A doce vida, bem família, dos boleiros no Catar

Os salários são bons, mas a ausência de viagens e concentrações conta muito na decisão de permanecer no país

Sergio Pompeu, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Sebastião Lazaroni está resignado. Técnico há dois anos e meio do Qatar Sports Club, ele já sabe: em algum momento da temporada o salário dos jogadores vai atrasar e o time perderá pontos preciosos. Treinador da seleção brasileira na Copa de 90, andarilho do futebol, com passagens por times de dez países, Lazaroni, de 60 anos, leva tudo na esportiva. No ano passado, o Qatar SC chegou à final da Copa do Golfo, à semifinal da Copa do Emir e à semifinal da Copa do Príncipe, mesmo com os salários atrasados. "Eu falei: "Paga, presidente, é importante a motivação." Ele respondeu: "Não tem como." Perdemos os jogos e, uma semana depois, pagaram tudo. É um problema de timing", brinca.

Lazaroni mora num condomínio fechado em Doha, com direito a praia particular. Como a maioria dos cerca de 70 profissionais de futebol brasileiros radicados no Catar - pelo último dado oficial, de três semanas atrás, um total de 669 brasileiros têm vistos válidos expedidos pelo governo local -, pretende cumprir seu contrato até o fim e, se possível, renová-lo. Engana-se quem pensa que os boleiros só ficam no Catar pelo dinheiro. Para a maioria, pesa a possibilidade de aliar bons salários a uma rotina tranquila, passar mais tempo com a família. "A vida aqui é boa, você tem do bom e do melhor", diz. "Vim para uma temporada, renovei por mais duas. E o clube quer que eu fique."

O ex-volante do Botafogo Camacho, de 30, vive no Oriente Médio desde 2004. Jogou uma temporada no Al Arabbi, no Catar, e está há quatro anos na Arábia Saudita, no Al Shabab. "O Catar é bem mais liberal que a Arábia. É o sonho de qualquer jogador em termos de convivência com a família. Você não treina muito, as viagens são curtas. Não tem concentração. Você chega ao clube para almoçar e fica a tarde lá, esperando o jogo", diz. "No Brasil você folga na segunda, viaja terça, joga na quarta, só volta para casa na quinta, treina na sexta e já concentra para o jogo do fim de semana."

Camacho afirma que recebeu propostas de clubes brasileiros, mas decidiu ficar na Arábia. Diz que na equação sobre uma possível volta ao Brasil, levaria em conta o lado financeiro, a possibilidade de ter mais tempo para a vida pessoal e, do outro lado da balança, a adrenalina de jogar no seu país, com o apoio de uma torcida grande, além de ficar perto da família e dos amigos. "O peso desses fatores é mais ou menos de 35% para os dois primeiros e 30% para os dois últimos. Então, 70% pesam a favor de eu ficar por aqui. Mas, em termos de desempenho, muitas vezes o nível cai. Não tem cobrança, tem jogador que se acomoda."

"No Brasil você tem torcida, cobrança, paixão. Aqui tem dinheiro, qualidade de vida, condições de trabalho", diz Caio Junior, campeão da Liga do Catar com o Al-Gharafa logo no seu ano de estreia no Catar. Ao comentar a baixa frequência aos estádios, Caio assume um tom professoral, realçado pelos óculos de formato retangular, sua marca registrada. "A Primeira Divisão aqui tem 12 times, baseados em Doha ou em cidades muito próximas. É como se você pegasse a Grande Curitiba e pusesse uma dúzia de clubes lá. Iria dispersar a torcida", diz. "Até porque quem gosta de futebol são os catarianos, minoria no país."

Caio pede licença e caminha até o campo para comandar um treino, no fim da tarde. Ao lado do gramado, um tapete fica estrategicamente à disposição dos jogadores árabes para uma das cinco orações diárias, mandamento básico do islamismo. A 100 metros do campo fica a mesquita onde um funcionário, o muezim, convoca os fiéis para as preces - em horários determinados pelo ângulo de incidência do sol. A comissão técnica, toda formada por brasileiros, já se acostumou a essa rotina, de parar tudo para permitir aos atletas rezarem.

A religiosidade serve até como aliada no verão. O recesso do futebol no Catar vai de meados de maio até agosto. Depois da pré-temporada, geralmente feita na Europa para fugir do calor, vem o Ramadã, mês sagrado em que os muçulmanos jejuam durante o dia. O Ramadã é baseado no calendário lunar e sua data é variável. A previsão para este ano é de que comece em 30 de julho. Como boa parte dos jogadores só pode se alimentar depois do pôr do sol, os treinos são marcados para as 22 horas. "No pico do verão o calor de dia é desumano", diz o preparador físico do Al-Gharafa, Sulivan Dalla Vale, de 41. "A temperatura passa dos 50 graus. Sentado, você mal consegue falar. Como os caras vão correr? Você não perde só líquido. Perde massa muscular."

À primeira vista, outros aspectos da religião se chocam diretamente com costumes dos brasileiros, como a restrição à bebida. Lazaroni garante que não passa apuros. Mostra uma carteirinha de plástico que dá direito à cota mensal de bebidas, proporcional ao salário, que ele pode comprar e lavar para casa. "Você não consegue beber tudo a que tem direito", diz, rindo. Ou seja, dá para tomar aquela cervejinha tranquilo nos churrascos em casa, um dos programas preferidos dos boleiros brasileiros, ao lado dos passeios em shoppings.

"Cheguei em julho de 2008 e a primeira impressão que tive foi de um país muito fechado. Você vai ao shopping e vê mulheres com o corpo todo coberto", diz Marcinho, atacante do Qatar SC. "Mas essa é a primeira impressão. É um povo alegre."

E como os jogadores, tão assediados pelas fãs no Brasil, lidam com as restrições ao contato com as mulheres? O Catar é muito mais progressista que seus vizinhos no que se refere ao papel da mulher na sociedade - a rainha, xeica Mozah Al-Missned, é embaixadora da Unesco e tem papel decisivo no apoio generoso do governo a projetos sociais em diversos países, como o Brasil. Ainda assim, o sexo entre pessoas não casadas é punível com prisão ou deportação.

"Com as árabes você não pode se relacionar, elas já são prometidas para os futuros maridos. Tem mulheres de outras nacionalidades, que vêm trabalhar em hotéis ou na Qatar Airways. Mas ainda não namorei, tô tranquilão", conta Marcinho, bem humorado. "É como se diz na gíria do futebol: "Eu já fui tempestade, hoje sou garoa.""

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