A difícil missão da Ferrari

Pelo menos até o próximo GP, por mais que a Ferrari tente botar um ponto final no assunto, ainda vai se falar da manobra de Alonso na entrada do pit stop da China. Mas discutir se foi legal ou ilegal não é o caso, até porque, se fosse ilegal, o espanhol teria sido punido ali mesmo. A questão é ética. Não foi uma atitude limpa de Alonso, que tinha conhecimento de que a equipe estava pronta para receber Massa. A Ferrari conseguiu botar panos quentes ali no momento, mas tem um sério problema pela frente: existirá, de agora em diante, uma ordem para que isso não se repita com um ou com outro, ou eles vão estar liberados para jogar o jogo do quem pode mais chora menos? Eu sempre ouvi de todos ali, até mesmo do presidente Luca di Montezemolo, desde a época em que ainda era apenas um chefe de equipe com quem a gente jantava todas as noites de um fim de semana de GP nos anos 70, que a Ferrari deve estar sempre acima dos interesses de cada piloto.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

E não pensem que nos tempos de Schumacher o principio não valia. Valia, sim. Só que o interesse da equipe, naquela época, era exatamente dar todos os privilégios ao alemão. Rubinho Barrichello também teria de trabalhar para isso e ponto final. Desde que Schumacher saiu, as coisas voltaram ao normal. Foi assim entre Massa e Raikkonen até o momento em que uma troca de posições no pit stop se tornou decisiva para a conquista do título (GP do Brasil, 2007), e é assim agora entre Massa e Alonso. Palavras do presidente: "Os pilotos sabem bem o que têm de fazer para correr pela Ferrari, e não por eles mesmos."

Felipe é um sujeito de paz, mas o incidente deve servir para ele ficar mais atento aos próximos acontecimentos. Não ouvi isso dele, mas, na minha opinião, não dá pra confiar muito no pedido de desculpas que Alonso fez perante toda a equipe. Vale para o momento, mas não sei qual é o prazo de validade. Uma história curiosa do pós-GP. Diante do caos aéreo provocado por aquele vulcão islandês de nome difícil de se pronunciar e escrever, entre os poucos que conseguiram embarcar no domingo à noite estavam Massa e Alonso. Mas, sem possibilidade de escolher assentos na hora do embarque, o brasileiro teve mais sorte. Recebeu um assento na primeira classe. Alonso teve de se contentar com a classe econômica.

História bem diferente da Ferrari é a que está acontecendo na McLaren, pelo menos na aparência. Lewis Hamilton, que teve graves problemas de relacionamento com Fernando Alonso em 2007, quando os dois eram companheiros na equipe inglesa, hoje continua em paz com Jenson Button, mesmo vendo o novo companheiro somar duas vitórias, enquanto ele ainda está no zero. O desempenho de Button neste início de campeonato é uma surpresa para mim e mais 70% da Fórmula-1, incluindo os pilotos. Sei disso pelo que ouvi logo que foi definida a contratação de Button. Isso não muda minha opinião de que Hamilton é muito mais talentoso. E acho até que ele ainda chega na frente do companheiro no final do campeonato. Mas também é certo que Button, além de repetir a temporada sem erros notáveis do ano passado, ainda parece ter evoluído ao se preparar para um duelo que mesmo a imprensa inglesa tinha como tarefa fácil para Hamilton antes de começar o campeonato. Não se pode esperar uma corrida brilhante de Button, mas ele está sempre lá e já fez o suficiente para aumentar a lista de rivais na briga pelo título. A minha e a de muitos outros.

A F-1 tem novidades pela frente. Na Espanha, Renault, Mercedes, Force India e Red Bull estreiam o sistema de duto frontal criado pela McLaren. A Ferrari também promete muita coisa nova. Está duro manter-se na briga. A McLaren evoluiu muito e a Red Bull, que já estava bem, pode ficar melhor ainda.

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