A falta que fazem os adultos

Pelé não dançava, e tinha apenas dezessete anos quando foi campeão do mundo. Coutinho e Edu Jonas também não, e entraram no time do Santos e na seleção aos dezesseis anos. Todos faziam gols impossíveis, tabelas e dribles antológicos, inesquecíveis. E ainda assim, não dançavam. Tinham idade para isso.Eram o que se chama "moleques". Talvez passasse pelas suas cabeças dar uma dançadinha, fazer uma palhaçada própria de adolescentes. Talvez pensassem, por que não? É típico da idade uma certa irreverência, e a tentativa de impor-se e mostrar sua genialidade. Por que não fizeram? A primeira explicação que me ocorre é que se havia "moleques" nos times, havia também "adultos". Não sei se jamais passou pela cabeça do Pelé dar um chapéu num adversário com a jogada parada só para divertir-se, mas se ocorreu ele deve ter imediatamente abandonado a ideia ao pensar no que teria que ouvir de Zito. Nos tempos de Pelé, eram os adultos que comandavam os times. Eram homens que tinham que lever dinheiro para casa e sabiam que futebol, apesar de divertido, tem suas regras que não podem ser infringidas. Uma delas é não espicaçar um adversário a ponto de vê-lo crescer e ganhar a partida.

Ugo Giorgetti, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Os adultos não queriam perder, porque dependiam de vitórias. Os adultos não eram os melhores nem os mais talentosos dos times, eram apenas os que tinham mais autoridade moral e liderança. Tinham também o que se chama ética de boleiro, isto é, não se pode esculhambar adversário nenhum, todos são profissionais, todos vivem da bola e o futuro ninguém sabe. Quem hoje dá risada na arquibancada e na crítica esportiva, amanhã vai lhe virar as costas, se a sorte mudar. Hoje não há mais Zitos em time nenhum, o que vale dizer que há poucos adultos, se algum. Aliás, não só no futebol. A adolescência se estende cada vez mais pela vida e hoje aos trinta anos muita gente ainda é a "criança da mamãe". São os alegres moleques, não importa com que idade, que dão o tom, e todos abaixam a cabeça em nome do direito à diversão.

Eu pergunto: no futebol, que diversão há em tripudiar deliberadamente sobre o adversário? Não me venham dizer que são só as danças. Não são. Há sinais de desprezo, risinhos, gestos, palavras que um boleiro dirige a outro durante o jogo. Ninguém é contra a habilidade, ou a alegria. Não alguém que viu Garrincha, Pelé, Rivellino, Pedro Rocha, Ademir etc. Pra ficar no momento atual, alguém acha que Ronaldo Fenômeno é triste porque não rebola? E fez e faz gols de uma beleza arrasadora.

O que me espanta nisso tudo é ver gente serena e ética, como Dorival Júnior, falando em "campanha orquestrada contra a alegria" e outras bobagens do gênero. Ele deveria orientar melhor seus moleques, aliás não tão moleques , como o Robinho, por exemplo, que com seus sólidos vinte e cinco ou vinte e seis anos poderia pensar em, finalmente, entrar na fase adulta. Deveria dizer a Neymar que ele tem muita sorte de ter dado o chapéu no Chicão, do Corinthians. Se tivesse feito a mesma coisa com outro Chicão, o velho e saudoso Chicão, do São Paulo, garanto que estaria arrependido até hoje.

O pior é que a "molecagem" se espalha. Os jogadores do Palmeiras, ao dar um troco ridículo nos moleques do Santos, executaram uma "dança" que me lembrou sintomas de várias doenças nervosas combinadas. Michael Jackson deve andar se revirando no túmulo.

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