A derrota do passe e a santa paciência

Desde a 28.ª rodada do Campeonato Brasileiro, em outubro do ano passado, notícia boa não dura mais do que uma semana no Palmeiras. O sofrido empate (2 a 2) diante do Avaí, em casa, deu início a uma instabilidade que tirou o emprego de Muricy Ramalho e o clube da Libertadores.

PAULO CALÇADE, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

A derrota para a Ponte Preta desperdiçou todo o lucro do triunfo sobre o time da moda, na semana passada. Para que servem duas importantes vitórias, nos clássicos contra Santos e São Paulo, se o Palestra Itália, que deveria ser aliado estratégico na busca da vaga para as semifinais, acabou se transformando num drama para o Palmeiras?

São Caetano (1 a 4), Santos André (1 a 3) e agora a Ponte (0 a 2) construíram placares incontestáveis, com e sem Antônio Carlos no comando. No Paulista, em oito partidas em casa, apenas 11 dos 24 pontos disputados acabaram na conta do time. Números de uma intrigante inconsistência.

O problema vem de longe. Líder do Brasileiro em 2009 após 27 jogos, com cinco pontos de vantagem sobre o São Paulo, o Palmeiras conseguiu nas 11 rodadas seguintes abrir uma disputa que parecia administrável. Naquele momento, o Flamengo, que viria a ser o campeão, tinha 43 pontos, dez a menos do que o time de Muricy.

É claro que as contusões de jogadores importantes como Maurício Ramos, Pierre e Cleiton Xavier foram decisivas, mas desde então o time não conseguiu se recuperar. Nas 29 partidas subsequentes, do empate com o Avaí à derrota de sábado para a Ponte Preta, o aproveitamento dos pontos disputados é de apenas 46%.

Pior: o Palmeiras não consegue transformar seus bons momentos numa recuperação verdadeira. A crise está na essência, nos pilares do jogo, destruídos pela falta generalizada de confiança que paira sobre o Palestra Itália. Quando o passe não funciona o problema é técnico, e passa também a ser tático porque o time não consegue trabalhar no espaço reduzido pela marcação.

A Ponte se movimentou com cinco jogadores no meio-campo no primeiro tempo. A história de que o goleiro Eduardo Martini foi um gigante da partida não é a mais recomendável para a situação, serve apenas para criar uma sensação falsa de domínio sobre o adversário.

O treinador Sérgio Guedes trancou os lados do campo e obrigou o Palmeiras a centralizar o jogo, a cair na tentação de esticar bolas. Nesses momentos, é preciso fazer o jogo circular, saber procurar e criar espaços, tocando a bola. Impaciente, o time perde o controle psicológico ao ser espremido em casa. E assim o passe vai para o espaço.

O que os treinadores andam fazendo com os meninos nas divisões de base? Não se pode errar tanto no futebol brasileiro. O maior defeito é a falta de um passe mais qualificado, quando exigido sob pressão, no espaço reduzido pela marcação e pelo preparo físico. É o futebol que se joga atualmente.

Johan Cruyff, craque holandês da Copa de 1974 e ex-treinador do Barcelona, fala dessa condição básica para o desenvolvimento do jogo, da simplicidade de conexões complexas, algo que o Palmeiras e tantos outros não têm. "O futebol consiste basicamente em duas coisas. Primeira: quando se possui a bola, é preciso ser capaz de passá-la corretamente. Segunda: quando a passam para você, deve-se ter a capacidade de controlá-la. Quem não a controla, tampouco pode passá-la. Em campo, estes dois aspectos são os mais importantes do jogo, já que nunca devemos esquecer que o futebol é um esporte que implica muitas falhas e onde os acertos podem ter tanta importância quanto os erros.""

Simples, básico, mas pouca gente possui essa lucidez. Telê Santana não era um gênio tático, mas com ele o passe estava em primeiro lugar. Por isso faz tanta falta.

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