A escolha de Mario

Mario Fernandes é um bom lateral do Grêmio, com nome composto que lembra cantor de fado. O jovem de 21 anos tem potencial para aperfeiçoar-se - embora não seja Djalma Santos nem Carlos Alberto Torres - e ganhou destaque nestes dias por causa da seleção. Mais precisamente por ter recusado a convocação para fazer parte do elenco que hoje vai a campo na estupenda e inesquecível segunda parte do Superclássico das Américas, diante da Argentina. O moço disse que não se sentia em condições de ir para Belém, pediu desculpas e ficou a bater sua bolinha em Porto Alegre.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2011 | 03h03

O gesto desencadeou polêmica e mal-estar maiores do que o possível calote da Grécia. Para alguns, Mario Fernandes é um herói com topete suficiente para peitar a CBF e levantar a bandeira da libertação. Ao virar as costas para o chamado de Mano Menezes ressaltou a irrelevância atual da amarelinha e de seus jogos caça-níqueis. Para outros, não passa de rapaz "com problemas", de temperamento instável e carente de tratamento. Desequilibrado ou tonto, para ficar na linguagem popular.

Nem isso nem aquilo. Mario Fernandes é um moço com sonhos, angústias, dúvidas e medos como qualquer outro de sua idade. E que, ao contrário do que ocorre com a maioria, não se envergonhou de assumir a insegurança e abandonou um barco para o qual não se sentia preparado. Ou que não o encantava. Como desdobramento lógico dessa opção, abriu mão de um compromisso que não lhe traria satisfação e preferiu seguir a rotina onde se sente confortável.

Não há valentia nem crime nisso. Se fosse para arriscar um rótulo, eu tenderia a ver a negativa mais como ato de destemor e menos como indício de descompensação psicológica. Ele fez algo que nós muitas vezes desejamos na vida e não ousamos tocar adiante. Chutou o balde que o incomodava. Sortudo.

Reflita comigo, sem vergonha de reconhecer: quantas vezes na vida engolimos sapos por receio de desagradar chefes e arcar com eventuais represálias? Quantas tarefas já cumprimos sem vontade e só por medo de perdermos o emprego? Quantas ocasiões nos calamos, diante de amigos ou parentes, só para não nos queimarmos? Alguém terá coragem de atirar a primeira pedra?

Por que um jogador não pode falar "obrigado, passar bem" para a seleção? Qual o crime que se está a cometer? Nenhum. Criou-se a lenda de que vestir a camisa amarela equivale a servir a pátria. Como se o destino do Brasil estivesse numa partida. Pátria de chuteiras é bela imagem literária e teve seu peso. Hoje, soa anacrônica. Principalmente se levarmos em conta o tanto que a seleção se vulgarizou. Taí outro jogo estapafúrdio com os hermanos para não me desmentir. Como escrevi duas semanas atrás, transformaram duelo com história tão rica em mais um projeto comercial.

No Pará, estarão em jogo acordos de publicidade e não uma etapa necessária para ajustar o time para o Mundial de 2014. Fosse assim, estariam lá todos os atletas que Mano considera importantes no momento e não apenas aqueles que atuam por aqui. E quem garante que Mario Fernandes, embora confuso, não se tenha dado conta disso? De que foi lembrado por falta de alternativas, como a maioria de seus colegas? Se pensou assim, não errou de todo...

Usa-se o episódio, que nem inédito é, para lição de moral. Só para ficar na história recente, Mauro Silva saltou fora no aeroporto, minutos antes de embarque para a Colômbia. Serginho desdenhou a seleção em seus tempos de Milan. Zé Roberto avisou que encerrava seu ciclo após o Mundial de 2006. Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká em alguns momentos pediram férias em vez de jogar amistosos ou Copa América. Nem por isso foram menos profissionais.

Agora pegam Mário Fernandes pra Cristo? Não tem cabimento. Mano mostrou irritação ao dizer que "seleção é coisa séria". Também acho. Por isso, considero impróprias muitas das convocações que o treinador de hoje fez - assim como vários de seus antecessores apelaram para destemperadas e inconcebíveis experiências. Seleção séria não entraria em furadas de jogar contra rivais inexpressivos nem atrapalharia a vida de times que disputam campeonatos em etapas de definição. Cadê seriedade?

Que o Mario Fernandes seja feliz com suas escolhas. E se, de fato, tiver problemas, tomara que os resolva. No mais, a vida segue sem a seleção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.