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A culpa dos outros

Um time do calibre do Corinthians cair fora na primeira fase do Estadual, e com uma rodada de antecedência, incomoda pra chuchu. Mais perturbador, no entanto, é ver alguns de seus personagens transferirem para terceiros a culpa pela decepção. No caso, o vilão foi o São Paulo, que perdeu para o Ituano por 1 a 0 no Morumbi.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2014 | 02h01

Romarinho claramente e Mano Menezes, de maneira dissimulada, empunharam a bandeira da falta de fair-play tricolor como base para a saída precoce da briga doméstica. Atitude pequena, tentativa de desviar o foco. Nesse tipo de raciocínio, quem entrengou foi o próprio Corinthians, ao falhar em diversos jogos, incluídos o clássico com o São Paulo (derrota por 3 a 2) e sobretudo o empate em Penápolis. Ora, não fez a parte que lhe cabe e joga sombras nos outros?

A desclassificação corintiana não surpreende. O campeão mundial de 2012 sofre consequências da jornada memorável no Japão. Um grupo valente e no limite atingiu o auge naquele dezembro inesquecível, para em seguida entrar em declínio. Tite e diretoria demoraram a entender a necessidade de mudanças em 2013. A lentidão se estendeu à chegada de Mano Menezes, enquanto as decepções se acumulam.

A questão central está na inércia que invadiu o Parque São Jorge após uma temporada dignificante como a de dois anos atrás. Compreensível respeitar e mostrar paciência com rapazes que conquistaram Libertadores e Mundial em curto espaço. Alegria demais, proporcionada por elenco aplicado, afinado e que seguia à risca a estratégia do treinador. Vários merecem bustos no clube pelos trabalhos prestados.

Mas o torpor embaçou o senso crítico. Ainda no ritmo de festa, os corintianos paparam mais um Paulistão, com a impressão de que em 2013 continuariam a velejar de vento em popa. O primeiro alerta sério veio na Libertadores, com a queda diante do Boca. Erros de arbitragem à parte, a trupe já dava sinais de esgotamento. Tite apostou nos moços; afinal, tinham provado e comprovado a capacidade de reação.

Com o mesmo pessoal encarou o Brasileiro - e aí o caldo desandou. Guerreiros de ontem se mostravam cansados, contidos, até desinteressados. O Corinthians marcou passo na Série A, empurrou o calendário com a barriga, rifou Tite e imaginou ressurgimento rápido com Mano Menezes, saído de passagem relâmpago pelo Fla.

O retorno do técnico da reconstrução na Segundona de 2008 ofuscou os problemas, e dá-lhe a repetir-se o erro do marasmo. O Corinthians largou a temporada de 2014 praticamente com cast inalterado, como se o renascimento ocorresse por milagre, só com a troca de professor. Engano, como escancararam os maus resultados seguidos no Estadual - a série de derrotas e empates, somada a esquema tímido e indefinido, desembocou na eliminação.

As poucas mexidas das últimas semanas vieram por trauma. A debandada atingiu Paulo André, Pato, Douglas e, com essas trocas, ficou a sensação de que o horizonte clareava. Outro vacilo. O Corinthians, guardadas as proporções, lembra o Milan de um tempo atrás, que venceu troféus de tudo quanto era qualidade e envelheceu. Ao se dar conta, comia poeira diante de rivais. Os reflexos desastrosos do abuso do sono esplêndido das glórias permanecem até agora.

O Corinthians precisa de chacoalhão, de choque de realidade como aquele no vexame com o Tolima, em 2011. Está com casa linda, cheirando a tinta fresca, tem força econômica, público imenso e inegável boa vontade nos meios de comunicação, sempre de olho na audiência.

Não pode curtir lassidão. Taí o desafio pra Mano Menezes, cujo prestígio também está em jogo. Não dá pra confiar numa equipe que, com a corda no pescoço, teve dificuldade diante do Penapolense (com o carinho que merece). O Corinthians de novo regalou a plateia com pouco futebol para tanta tradição. E insinuar entregada são-paulina fica feio. Se tivesse vencido, ainda estaria no páreo. Ah, isso é detalhe...

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