A era da ansiedade

Amigos, assisti a vários jogos do Campeonato Paulista neste fim de semana. Nada que me empolgasse em particular. Nada, também, que me levasse ao desespero. O campeonato avança, nesta primeira fase, rumo ao que dele se espera, a classificação dos grandes e dos melhores entre os do interior para as fases eliminatórias. É o que estava previsto, dentro da fórmula esdrúxula inventada pela Federação Paulista de Futebol - todos jogam contra todos, menos com aqueles do seu próprio grupo.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

03 Março 2015 | 02h03

Claro, o que chama a atenção, é a imensa desproporção entre os chamados "grandes" e os "pequenos". Parêntese: coloco as duas palavras entre aspas porque, hoje em dia, no futebol brasileiro, os grandes não são tão grandes e alguns pequenos têm, atrás de si, tradições a serem ser respeitadas. Dito isso, é claro que o abismo de qualidade entre uns e outros pode produzir a impressão de monotonia. Provavelmente isso acontece em outros Estados da federação. De tal forma que alguma agitação só é esperada em confrontos clássicos, entre os maiores clubes. Estes se aproveitam da fragilidade dos adversários para fazer experiências em seus times. Como se o Campeonato Paulista não passasse de pré-temporada de luxo. Ou mesmo sem luxo nenhum. Enfim, apenas um aperitivo para o que realmente interessa - as disputas na Libertadores, na Copa do Brasil e no Campeonato Brasileiro.

Tudo normal. Há, no entanto, uma ansiedade no ar, como se esta fase do campeonato fosse muito chata e a suportamos cheios de tédio. Não podemos esperar pelas etapas que realmente valem alguma coisa (se é que valem), as eliminatórias que conduzem ao título. Não nos damos tempo para apreciar o que nos é oferecido no momento. Estamos sempre de olho no filé mignon que virá depois.

Bem, o que posso dizer é que esta é uma maneira muito pouco sábia de viver. Não conseguimos curtir o momento porque nossa atenção está toda voltada para o que vem mais à frente. Provavelmente quando chegarem essas fases, também estaremos infelizes porque o que interessa mesmo é a decisão do título. E quando algum time ganhar a taça, diremos que ela pouco vale e que são os outros torneios e disputas os que realmente merecem a nossa comemoração. Estamos sempre no futuro ou em outra parte e nunca no momento e no local em que vivemos. Quer forma mais eficaz para ser infeliz e eternamente insatisfeito? Eu não conheço. Daí nossa época ser movida à base de ansiolíticos, sem os quais as pessoas não conseguem sustentar essa insatisfação permanente.

Bom, sem esquecer a crise permanente em que vive o futebol brasileiro, eu prefiro curtir o momento. Por exemplo, o belo gol de Jadson (o gol do "Fico", como o chamou nosso amigo Antero Greco) na vitória do Corinthians. Ou mais uma atuação de gala do Robinho pelo Santos, marcando dois gols e sendo tolamente "amarelado" pelo juiz por ter comemorado com a torcida no alambrado. Coisas assim podem ser ínfimas para quem usa o metro inatingível do Barcelona ou do Bayern. Mas, como ainda estamos por aqui, é o que temos para o momento. Não me parece inteligente viver choramingando, como se estivéssemos no pior dos mundos. E nem fazer o contrário: ignorar a crise, carências ou desmandos. Um pouco de equilíbrio entre prazer e crítica pode trazer a serenidade que nenhum ansiolítico assegura.

Uma experiência. Gostei da torcida mista no Gre-Nal. Sei. Vão dizer que foram apenas dois mil torcedores e que houve confronto entre organizadas antes do jogo. Mesmo assim, parece experiência válida. Alguma coisa precisa ser feita para diminuir a violência no futebol e não me parece que a solução seja exclusivamente policial. Mostrar a possibilidade de convivência entre diferentes não é urgente apenas no futebol. É ato civilizatório, desses que fazem falta ao País. E ao mundo. Por pequenos que sejam, esses gestos fazem recuar um pouco a barbárie.

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