, que de Paulistão só tem o nome. É inacreditável que os gênios do marketing permitam que um evento concorra com o outro, justamente no momento em que a disputa se torna muito mais atraente. Os patrocinadores não se incomodam com isso?

Diante dessa aberração, o excesso de participantes é um problema menor, contornável, mesmo com o critério técnico escanteado. E as distorções estão em todos os lugares. Na sexta-feira, a torcida do São Paulo pedia contratações para o time principal enquanto os meninos enfrentavam os japoneses do Kashiwa Reysol, na Arena Barueri.

Os são-paulinos não estavam lá para ver o produto da divisão de base, do ótimo e badalado Centro de Treinamento de Cotia. Nada disso, danem-se os meninos, o negócio é comprar, é investir em jogadores prontos, de quem teve paciência, competência ou a sorte de formá-los. Qual a função da base, então?

Esse é outro aspecto do problema. São raros os clubes com bons trabalhos na formação de jogadores. É preciso ter especialistas, dentro e fora do campo, para lidar com a garotada. A missão é tão delicada e complexa que antes de contratar um treinador deveriam pensar em trazer um assistente social.

Alguém deve estar ao lado desses meninos para explicar que o sonho pode ou não se tornar realidade. Depois de anos e anos dedicados ao futebol, a maioria será reprovada, chegará à fase adulta degustando cada letra do fracasso, e sem rumo na vida. Muitos continuarão tentando até serem convencidos pelo tempo.

Um clube de futebol tem missão social importante, o que torna a Copa São Paulo ainda mais especial. Trata-se de uma grande oportunidade para discutir todos esses aspectos relacionados ao desenvolvimento de jogadores e de cidadãos que fracassarão no futebol.

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