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Antero Greco
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A emenda do soneto

Emerson Sheik virou o personagem da semana. Começou de forma curiosa, com brincadeira atrevida e aparentemente contestatória. Terminou mal, com atitude de preconceito tão acentuada quanto a daqueles que o criticaram por ter publicado em rede social foto em que dá beijinho num amigo. No meio tempo, se descontrolou no jogo com o Luverdense e foi expulso depois de ficar poucos minutos em campo. Dias agitados e que talvez marquem forte a carreira dele.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h03

A história do selinho abriu espaço para todo tipo de reação - sobretudo as de tom pejorativo. Nenhuma surpresa. Difícil imaginar prevalência de serenidade em temas tabus - em nossa sociedade, por exemplo, manifestações carinhosas entre homens despertam urticária em machões sensíveis.

Emerson bateu pé em torno das convicções dele, e nem precisava disso. Quem confia em si, não deve explicar-se a todo instante, ainda mais para cobranças ignorantes. Ainda assim, num meio preponderantemente conservador como é o do futebol, se viu obrigado a reafirmar a heterossexualidade.

As declarações reiteradas de que a bitoquinha era uma provocação, e servia para medir o grau de maturidade e tolerância das pessoas, foram insuficientes. Uma comissão de notáveis da principal facção organizada do clube teve passagem livre para uma conversa particular com o debochado atacante.

Após encontro com a embaixada diplomática, que tem extraordinário poder de convencimento com base em palavras e métodos sábios o site da entidade publicou desculpas peremptórias de Emerson a toda a nação alvinegra, com ênfase num detalhe. "Foi só uma brincadeira com um grande amigo meu. Até porque não sou são-paulino."

Estragou tudo. Se forem fidedignas as palavras reproduzidas pelos redatores da página oficial na internet, Emerson pisou na bola - e feio. Se antes tivera gesto destemido, agora se acovardou. Se no princípio ergueu bandeira contra preconceito, no final desfraldou enorme pavilhão da intolerância.

O medo é sentimento humano - o da morte nos persegue desde o nascimento e justifica muitas de nossas crises na vida. Compreensível, portanto, que Emerson sinta receio de represálias, e nunca se sabe onde podem chegar os boçais. O pedido de desculpas bastaria para satisfazer os infelizes. Não precisava do adendo (e imagino que seja verdade o que disse, pois não desmentiu). Assim o episódio que largou como um brado na luta contra um preconceito fechou como reforço para pensamento retrógrado. Bola fora e fez lembrar expressão antiga de quem criticava a xaropada de sonetos ruins, que ficavam piores com supostos ajustes..

Bola dentro? Corinthians e São Paulo têm caminhos cruzados. Ambos entram em campo pressionados. Os campeões do mundo enfrentam clássico com o Vasco com a obrigação de provar que o tropicada em Lucas do Rio Verde, pela Copa do Brasil, não é sintoma de decadência. Tricolores recebem o Fluminense com a necessidade de mostrarem que não são candidatos ao rebaixamento, humilhação suprema à qual nunca se submeteram.

O Corinthians vive raro momento de cobrança, nos últimos dois anos e meio em que esbanjou competência e acumulou títulos. Tite e rapaziada enfrentam desafio de devolver confiança para a torcida, que anda com um pé atrás. A eficiência entrou em xeque, e o que era segurança agora parece pasmaceira, desinteresse e falta de criatividade. O Vasco é incógnita ainda maior.

O São Paulo patina no fundo da tabela, e dela não sai nem com vitória na tarde de hoje. Aliás, não festeja três pontos desde a segunda rodada. Paulo Autuori aposta no retorno de Luis Fabiano para dar jeito no ataque, e continua a mexer na equipe, em busca da fórmula de equilíbrio ideal. O discurso é bacana, mas na prática bola do time continua murcha. Para complicar, a partir de domingo que vem e até o dia 11 serão cinco jogos em seguida. Haja fôlego, paciência, padrão e... gols a favor.

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