A estrela e o centroavante

Ele chegou na quinta-feira, conheceu seus novos companheiros na sexta e é bem provável que ainda não tenha memorizado o nome dos menos famosos do grupo de Felipão. Era tão necessário ter um jogador para ocupar a área que o treinador não se importou com o pouco tempo de clube ou a falta de entrosamento do novo contratado, até quarta-feira artilheiro do anêmico Guarani na Série B, com cinco gols. Queria um gigante, como nos tempos do Grêmio, com Jardel na área e Paulo Nunes sempre por perto.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Fernandão entrou ainda no primeiro tempo na vaga de Patrik, depois de o Corinthians abrir o placar com Émerson. Mudou o estilo do time, agora com liberdade para levantar bolas, e passou a ser a referência na área. Naquele momento, o fato de ainda ser um desconhecido para os demais jogadores ficou em segundo plano. O jogo pedia um centroavante, capaz de prender zagueiros, tirá-los do conforto e de receber o jogo aéreo.

O gigante do Palestra entrou para uma função específica, numa partida que normalmente tende a ser diferente. Um clássico nem sempre se explica, se vive. E Fernandão viveu o seu como num sonho. Se Felipão acreditasse apenas na lógica, não o teria levado para o confronto.

Pode chamar de estrela se quiser, de sorte, a verdade é que a vitória brotou da mudança, da difícil decisão de substituir um jogador ainda na primeira etapa. Um centroavante desse tipo era a expectativa e a necessidade do Palmeiras, principalmente pelo estilo que o treinador costuma conferir às equipes.

Três minutos depois de entrar em campo, Fernandão espalhou a defesa corintiana numa cobrança de escanteio de Marcos Assunção. Luan empatou no rebote, resultado também de uma péssima saída do goleiro Júlio César.

O Palmeiras não estava mal, apenas mantinha a área vazia, pois havia um caminho para o gol, na verdade uma avenida no setor direito corintiano, de Wallace, explorado por Luan, Gabriel Silva e até por Kléber. Com Émerson no time, o Corinthians ganhou mais agressividade no ataque, mas perdeu um combatente na recuperação da bola.

Com Danilo apagado e na mira do volante Chico, sumiu o passe do meio de campo corintiano. Faltou articulação diante de um Palmeiras que logo no início do segundo tempo virou o jogo com o tal Fernandão, gol de centroavante, de dono do pedaço, em mais uma jogada de Marcos Assunção, agora um lançamento, nas costas do zagueiro Chicão. O grandalhão dominou no peito, esperou a queda da bola e, sem deixá-la cair, fez 2 a 1.

O currículo não impressiona. O centroavante, de 24 anos, passou por América (RJ), Flamengo, Maccabi Haifa (Israel), Volta Redonda, Paysandu e Guarani. No clássico também vale a estrela.

Apesar da derrota, o Corinthians conseguiu se manter na liderança, mantida, mais uma vez, pelo tropeço da concorrência. Do jeito que está, entretanto, falta pouco para Tite ver o primeiro lugar escapar. E, talvez, também o cargo. Há nove rodadas, desde a derrota para o Cruzeiro, no Pacaembu, a fase mudou.

O problema é maior que uma decisão tática, a escalação de dois meias ou dois jogadores velozes no lado do campo. O Corinthians simplesmente parou de funcionar na defesa e no ataque. Dos últimos 27 pontos, conquistou apenas nove. Esses apagões também aconteceram em outras campanhas, até na do Fluminense campeão do ano passado. O problema é que não existe manual para sair da crise. O que é existe é a norma do futebol: treinadores são sempre culpados.

Ao final do primeiro turno, a diferença entre o líder e o quinto colocado é de apenas três pontos. Terminar a primeira etapa na ponta não representa segurança. O campeonato continua bom e aberto.

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