A corneta

A semana foi movimentada por crimes e futebol. Nos crimes uma coisa me intriga. É que criminoso brasileiro não acredita em câmeras. Não dá a mínima para o fato de ser filmado, gravado e registrado.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h03

No caso do Valdivia, a pessoa, que, aliás, não parece criminoso, deixou-se tranquilamente filmar de frente, perfil e costas. Talvez porque naquele momento nenhuma atitude sua indicava o que realmente estava se passando. O vídeo parece mostrar duas pessoas trocando ideias amigavelmente.

Bom, não era isso que eu queria falar e volto ao futebol. Quarta-feira houve jogos decisivos na Vila e no Olímpico. Quando saiu o gol da Corinthians ele foi saudado como de hábito entusiasticamente das janelas e pátios dos diversos prédios. Estou acostumado a essas manifestações da torcida que é a maior de S.Paulo e reconheço imediatamente quando o gol é do, digamos, Timão.

Do Palmeiras ultimamente não tenho ouvido gritos muito fortes por motivos óbvios. Mas há no prédio em frente ao meu um garoto com uma corneta, dessas cornetas de estádio, precárias e estridentes. Quando o Palmeiras marca ele soa a corneta. A equipe, como todos sabem, está longe de empolgar, por isso me acostumei a ouvir seus míseros gols serem registrados pela solitária corneta. O time pode estar perdendo de dois ou três. Mas se faz um único gol a corneta soa comemorando com o mesmo entusiasmo. Nunca consegui vê-lo claramente. O jardim do prédio é cheio de folhagens e pequenas árvores atrás das quais ele deve ficar. Sei que está por perto e, exatamente como os gols do Corinthians, sou capaz de reconhecer os gols do Palmeiras por meio da indefectível corneta.

Na quarta-feira tentando ver um pouco de cada jogo, sai da sala por instantes e nesse momento ouvi gritaria vinda de janelas e sacadas. Instantaneamente, com a misteriosa velocidade do cérebro, vi que não era barulho corintiano. Era menos gente. Também, na mesma velocidade, o cérebro me indicou que não era do Santos. Era mais gente. O Palmeiras também não era: não tinha ouvido a corneta. Aflito e intrigado voltei para a sala. Era o Palmeiras. Os gritos eram de torcedores do Palmeiras subitamente ressuscitados pelo gol extraordinário. Mas faltava o garoto e a corneta. Continuei por ali pensando no que podia ter-lhe acontecido quando houve outros gritos e desses a razão estava na TV, na minha frente. O Palmeiras tinha feito um segundo gol.

Fiquei satisfeito de ver essa torcida aparecer, como se desperta depois de longo sono. De uma certa maneira as explosões palmeirenses eram como uma mensagem a dizer que a corneta heroica não era mais necessária e que a torcida tinha voltado. Estava pensando nisso quando o jogo acabou ,e, nos minutos que se seguiram, no quase silêncio da noite, de repente, ouvi o som da corneta. Límpido, claro. O garoto estava lá, tinha apenas esperado chegar o seu momento.

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