À espera do milagre

Na quarta-feira, 19, se festeja San Gennaro, padroeiro de Nápoles e muito popular também por aqui. A fé pelo mártir cujo sangue se liquefaz anualmente, há quase dois milênios, se difundiu em São Paulo e no sul do País por influência de imigrantes italianos e seus milhões de descendentes. A Mooca dedica o mês de setembro todo ao santo milagroso.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h04

San Gennaro tem bases sólidas de seguidores dentre os torcedores do Palmeiras, por razões óbvias. Na infância que passei no Bom Retiro, viu muitas vezes Toninho Cazzeguai, o maior filósofo do bairro, organizar saraus para o Napolitano, como o santo era tratado no pedaço, assim mesmo, na maior intimidade, de igual para igual com os mortais. Encontros simples e alegres.

Pois soube agora que tem muito palestrino a pedir uma antecipação da graça que San Gennaro pode proporcionar-lhes, se assim for da vontade dele. A solicitação piedosa, reforçada por velas de sete dias, flores e outros mimos, é no sentido de que o santinho pouse as mãos sobre os jogadores alviverdes que entrarem em campo, na tarde de hoje, para o clássico com o Corinthians.

O jogo por si só há um século merece apelos especiais, porque não se trata de acontecimento comum. Palmeiras x Corinthians não é para iniciantes. Mas o momento é pra lá de delicado - daí as rezas redobradas. O Palmeiras está com a corda no pescoço e um pé na Segunda Divisão. O desespero espalha-se com mais velocidade do que boato de internet e, de quebra, o time desde quinta-feira ficou sem técnico, já que a diretoria concluiu que Felipão era o mal maior.

Como desgraça pouca é bobagem, terá pela frente o adversário mais tradicional, responsável por momentos memoráveis e por catástrofes só comparáveis à destruição de Pompeia pelo vulcão Vesúvio, no começo da Era Cristã. O rival histórico vai muito bem, obrigado, ganhou a Libertadores e esquenta os motores para detonar o Chelsea, no fim do ano, na disputa pelo título mundial.

Em circunstância rotineira, esse panorama já representaria muita humilhação para o Palmeiras. Agora o constrangimento pode aumentar, se se cumprir a promessa velada de jogadores alvinegros de dar mais um empurrãozinho para baixo na turma da Pompeia (nada é por acaso, dirão os fatalistas). San Gennaro, portanto, foi chamado. E nunca é demais auxílio extra de Santo Expedito...

A fé ajuda, por que não? Seja qual for o credo, vale a pena invocar forças celestiais, não como vingadoras de infiéis nem como respaldo para violência religiosa. Jogar futebol também cai bem. E disso o Palmeiras precisa muito. Parece maluquice, mas a equipe não vinha de todo mal nas últimas rodadas e algumas derrotas soaram injustas.

O interino Narciso não tem como remodelar a roda; o que conseguir hoje, vale ser encarado como lucro. O torcedor deve apoiar os jogadores, se estima que mereçam. Deve ficar atento, também, no desempenho deles. Se passarem a dar sangue, a comer a bola além da conta, abrirão espaço para duas interpretações: enfim, tiveram consciência da gravidade da situação e por que não o fizeram antes?

O Corinthians é franco-atirador - ou melhor, franco-gozador, porque não tem nada a perder. Jogará praticamente com força máxima (tenta inclusive Emerson, que pegou suspensão estúpida) e surge como favorito disparado. Tem contra si a tradição do duelo de ser pródigo em reabilitar o lado que entra em crise. E, quem sabe?, a complacência de San Gennaro com os netos de seus devotos.

Mas, se nem o santo der jeito...

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.